Pós-Parto: como Lidar com a Frustração quando a Maternidade não Sai como o Esperado

Bebê idealizado e bebê real: entenda por que a frustração no pós-parto pode virar luto perinatal

Expectativas sobre sexo do bebê, parto, amamentação e saúde do recém-nascido podem gerar frustração, luto, ansiedade e culpa. Psicóloga perinatal explica como isso afeta o vínculo e quais sinais indicam hora de buscar ajuda

Antes da gravidez, muitas famílias já convivem com um bebê que só existe na imaginação. Ele ganha sexo, aparência, temperamento e até características. Essa construção pode começar ainda na infância, atravessar adolescência e vida adulta e aparecer como uma certeza quando a gestação chega.

“Na verdade, o bebê vai existir na imaginação muito antes de a gestação acontecer”, diz a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline. Ela explica que muitas mulheres fantasiam por anos esse filho idealizado, com uma personificação que vira referência emocional. E isso não é exclusivo da mãe, os pais também criam expectativas, imaginam como será o bebê e se vinculam a essa ideia antes do nascimento.

Quando a realidade quebra o roteiro

Idealizar não é, por si, um problema. Rafaela explica que imaginar o bebê ajuda a construir um vínculo. A dificuldade aparece quando a realidade não corresponde ao que foi fantasiado. É nesse desencontro que podem surgir frustrações e, em alguns casos, luto.

Idealizar não é, por si, um problema. Rafaela explica que imaginar o bebê ajuda a construir um vínculo. A dificuldade aparece quando a realidade não corresponde ao que foi fantasiado. É nesse desencontro que podem surgir frustrações e, em alguns casos, luto.

Um exemplo é o sexo do bebê. Quando ele não corresponde ao que a família imaginava, pode surgir um luto pelo bebê idealizado. A psicóloga diz que esse sentimento nasce do choque entre expectativa e realidade. No dia a dia, ele também pode aparecer quando o recém-nascido é muito choroso, apesar da expectativa de um bebê mais tranquilo, ou quando há uma condição de saúde que contraria a imagem de um bebê saudável.

Em alguns casos, a frustração vem acompanhada de culpa, quando a mulher passa a acreditar que “causou” a diferença entre o bebê idealizado e o real, especialmente diante de intercorrências. Segundo a psicóloga, esse tipo de pensamento aumenta o silêncio e a vergonha, alimentados pelo mito de que a maternidade é instintiva e que a mãe ama sem ambivalência. “Quando a mulher não se sente assim, ela acha que tem algo errado com ela e evita falar”, diz. Nem sempre isso vira adoecimento, mas pode intensificar estresse e ansiedade. O alerta, segundo ela, aparece quando emoções e comportamentos mudam de forma significativa e começam a atrapalhar o dia a dia.

Rafaela explica que o luto perinatal também pode aparecer em outras situações, porque a perinatalidade envolve perdas simbólicas, mesmo sem perda do bebê. Dois exemplos comuns são o parto que não acontece como a mulher desejava – como quando ela queria parto normal e precisou de cesárea – e a amamentação que não se concretiza, apesar do esforço e do desejo.

Esse luto pode se manifestar como aumento de ansiedade, culpa e irritabilidade. Em alguns casos, evolui para alterações mais intensas. Ela acrescenta que frustração e luto podem ganhar força quando outras intercorrências se somam. Parto traumático, prematuridade e baixo peso ao nascer podem aumentar o risco de depressão pós-parto, ansiedade elevada e estresse, principalmente quando há histórico de transtornos mentais em outras fases da vida. 

No pós-parto, muitas mulheres percebem que a maternidade real não se parece com a versão romantizada que circula. Rafaela cita mudanças simples do cotidiano que, somadas, pesam, como levar tempo para voltar ao cabeleireiro, tomar banho com calma, assistir a um filme ou retomar a vida a dois.

Veja 7 sinais de alerta no pós-parto para buscar ajuda

1-  Choro frequente

2- Irritabilidade sem motivo aparente

3- Sensação de incompetência constante

4- Pensamentos de fazer mal a si mesma ou ao bebê

5- Emoções e comportamentos alterados a ponto de incomodar

6- Ansiedade fora do esperado para o período

7- Estresse intenso, em fase de quase exaustão

Quando existe adoecimento, esse sofrimento pode atrapalhar o vínculo mãe-bebê e o cuidado cotidiano, com reflexos também nas práticas educativas. Rafaela afirma que a mãe conhece o bebê real no contato diário – ao amamentar, dar banho, cuidar, trocar de roupa e colocar para dormir – e que, com o tempo, essa convivência pode facilitar a adaptação e a construção do vínculo possível.

O que costuma ajudar é ter rede de suporte, uma relação conjugal estável e histórico de saúde mental mais equilibrado. Quando falta apoio ou quando a mulher já estava vulnerável, o peso aumenta. Por isso, Rafaela defende acompanhamento com profissional de saúde mental perinatal para reconhecer a frustração, o luto e construir estratégias individualizadas.

Para a especialista, a família e o parceiro ajudam quando abrem espaço para a mulher falar a verdade e oferecem escuta. Ela alerta que frases moralizantes ou religiosas usadas para “corrigir” sentimentos tendem a piorar, porque geram julgamento e bloqueiam a expressão da frustração. Segundo ela, a romantização é um fator de risco justamente por reduzir o espaço de fala. Validar o sentimento sem minimizar aumenta a confiança, favorece a elaboração do luto e abre caminho para o vínculo com o bebê real.

Fonte: Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.

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