Junho marca o Mês Mundial da Conscientização da Infertilidade

Pressão para engravidar pode afetar saúde mental

Ansiedade, culpa, isolamento e tristeza persistente podem aparecer durante a tentativa de engravidar

Junho marca o Mês Mundial da Conscientização da Infertilidade, tema que costuma ampliar o debate sobre diagnóstico, tratamento e acolhimento de pessoas que enfrentam dificuldade para engravidar.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 6 pessoas adultas no mundo é afetada pela infertilidade ao longo da vida. Além dos desafios médicos, a infertilidade também pode trazer impactos importantes para a saúde mental, principalmente diante de tentativas frustradas de engravidar, tratamentos prolongados e da pressão social em torno da maternidade.

Casos públicos, como o de Mariana Rios, que compartilhou sua jornada até a maternidade antes do nascimento do seu filho Palo, ajudam a dar visibilidade a uma realidade vivida por muitas mulheres, mas ainda cercada por culpa, silêncio e perguntas invasivas.

Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, a infertilidade pode desencadear ansiedade, estresse, tristeza persistente e sentimento de culpa, especialmente quando há tratamentos prolongados, perdas gestacionais ou cobranças familiares.

“É muito comum que mulheres que passam por esse processo de fertilização in vitro várias vezes e não conseguem apresentem alterações emocionais significativas. E muitas que já têm histórico de transtorno mental, ao elevar essas alterações emocionais, podem inclusive voltar a apresentar algum tipo de reincidência”.

Infertilidade vai além do diagnóstico médico

Para muitas mulheres, a infertilidade não representa apenas uma condição de saúde. Ela afeta projetos de vida, relacionamentos, autoestima e a forma como a mulher percebe o próprio corpo.

Rafaela explica que a maternidade ainda é cercada por expectativas sociais. Por isso, quando a gravidez não acontece, algumas mulheres passam a se sentir insuficientes ou fracassadas.

“Como se fosse uma árvore que não consegue dar frutos. Ela pode se sentir assim, culpada, sentir que não é boa o suficiente. E claro que nada disso é real. Isso são alguns sintomas que a sociedade coloca sobre essa pressão na mulher para que ela seja mãe, para que ela tenha filhos”, explica.

Perguntas que parecem simples podem machucar

Quem enfrenta infertilidade costuma lidar também com comentários e questionamentos frequentes de familiares, amigos e conhecidos.

Frases como “e os filhos?”, “quando vem o bebê?” ou “vocês não querem tentar?” podem parecer simples para quem pergunta. Para quem está em tratamento, viveu perdas gestacionais ou tenta engravidar há muito tempo, porém, esse tipo de comentário pode reabrir o sofrimento.

Segundo a psicóloga, a cobrança aumenta a sensação de exposição e pode levar ao isolamento social.

“Estabelecer limites não é falta de educação. É uma forma de proteger a própria saúde mental em um momento de vulnerabilidade”, afirma.

Sinais de alerta para a saúde mental

Durante a tentativa de engravidar, alguns sinais podem indicar que o sofrimento emocional precisa de atenção especializada:

  • Tristeza persistente e choro frequente;
  • Sentimento de culpa ou fracasso;
  • Isolamento social ou afastamento de vínculos;
  • Ansiedade elevada ou irritabilidade constante;
  • Alterações no sono;
  • Perda de interesse por atividades antes prazerosas.

Segundo Rafaela, nesses casos, o acompanhamento psicológico pode ajudar a lidar com expectativas, frustrações e incertezas que surgem ao longo do processo. Ainda de acordo com ela, a infertilidade não deve ser tratada apenas pela perspectiva do procedimento médico. O cuidado emocional também faz parte da jornada, principalmente quando há repetidas tentativas, exames, decisões difíceis ou medo de uma nova perda.

Como lidar com esse período

Algumas atitudes podem ajudar mulheres que estão tentando engravidar a atravessar o processo com mais acolhimento:

Reconheça suas emoções

Sentimentos como tristeza, raiva, medo ou frustração são comuns e não devem ser ignorados. Validar o que se sente é o primeiro passo para buscar ajuda.

Evite comparações

Cada trajetória reprodutiva é diferente. Comparar idade, tempo de tentativa, tratamentos ou resultados costuma aumentar a ansiedade.

Estabeleça limites

Nem toda pergunta precisa ser respondida. Preservar a privacidade também é uma forma de autocuidado.

Busque apoio

Conversar com pessoas de confiança, grupos de apoio ou profissionais especializados em saúde perinatal e da parentalidade pode reduzir a sensação de solidão.

Procure atendimento especializado

A psicologia perinatal pode ajudar a família a compreender emoções, organizar expectativas e atravessar tratamentos, perdas ou incertezas com mais suporte.

Para Rafaela, um dos principais desafios é desconstruir a ideia de que a capacidade de engravidar define o valor de uma mulher.  A infertilidade pode ter diferentes causas e nem sempre está sob controle da pessoa que deseja ter filhos. Por isso, além do acompanhamento médico, o acolhimento emocional é importante.

Fonte: Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.

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