Mulher dá à luz aos 62 anos e caso amplia debate sobre os novos caminhos para a maternidade

Especialistas explicam como a reprodução assistida tem ampliado as possibilidades para pessoas que desejam ter filhos
O caso de uma mulher que se tornou mãe pela primeira vez aos 62 anos, na Argentina, voltou a chamar atenção para os avanços da reprodução assistida e para as diferentes possibilidades disponíveis atualmente para a formação de uma família. Mabel deu à luz David no dia 12 de agosto, no Hospital San Felipe, na cidade argentina de San Nicolás. O bebê nasceu com 2,75 quilos após uma gravidez viabilizada por fertilização in vitro com doação de óvulos. Já na menopausa, ela se tornou a mulher mais velha a dar à luz na Argentina, segundo a imprensa local.
Para Ana Paula Del Padre, representante da Tammuz no Brasil, o caso representa uma transformação que já pode ser observada entre pessoas que procuram alternativas para realizar o desejo de ter filhos. “Esse caso reforça algo que vivemos na prática há quase 20 anos: o sonho de ser mãe ou pai não tem um prazo de validade único, e cada história tem o seu próprio tempo. Temos percebido um aumento na procura de pessoas que, por diferentes razões, adiaram a maternidade ou a paternidade e agora buscam alternativas para realizar esse sonho. São mulheres que passaram por tratamentos que afetaram a fertilidade, casais que levaram mais tempo para se organizar financeira e emocionalmente, e pessoas que, simplesmente, não encontraram antes o momento ou o parceiro certo. A reprodução assistida, incluindo a gestação por substituição em determinados casos, tem ampliado essas possibilidades, e já apoiamos mais de 2.200 nascimentos em mais de 15 países, o que mostra como os caminhos para formar uma família se diversificaram”, afirma.
A idade deve ser levada em consideração, mas, não é impeditivo para a maternidade
Do ponto de vista médico, uma gravidez após a menopausa exige avaliação individualizada e acompanhamento especializado. Para o especialista em fertilidade e ginecologia cirúrgica Dr. Waldemar Carvalho, com mais de 25 anos de experiência em reprodução humana, a idade interfere principalmente na quantidade e na qualidade dos óvulos disponíveis. “A partir dos 40 anos, existe uma queda importante na qualidade dos óvulos e, consequentemente, na possibilidade de formar embriões geneticamente adequados. Quando a mulher já não dispõe de óvulos com potencial reprodutivo, a doação de óvulos passa a ser uma alternativa para viabilizar a gestação”, explica.
Embora a idade seja um dos fatores que levam à procura pela reprodução assistida, Ana Paula explica que as histórias atendidas são diversas e não se limitam à maternidade tardia. “Sim, a idade é um dos fatores, mas está longe de ser o único. Recebemos mulheres que enfrentam questões médicas que impedem uma gravidez segura, casais homoafetivos masculinos que desejam ter filhos biológicos, pessoas solteiras que optam pela parentalidade independente e também famílias que já tentaram outros caminhos de reprodução assistida sem sucesso. Cada família que chega até a Tammuz carrega uma história única, e o nosso papel é entender essa história para construir, junto com ela, o caminho mais adequado, seja um tratamento de fertilização in vitro, seja um programa internacional de gestação por substituição”, explica.
O caso que ganhou visibilidade recentemente também evidencia a importância de diferenciar a possibilidade técnica de uma gestação de sua indicação médica. Mesmo com os avanços da reprodução assistida, fatores como idade, condições cardiovasculares, saúde metabólica e histórico clínico precisam ser avaliados antes de qualquer decisão. “Uma gestação em idade materna avançada é considerada de maior atenção e exige uma avaliação criteriosa antes mesmo do início do tratamento. É preciso verificar as condições clínicas da mulher, incluindo aspectos cardiovasculares e metabólicos, além da saúde do útero, para entender se a gestação pode ocorrer com segurança”, afirma Carvalho.
Para os especialistas, casos como o da mulher argentina também reforçam a necessidade de se discutir planejamento reprodutivo antes que a idade se torne um fator limitante. “A medicina reprodutiva avançou muito e hoje existem alternativas para mulheres que desejam ser mães mais tarde, inclusive com o uso de óvulos doados”, pontua o médico. “Cada caso precisa ser analisado individualmente, e quanto mais cedo houver planejamento, maiores são as possibilidades de preservar opções para o futuro”, conclui Ana Paula.
Fontes:
Ana Paula Del Padre, representante da Tammuz no Brasil –
Ginecologia cirúrgica Dr. Waldemar Carvalho, com mais de 25 anos de experiência em reprodução humana

