Desenvolvimento Infantil

Desenvolvimento infantil: por que cobramos a autonomia que não ajudamos a construir?

Quando a criança demonstra alguma dificuldade, a pergunta não deve ser o que falta nela, mas quais oportunidades oferecemos para que ela possa se desenvolver; terapeuta ocupacional explica

Diante de um desafio no desenvolvimento infantil, nossa primeira reação costuma ser buscar explicações na própria criança. Ela tem dificuldade para prestar atenção? Ainda não consegue realizar determinada tarefa sozinha? Encontra barreiras para brincar com outras crianças ou reage de uma forma diferente do esperado? O que precisa aprender? Que habilidades precisam ser estimuladas?

Como terapeuta ocupacional, aprendi que, diante de uma dificuldade, não basta olhar para a criança. É preciso observar aquilo que acontece ao redor dela. Como é sua rotina? Que oportunidades ela tem para explorar, escolher, tentar e até errar? Qual é a postura dos adultos diante de suas conquistas e dificuldades? Há espaço para brincar, participar e desenvolver autonomia? O ambiente facilita esse processo ou impõe obstáculos?

Essas questões são cruciais porque o desenvolvimento não acontece apenas dentro da criança. Ela nasce com características próprias, um corpo, um sistema nervoso e determinadas possibilidades e vulnerabilidades. Há processos de maturação biológica que não podem ser ignorados. Mas esse organismo não se desenvolve isoladamente: desde o início da vida, ele está em relação com outras pessoas, objetos, espaços, práticas culturais, condições materiais e experiências.

Pensemos em uma situação simples. Imagine, por exemplo, que uma criança apresenta dificuldade para se vestir sozinha. Podemos olhar exclusivamente para ela e investigar coordenação motora, planejamento, atenção ou compreensão da sequência da tarefa. Tudo isso é necessário, mas também podemos fazer outra pergunta: como essa criança participa do momento de se vestir todos os dias?

Pode ser que a manhã seja tão corrida que um adulto prefira colocar suas roupas porque é mais rápido. Talvez as peças sejam difíceis de manusear. Quem sabe ela nunca tenha tido tempo suficiente para tentar. Ou frequentemente alguém intervenha ao primeiro sinal de dificuldade. Ou realmente necessite de um apoio específico para conseguir participar.

A mesma dificuldade observada pode, portanto, estar relacionada a processos muito diferentes, e isso muda profundamente nossa maneira de pensar o desenvolvimento. Não se trata de negar características individuais nem de responsabilizar a família ou o ambiente por tudo aquilo que acontece com uma criança. Essa seria apenas outra simplificação. O ponto é compreender que uma capacidade não se desenvolve no vazio.

Para aprender a escolher, uma criança precisa encontrar oportunidades de escolha. Para aprender a resolver problemas, precisa encontrar problemas que possa tentar solucionar. Para desenvolver habilidades sociais, precisa participar de relações. Para aprender a lidar com o erro, precisa ter experiências em que errar não encerre imediatamente sua tentativa.

Até mesmo aquilo que chamamos de capacidade individual carrega uma história de relações e experiências. Por isso, às vezes, diante de uma dificuldade infantil, concentramos todos os nossos esforços em mudar a criança quando alguma transformação também precisa acontecer nas condições em que ela está inserida.

Uma adaptação no ambiente pode tornar possível aquilo que antes parecia incapacidade. Uma mudança na rotina pode diminuir um desafio. Um adulto que deixa de antecipar cada tentativa pode criar espaço para iniciativa. Um apoio adequado pode permitir que uma criança participe de algo que ainda não consegue realizar sozinha. Esse olhar é particularmente importante quando pensamos em crianças com deficiência ou neurodivergência.  

É importante entender que participar não significa fazer tudo sem ajuda. Há crianças que precisarão de suportes, adaptações ou mediações durante muito tempo — algumas, ao longo de toda a vida. Isso não diminui sua possibilidade de participação nem sua condição de sujeito.  

Possivelmente uma das mudanças mais importantes seja justamente abandonar a pergunta sobre o que falta à criança como nossa única forma de compreender suas aptidões. Podemos continuar perguntando: o que esta criança ainda não consegue fazer? Mas precisamos acrescentar outras perguntas: em quais condições ela está tentando fazer? Que oportunidades encontra para participar? O que, ao seu redor, facilita ou restringe suas possibilidades?

Quando mudamos as perguntas, o desenvolvimento deixa de parecer algo que acontece exclusivamente dentro de um indivíduo e começa a ser compreendido como aquilo que realmente é: um processo vivo, construído continuamente no encontro entre a criança e o mundo que ela habita.  

E quem sabe essa mudança de mentalidade também transforme nossa maneira de cuidar. Porque, algumas vezes, para ampliar as possibilidades de uma criança, não precisamos começar tentando mudá-la. Precisamos olhar para as condições que estamos oferecendo para que ela possa experimentar e se desenvolver.  

Fonte: Andréa Fernandes é terapeuta ocupacional, mãe de três e autora do lançamento Pequenos e Decisivos Passos na Infância, pela Alta Books.

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