Infecção urinária em crianças: quando é preciso investigar além da infecção?

Nefrologista do Sabará Hospital Infantil responde cinco perguntas sobre o tema e alerta que metade das crianças que chegam à diálise ou ao transplante renal apresentou infecção urinária como primeira manifestação da doença
Uma simples febre sem causa aparente em um bebê pode ser muito mais do que um mal-estar passageiro. Embora a infecção urinária seja uma das infecções bacterianas mais frequentes na infância, episódios recorrentes devem servir como um importante sinal de alerta para pais e profissionais de saúde, pois podem indicar alterações congênitas do trato urinário ou doenças renais potencialmente graves.
A importância da investigação precoce é reforçada por dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), que mostram que cerca de metade das crianças que chegam à diálise ou ao transplante renal apresentam doenças cuja primeira manifestação foi uma infecção urinária.
A condição é relativamente comum na infância. Estima-se que, até os 7 anos de idade, cerca de 8% das meninas e 2% dos meninos tenham pelo menos um episódio de infecção urinária. A incidência apresenta dois picos principais: nos primeiros anos de vida e entre os 2 e 4 anos de idade.
Em alguns casos, a infecção está associada ao refluxo vesicoureteral (RVU), alteração caracterizada pelo retorno da urina da bexiga para os rins, o que pode aumentar o risco de infecções repetidas e danos renais. Estudos indicam que entre 20% e 30% dos recém-nascidos e crianças entre 12 e 36 meses diagnosticados com infecção urinária apresentam refluxo vesicoureteral. Quanto mais precoce ocorre o primeiro episódio de infecção, maior a probabilidade de existência dessa alteração.
Segundo a Dra. Maria Cristina Andrade, coordenadora da Nefrologia do Sabará Hospital Infantil, muitos pais acreditam que o problema está resolvido após o desaparecimento dos sintomas com o uso de antibióticos, mas nem sempre é assim. “A infecção urinária recorrente deve ser vista como um sinal de alerta. Em alguns casos, ela pode indicar alterações congênitas das vias urinárias ou outras doenças que exigem investigação e acompanhamento médico especializado”.
O reconhecimento da infecção urinária pode ser desafiador, principalmente nos primeiros anos de vida, quando os sintomas costumam ser inespecíficos. Nos recém-nascidos, os sinais podem incluir dificuldade para se alimentar, vômitos, diarreia, febre, hipotermia, irritabilidade, sonolência excessiva, icterícia e dificuldade de ganho de peso. Em situações mais graves, a infecção pode evoluir para quadros generalizados e exigir atendimento imediato.
Nos lactentes e crianças menores de 2 anos, os sintomas também costumam ser pouco específicos e podem se manifestar por febre sem foco aparente, desconfortos gastrointestinais, dor abdominal, vômitos, diarreia ou urina com odor alterado.
Já em crianças maiores de 2 anos, os sintomas tendem a ser mais característicos e incluem dor ou ardência ao urinar, aumento da frequência urinária, urgência para fazer xixi, escapes urinários, alterações no cheiro ou na aparência da urina, sangue na urina e dor abdominal. Quando a infecção acomete os rins, podem ocorrer febre alta, calafrios e dor na região lombar. “Como os sintomas nos bebês podem ser muito inespecíficos, toda febre sem foco definido merece avaliação cuidadosa para descartar infecção urinária”, alerta o cirurgião urologista pediátrico do Sabará Hospital Infantil, Dr. Luciano Onofre.
Identificar rapidamente a causa das infecções recorrentes é fundamental para evitar complicações futuras. Episódios repetidos podem provocar inflamações sucessivas e favorecer a formação de cicatrizes renais permanentes, comprometendo a função dos rins ao longo da vida. “O tratamento não deve se limitar ao controle da infecção do momento. Quando os episódios se repetem, é fundamental investigar a causa para proteger o desenvolvimento e a saúde renal da criança a longo prazo”, Dra. Maria Cristina.
Para esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto, Dr. Luciano Onofre, cirurgião utologista pediátrico do Sabará, respondeu as cinco perguntas mais realizadas no consultório sobre infecção urinária infantil:
Crianças que usam fraldas têm mais risco de infecção urinária?
Não há evidências suficientes para afirmar que o uso de fraldas, por si só, aumente o risco de infecção urinária. A maioria das infecções urinárias na infância é causada por bactérias que vivem normalmente no intestino, principalmente a Escherichia coli. Essas bactérias podem chegar à região próxima à uretra e, a partir daí, alcançar a bexiga e, em alguns casos, os rins. Esse é o principal mecanismo pelo qual as bactérias chegam ao trato urinário.
Como a maioria das infecções urinárias é causada por bactérias de origem intestinal, é comum associar o contato das fezes com a região genital ao risco de infecção. No entanto, essa relação com o uso de fraldas não foi demonstrada de forma consistente.
Se o contato das fezes com a região genital fosse o principal responsável pela infecção urinária, seria esperado que as meninas tivessem mais infecções desde os primeiros meses de vida, já que possuem a uretra mais curta e mais próxima do ânus. Mas não é exatamente isso que acontece. Nos primeiros meses, a infecção urinária é especialmente frequente nos meninos não circuncidados e, mais tarde, passa a ser mais comum nas meninas.
Isso mostra que a relação entre as bactérias intestinais e a infecção urinária é mais complexa do que o simples contato das fezes com a região genital. Nos primeiros meses de vida, por exemplo, a colonização da região ao redor da uretra e do prepúcio por bactérias capazes de causar infecção urinária tem papel importante nos meninos.
Os cuidados com as fraldas continuam sendo importantes. A recomendação é realizar trocas regulares e manter a região limpa e seca, especialmente para preservar a saúde da pele e prevenir assaduras e dermatites. Embora alguns estudos tenham investigado uma possível relação entre a frequência das trocas e a infecção urinária, as evidências disponíveis não permitem considerar esse cuidado uma medida comprovada de prevenção da infecção urinária.
1. Como os pais podem prevenir a infecção urinária?
Os cuidados para reduzir o risco de novas infecções urinárias mudam de acordo com a idade e o desenvolvimento da criança.
Nos bebês, os cuidados habituais com as fraldas continuam sendo importantes: realizar trocas regulares e manter a região genital limpa e seca, principalmente para preservar a saúde da pele e evitar assaduras e dermatites. Além disso, alterações identificadas no ultrassom antenatal, como dilatação dos rins, devem ser acompanhadas após o nascimento. Muitas evoluem bem, mas algumas podem estar associadas a maior risco de infecção urinária e necessitam de investigação e acompanhamento específicos.
O desfralde é outro período que merece atenção.
Nessa fase, a criança está aprendendo a reconhecer os sinais de que precisa urinar e a usar o banheiro de forma independente. O processo deve acontecer de forma tranquila, respeitando seu desenvolvimento e evitando cobranças ou adiamentos frequentes da ida ao banheiro.
Depois do desfralde, é importante estabelecer bons hábitos urinários e intestinais. A criança deve ir ao banheiro regularmente, sem permanecer períodos muito longos sem urinar, e ter tempo para esvaziar completamente a bexiga, sem pressa.
Alguns sinais podem indicar uma alteração no funcionamento da bexiga e merecem atenção, como urgência para urinar, idas muito frequentes ou muito espaçadas ao banheiro e escapes de urina durante o dia. Esses sintomas devem ser reconhecidos e tratados, principalmente quando a criança apresenta infecções urinárias recorrentes.
A constipação intestinal também é um fator importante. Bexiga e intestino funcionam de maneira muito relacionada na infância, e a associação entre alterações da micção e constipação está relacionada a maior risco de novas infecções. Por isso, além de estimular hábitos urinários adequados e uma ingestão adequada de líquidos, é importante identificar e tratar a constipação quando presente.
Quando as infecções são febris ou se repetem, esses cuidados não substituem a avaliação médica. Nesses casos, é importante investigar se existem alterações do trato urinário ou do funcionamento da bexiga e do intestino que estejam favorecendo novos episódios
2. A infecção urinária pode indicar outro problema de saúde?
Sim. Na maioria das crianças, um episódio isolado de infecção urinária não significa que exista outra doença. No entanto, dependendo da idade da criança, da presença de febre, da repetição das infecções e dos resultados dos exames, pode ser necessário investigar fatores que estejam favorecendo esses episódios.
Em bebês e crianças pequenas, algumas alterações congênitas do trato urinário podem aumentar o risco de infecção. Entre elas está o refluxo vesicoureteral, condição em que a urina retorna da bexiga para os ureteres e, em alguns casos, chega aos rins. Outras alterações das vias urinárias também podem estar associadas e precisam ser investigadas quando houver indicação.
Nas crianças que já passaram pelo desfralde, outro aspecto importante é observar como a bexiga e o intestino estão funcionando. Urgência para urinar, escapes de urina durante o dia, idas muito frequentes ou muito espaçadas ao banheiro e constipação intestinal podem indicar uma disfunção vesical e intestinal, condição associada a maior risco de infecções urinárias recorrentes.
Por isso, infecções urinárias com febre ou que se repetem merecem atenção especial. Nesses casos, além de tratar a infecção, é importante avaliar se existe alguma alteração do trato urinário ou do funcionamento da bexiga e do intestino que esteja favorecendo novos episódios.
3. Quais sinais devem alertar os pais?
Os sinais de infecção urinária mudam bastante conforme a idade. Nos bebês, o principal alerta é a febre sem uma causa aparente, porque nessa fase a infecção urinária muitas vezes não provoca sintomas específicos. Irritabilidade, recusa alimentar, vômitos, sonolência ou dificuldade para ganhar peso também podem estar presentes. Por isso, diante de uma febre sem foco definido, especialmente em bebês, a possibilidade de infecção urinária deve ser considerada.
Nas crianças maiores, os sinais costumam ser mais fáceis de reconhecer. Dor ou ardência para urinar, vontade de ir ao banheiro muitas vezes, urgência para urinar, escapes de urina em uma criança que já estava desfraldada e dor abdominal são sintomas que merecem atenção.
A presença de febre alta, mal-estar, vômitos ou dor nas costas pode indicar que a infecção não está restrita à bexiga e atingiu os rins, causando uma pielonefrite. Nessa situação, a avaliação médica deve ser realizada rapidamente.
Outro sinal importante é a repetição das infecções, principalmente quando são acompanhadas de febre. Mais do que tratar cada novo episódio, é preciso avaliar se existe algum fator favorecendo essas infecções, como alterações do trato urinário ou do funcionamento da bexiga e do intestino.
4. Quando é necessário procurar um especialista?
A avaliação especializada é importante quando a criança apresenta infecções urinárias de repetição, episódios acompanhados de febre ou alterações nos rins ou nas vias urinárias identificadas nos exames. Bebês que tiveram alguma alteração observada no ultrassom durante a gestação também podem precisar de investigação e acompanhamento após o nascimento.
Nessas situações, é importante avaliar se existe alguma condição que possa favorecer novas infecções, como refluxo vesicoureteral, alterações na formação das vias urinárias ou problemas no funcionamento da bexiga.
O acompanhamento pode envolver o urologista pediátrico e o nefrologista pediátrico, de acordo com as necessidades de cada criança. O objetivo é identificar possíveis causas para as infecções, avaliar a saúde dos rins e definir quando são necessários exames, acompanhamento ou tratamento. “A infecção urinária é frequente na infância, mas alguns episódios precisam ser investigados com mais atenção. Quando as infecções se repetem, são acompanhadas de febre ou existem alterações nos exames, é importante investigar possíveis causas. A investigação e o acompanhamento adequados ajudam a reduzir o risco de novas infecções e, principalmente, a proteger a saúde dos rins ao longo do crescimento”, explica o Dr. Luciano Onofre, urologista pediátrico do Sabará Hospital Infantil.
Fonte: Sabará Hospital Infantil conta com equipes especializadas em Urologia Pediátrica e Nefrologia Pediátrica, que atuam na investigação e no acompanhamento das crianças com infecções urinárias e alterações do trato urinário, permitindo uma avaliação integrada quando necessária.

