Após perder o filho, mulher de 54 anos recorre a embrião congelado há 22 anos para realizar sonho da maternidade

Créditos: Reprodução / Redes socais
Aos 54 anos, Christina Rapti-Tzelepi deu à luz uma menina concebida a partir de um embrião que permaneceu congelado por mais de 22 anos. A decisão de tentar uma nova gravidez aconteceu após uma tragédia familiar: em outubro de 2025, ela perdeu o filho de 21 anos em um acidente de carro.
O embrião havia sido congelado em 17 de março de 2004, durante o mesmo tratamento de fertilização in vitro (FIV) que resultou no nascimento de seu primeiro filho. Mais de duas décadas depois, Christina decidiu utilizar o material que ainda permanecia preservado.
A bebê nasceu no dia 9 de setembro de 2026, saudável e com 3,49 kg. O caso chama atenção tanto pela idade da mãe quanto pelo longo período em que o embrião permaneceu criopreservado.
Segundo o ginecologista e especialista em reprodução humana Dr. Alfonso Massaguer, diretor clínico da Clínica Mãe, o caso ajuda a explicar uma característica importante da criopreservação: quando mantido corretamente em temperaturas extremamente baixas, o embrião não sofre o mesmo processo de envelhecimento biológico que ocorre no organismo.
“O embrião congelado não envelhece biologicamente da mesma maneira que a mulher envelhece ao longo dos anos. Quando mantemos esse material em condições adequadas de criopreservação, preservamos características relacionadas ao momento em que ele foi formado. Por isso, casos envolvendo embriões armazenados durante décadas são tão interessantes do ponto de vista da reprodução assistida”, explica Dr. Alfonso.
O que acontece com um embrião congelado durante décadas?
Na criopreservação, os embriões são mantidos em temperaturas extremamente baixas, geralmente em nitrogênio líquido. Nessas condições, a atividade metabólica celular fica praticamente interrompida.
Isso significa que o simples passar dos anos no armazenamento não equivale ao envelhecimento biológico que ocorreria dentro do organismo.
“Quando falamos em um embrião congelado há 10, 15 ou 20 anos, é natural imaginar que ele também tenha ‘envelhecido’. Mas não funciona dessa maneira. Se as condições de armazenamento forem mantidas corretamente, o tempo cronológico de congelamento, isoladamente, não determina a qualidade daquele embrião”, explica o especialista.
O sucesso de uma gravidez, entretanto, depende de diversos fatores, como a qualidade embrionária, as condições do laboratório, a técnica utilizada no congelamento e descongelamento e, principalmente, as condições clínicas da mulher que receberá o embrião.
Idade da mulher continua sendo importante
Embora o embrião possa permanecer preservado por muitos anos, uma gravidez aos 50 anos ou mais exige cuidados diferentes daqueles necessários em mulheres mais jovens.
Segundo Dr. Alfonso, a avaliação médica precisa ser rigorosa porque o avanço da idade materna está relacionado ao aumento de riscos durante a gestação.
“Uma coisa é a idade do óvulo ou do embrião no momento em que foi congelado. Outra é a idade e a condição clínica da mulher que irá gestar. Mesmo utilizando um embrião formado muitos anos antes, precisamos avaliar cuidadosamente a saúde cardiovascular, metabólica e obstétrica da paciente antes de uma gestação em idade mais avançada”, ressalta.
Entre as condições que merecem acompanhamento estão hipertensão arterial, diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e outras complicações que podem apresentar maior incidência conforme aumenta a idade materna. Por isso, cada caso precisa ser avaliado individualmente por uma equipe especializada.
Congelamento de óvulos e embriões ampliou possibilidades
Os avanços das técnicas de criopreservação transformaram o planejamento reprodutivo nas últimas décadas.
Atualmente, mulheres podem congelar óvulos para preservar possibilidades futuras de maternidade, enquanto pacientes submetidos à fertilização in vitro podem manter embriões criopreservados para futuras tentativas de gravidez, respeitando as normas médicas e legais aplicáveis.
A vitrificação, técnica de congelamento ultrarrápido utilizada atualmente, também representou um avanço importante para a reprodução assistida.
“Hoje conseguimos trabalhar com taxas muito altas de sobrevivência após o descongelamento em centros especializados. Isso mudou profundamente a medicina reprodutiva. Mas é importante reforçar que congelar óvulos ou embriões não representa uma garantia de gravidez futura. É uma possibilidade adicional dentro do planejamento reprodutivo”, explica Dr. Alfonso.
Caso reacende discussão sobre planejamento reprodutivo
A história de Christina ocorre em um contexto muito particular de perda familiar e não deve ser interpretada como uma indicação de que a maternidade pode ser adiada indefinidamente.
Para Dr. Alfonso, o principal aprendizado médico está na importância de conhecer antecipadamente as possibilidades e limitações da própria fertilidade.
“A reprodução assistida oferece recursos que seriam inimagináveis algumas décadas atrás, mas nenhum tratamento elimina completamente os efeitos do tempo sobre o organismo. Quanto antes uma mulher puder conversar sobre fertilidade e planejamento reprodutivo, maior será sua capacidade de tomar decisões informadas sobre o futuro”, afirma.
O especialista ressalta ainda que a chegada de uma nova criança não deve ser tratada como substituição do filho que morreu.
“O nascimento de uma criança não apaga uma perda anterior. São histórias e vínculos diferentes. Do ponto de vista médico, nosso papel é avaliar segurança, possibilidades e limites e oferecer informação para que cada família possa tomar suas decisões de maneira consciente”, conclui Dr. Alfonso.
Fonte: Dr. Alfonso Massaguer – CRM 97.335 / RQE 42794 – É Médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Ginecologista e Obstetra pelo Hospital das Clínicas e atua em Reprodução Humana há 20 anos.
O Dr. Alfonso é diretor clínico da MÃE (Medicina de Atendimento Especializado) especializada em reprodução assistida. Foi professor responsável pelo curso de reprodução humana da FMU por 6 anos. Membro da Federação Brasileira da Associação de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), das Sociedades Catalãs de Ginecologia e Obstetrícia e Americana de Reprodução Assistida (ASRM). Também é diretor técnico da Clínica Engravida, autor de vários capítulos de ginecologia, obstetrícia e reprodução humana em livros de medicina, com passagens em centros na Espanha e no Canadá.
Sobre o Dr. Alfonso Massaguer – CRM 97.335 / RQE 42794
É Médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Ginecologista e Obstetra pelo Hospital das Clínicas e atua em Reprodução Humana há 20 anos.

