Condição que afeta a descida de um ou dos dois testículos para a bolsa escrotal deve ser corrigida entre os 6 e 12 meses de idade

Durante a gestação, os testículos do menino se formam dentro do abdômen e, normalmente, descem gradualmente em direção ao escroto, processo que costuma ser concluído antes do nascimento ou nos primeiros meses de vida. Quando um ou os dois testículos não chegam à bolsa escrotal, a condição é chamada de criptorquidia, popularmente conhecida como testículo não descido.
Estudos revelam que a criptorquidia afeta aproximadamente 3% a 4% dos meninos. Entre os bebês prematuros, a frequência é significativamente maior e pode chegar a 30%.
Segundo o Dr. Ubirajara Barroso, uropediatra e professor da UFBA e da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, a criptorquidia pode estar relacionada a diferentes fatores, incluindo alterações hormonais, genéticas e anatômicas, além da prematuridade e do baixo peso ao nascer. “Em alguns casos, o testículo desce naturalmente nos primeiros meses. Mas, quando isso não acontece, a criança deve ser avaliada por um pediatra ou urologista pediátrico para verificar a necessidade de tratamento cirúrgico”, afirma o médico.
Dr. Barroso destaca que quando o testículo não desce espontaneamente, o tratamento mais comum é a orquidopexia, cirurgia realizada para posicionar e fixar o testículo dentro do escroto. Segundo o especialista, a técnica escolhida depende principalmente da localização do testículo.
“Quando ele está na região da virilha ou próximo ao escroto, o procedimento geralmente é realizado por meio de uma pequena incisão. Já nos casos em que o testículo está localizado dentro do abdômen, pode ser necessária uma abordagem por laparoscopia e, em algumas situações, a cirurgia é realizada em duas etapas para permitir que o testículo chegue ao escroto de forma adequada. Em situações específicas, quando o testículo apresenta alterações importantes ou não é viável, o médico pode avaliar a necessidade de sua retirada, procedimento chamado orquiectomia”, explica o médico.
Prazo para realização da cirurgia
A cirurgia deve ser realizada entre os 6 e 12 meses de idade da criança para evitar complicações. “Essa janela de tratamento é para evitar danos aos testículos, pois eles devem ficar em uma área com temperatura menor para não afetar sua fertilidade, não causar sua atrofia ou gerar problemas futuros como o câncer de testículo”, complementa.
Dr. Barroso comenta que apesar de ser uma condição relativamente frequente, ainda existem dúvidas entre pais e responsáveis sobre as causas da criptorquidia, evolução e tratamento. Por isso, o especialista esclarece alguns dos principais mitos e verdades sobre o assunto.
Mitos e verdades da criptorquidia
Um testículo que sobe e desce é necessariamente criptorquidia
MITO. É preciso diferenciar a criptorquidia do chamado testículo retrátil. No testículo retrátil, o órgão pode subir temporariamente por ação do músculo cremáster e retornar à bolsa escrotal. A avaliação clínica é necessária para fazer essa distinção.
Se a criança não sente dor, não é preciso tratar
MITO. A criptorquidia geralmente não provoca sintomas ou dor, mas isso não significa que possa ser ignorada. O acompanhamento e o tratamento são importantes para preservar a função do testículo e reduzir possíveis complicações futuras.
Toda criança com criptorquidia precisa retirar o testículo
MITO. Na maioria dos casos, o objetivo do tratamento é preservar e posicionar o testículo no escroto. A retirada, chamada orquiectomia, é reservada para situações específicas, como quando o testículo apresenta alterações importantes.
Existe um remédio que faz o testículo descer em todos os casos
MITO. O tratamento hormonal tem eficácia limitada e não é a principal opção para a maioria dos casos. Quando o testículo não desce espontaneamente, a abordagem mais utilizada é cirúrgica, conforme avaliação do especialista.
Toda criança com criptorquidia precisa fazer cirurgia imediatamente
MITO. A conduta depende da idade da criança, da localização do testículo, de sua mobilidade e da evolução clínica. Quando o testículo permanece fora da bolsa escrotal e não ocorre a descida espontânea aos seis meses de idade pode ser indicada a orquidopexia, procedimento cirúrgico utilizado para posicioná-lo adequadamente.
A criptorquidia pode ocorrer em apenas um dos testículos
VERDADE. A condição pode ser unilateral, quando apenas um testículo não desceu, ou bilateral, quando os dois estão fora da bolsa escrotal. Nos casos unilaterais, o outro testículo geralmente está normalmente posicionado no escroto, mas ainda assim é importante realizar avaliação médica para definir a necessidade de acompanhamento e tratamento.
A criptorquidia pode ser identificada durante o exame físico
VERDADE. Na maioria dos casos, o pediatra consegue suspeitar da condição durante o exame físico, verificando se os testículos estão presentes e posicionados dentro do escroto. Exames de imagem nem sempre são necessários antes da avaliação por um especialista.
A criptorquidia pode ser tratada por laparoscopia
VERDADE. Em alguns casos, principalmente quando o testículo está localizado dentro do abdômen, a cirurgia pode ser realizada por laparoscopia. Dependendo da posição e das condições do testículo, o procedimento pode precisar ser feito em etapas.
A condição pode afetar a fertilidade
VERDADE. A permanência do testículo fora da bolsa escrotal pode estar relacionada a alterações na função testicular e à fertilidade futura. O impacto é diferente quando a condição é unilateral ou bilateral, e o acompanhamento precoce é importante.
A criptorquidia pode aumentar o risco de câncer de testículo
VERDADE. Pessoas que tiveram criptorquidia apresentam um risco maior de desenvolver câncer testicular ao longo da vida. O tratamento adequado e o acompanhamento médico são importantes, embora a cirurgia não elimine completamente esse risco.
“A criptorquidia é uma condição que, quando identificada e tratada no momento adequado, permite preservar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento do testículo. Por isso, diante de qualquer dúvida sobre a posição dos testículos, o ideal é procurar o pediatra ou o urologista pediátrico e fazer uma avaliação individualizada”, finaliza o Dr. Ubirajara Barroso.
Fonte: Dr. Ubirajara Barroso Jr. – É professor livre-docente da pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e coordenador da Disciplina de Urologia da Universidade Federal da Bahia. Também é professor adjunto de Urologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, chefe da Unidade do Sistema Urinário do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (UFBA) e da Divisão de Cirurgia Urológica Reconstrutora e Urologia Pediátrica do hospital universitário.
Doutor e mestre em Urologia, realizou fellowship em urologia pediátrica no Children’s Hospital of Michigan, vinculado à Wayne State University. Atua ainda como urologista da Rede D’Or.

