Alerta para pais e médicos: falta de vitamina B12 pode afetar cérebro infantil antes de causar anemia

Deficiência de vitamina B12 na infância pode causar danos neurológicos antes mesmo do aparecimento de anemia
Tema foi abordado pela pediatra Anna Dominguez Bohn durante o 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado em Belo Horizonte; revisão científica de 2026 analisa os benefícios e os limites da suplementação de vitamina B12
A deficiência de vitamina B12 na infância e seus possíveis impactos no desenvolvimento neurológico foram tema de uma aula ministrada pela pediatra Anna Dominguez Bohn durante o 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado de 13 a 17 de outubro, em Belo Horizonte (MG). Presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a médica destacou que a falta da vitamina pode provocar alterações neurológicas antes mesmo do aparecimento de anemia e, em casos graves, deixar sequelas permanentes.
A vitamina B12 desempenha funções essenciais na formação das células sanguíneas, na síntese do DNA e no funcionamento do sistema nervoso. Sua deficiência pode afetar crianças de diferentes idades, mas exige atenção especial nos primeiros anos de vida, período de intenso desenvolvimento cerebral. “A deficiência de vitamina B12 não provoca apenas anemia. Ela também pode comprometer o sistema nervoso, e as manifestações neurológicas podem aparecer antes das alterações hematológicas. Por isso, é fundamental reconhecer os sinais precocemente, já que o atraso no diagnóstico e no tratamento pode deixar sequelas permanentes”, explica a pediatra.
Entre os sinais que merecem investigação estão atrasos no desenvolvimento, alterações neurológicas, dificuldades escolares e manifestações como fraqueza e formigamento.
Em lactentes, a deficiência pode estar relacionada aos baixos níveis da vitamina na mãe, especialmente durante a amamentação. Crianças com dietas restritivas, seletividade alimentar importante, doença celíaca e doenças inflamatórias intestinais também estão entre os grupos que exigem maior atenção. “É importante avaliar a alimentação da criança e também as condições nutricionais da mãe, especialmente durante a amamentação. Lactentes de mães com deficiência de vitamina B12 e crianças com dietas restritivas estão entre os grupos que precisam de atenção especial. A seletividade alimentar também deve ser considerada na investigação”, destaca a Dra. Anna.
A deficiência de vitamina B12 também pode ser subdiagnosticada por ser frequentemente associada apenas a dietas vegetarianas ou veganas. No entanto, o problema pode atingir pessoas que consomem alimentos de origem animal. Segundo a pediatra, há estudos que apontam prevalências de até 30% em determinadas populações onívoras.
Além da alimentação, diferentes condições clínicas e o uso de medicamentos podem contribuir para a falta de vitamina B12. “Hoje temos diversas situações que precisam ser consideradas na pediatria, especialmente na adolescência. O uso de medicamentos como a metformina e o omeprazol, além de cirurgias gastrointestinais, incluindo a bariátrica, pode comprometer a absorção da vitamina B12. Os medicamentos para obesidade, como os análogos do GLP-1, também merecem atenção pelas possíveis repercussões sobre a alimentação e o estado nutricional. Por isso, é importante que as famílias estejam atentas aos sintomas e conversem com o pediatra sobre a necessidade de investigação”, orienta a médica.
O diagnóstico da deficiência de vitamina B12 deve incluir a dosagem sanguínea da vitamina e, quando necessário, exames complementares, como ácido metilmalônico, homocisteína e holotranscobalamina, que ajudam a esclarecer resultados inconclusivos.
A partir da avaliação médica, é possível definir o tratamento mais adequado para cada criança ou adolescente, considerando a gravidade do quadro e a causa da deficiência.
Suplementação indiscriminada não é a solução
Uma revisão sistemática publicada em junho de 2026 pela Cochrane, uma das principais organizações internacionais de avaliação de evidências científicas, analisou 16 estudos clínicos randomizados, envolvendo 4.083 crianças menores de 12 anos, de dez países.
Os pesquisadores verificaram que a suplementação de vitamina B12 reduz o risco de deficiência da vitamina. Em uma análise de três estudos, envolvendo 642 crianças, a proporção de participantes com deficiência foi de 7,6% no grupo placebo, contra 1,8% entre aquelas que receberam suplementação.
Por outro lado, a revisão não encontrou evidências consistentes de benefícios adicionais da suplementação para o crescimento, a cognição, o desenvolvimento motor ou a prevenção da anemia. Os pesquisadores ressaltam que a certeza das evidências para vários desses resultados ainda é baixa. “Os estudos mostram que a suplementação é eficaz para reduzir a deficiência de vitamina B12, mas não demonstram que oferecer a vitamina indiscriminadamente melhore o crescimento, a cognição ou o desenvolvimento motor. Precisamos diferenciar a importância de prevenir e tratar a deficiência da ideia de que suplementar todas as crianças trará benefícios adicionais. Quando a deficiência é identificada, no entanto, a suplementação adequada é fundamental para evitar complicações, especialmente neurológicas”, esclarece a especialista.
Fonte: Dra. Anna Dominguez Bohn é pediatra formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Terapia Intensiva Pediátrica, Síndrome de Down, Neurociência e Desenvolvimento Infantil.É Presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo- SPSP e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria- SBP. Atualmente integra o corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, além de atuar nos hospitais Sírio-Libanês e Vila Nova Star. CRM 150.572 | RQE 106869 / 1068691

