A demanda energética diária não aumenta da mesma forma em todos os trimestres, mas atinge o pico no terceiro, com acréscimo de cerca de 450 kcal/dia, o equivalente a um lanche saudável, como um iogurte com frutas e aveia

A famosa frase “estou comendo por dois” como justificativa de “estar formando órgãos” ainda é muito comum entre gestantes, mas está longe de refletir a realidade das necessidades nutricionais durante a gravidez. De acordo com as Dietary Reference Intakes (DRIs), não existe justificativa científica para dobrar o consumo calórico. “O que deve ser observado é o ganho de peso adequado, calculado a partir do peso pré-gestacional, ou seja, aferido antes da gravidez. Quando isso não é possível, recomenda-se considerar o peso até 45 dias do primeiro trimestre de gestação e compará-lo com a evolução ao longo dos meses. Mas é necessário ter cautela com o aumento calórico, que deve ser bem orientado”, explica o Dr. Nélio Veiga Júnior, médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). “É difícil definir uma dica dietética única e ideal, para todo o período gestacional, pois cada uma das fases apresenta necessidades específicas e ainda devem ser levadas em conta as características individuais de cada mãe e seu concepto. Um bom aporte proteico e calórico seria suficiente para que uma gestação se desenvolvesse de forma apropriada, mas os conceitos atuais valorizam a importância da ingestão adequada de micronutrientes para a saúde presente e futura dos bebês”, explica a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).
Segundo a médica, em média, é esperado um acréscimo diário de cerca de 300 kcal na dieta da gestante, através de uma alimentação que deve fornecer a quantidade de macro e micronutrientes necessária à saúde da mãe e de seu filho. “Porém existem vários fatores de ordem física e emocional que estimulam o consumo alimentar durante todo o período gestacional”, comenta. Em outras palavras, a dieta precisa ser calculada e bem orientada para evitar excessos. “O ganho de peso é obviamente esperado na gestação, mas ele varia de acordo com o estado nutricional da gestante antes de engravidar. Mulheres com baixo peso, eutróficas, com sobrepeso ou obesidade devem seguir faixas diferentes de aumento ponderal. Mas em nenhum cenário é indicado dobrar a quantidade de comida”, explica o ginecologista. Segundo as recomendações internacionais, mulheres com baixo peso devem ganhar entre 12,5 e 18 kg durante toda a gestação; as eutróficas, entre 11,5 e 16 kg; as com sobrepeso, de 7 a 11,5 kg; e aquelas com obesidade, de 5 a 9 kg. “Esse controle é fundamental para preservar a saúde da mãe e do bebê”, comenta o médico.
De acordo com o ginecologista, o excesso de ganho de peso está associado a complicações como diabetes gestacional, hipertensão, parto cesáreo e risco aumentado de obesidade infantil. “Por outro lado, dietas restritivas e ganho insuficiente podem comprometer o desenvolvimento fetal, aumentando as chances de parto prematuro e baixo peso ao nascer”, destaca o Dr. Nélio. “Gestantes com diabetes gestacional ou pré-eclâmpsia necessitam de acompanhamento nutricional individualizado. Nos casos de diabetes gestacional, a dieta deve priorizar alimentos com baixo índice glicêmico, fracionar carboidratos ao longo do dia, evitar picos glicêmicos e manter o ganho de peso adequado. Reforçamos a importância da terapia nutricional como primeira linha de tratamento”, indica o Dr. Nélio.
Outro ponto importante é que a demanda energética não aumenta da mesma forma em todos os trimestres. “No primeiro trimestre, o gasto calórico adicional é praticamente insignificante. Já no segundo trimestre, estima-se uma necessidade média de 340 kcal extras por dia, enquanto no terceiro o acréscimo é de cerca de 450 kcal, valores equivalentes a um lanche saudável, como um iogurte com frutas e aveia”, diz o especialista.
Segundo a Dra. Marcella, mais do que aumentar por aumentar o consumo calórico, é necessário dar destaque qualitativo ao que se come. “O aporte de nutrientes adequado é fundamental em todas as fases da vida, especialmente nos períodos de pré-concepção, gestação e lactação. A literatura científica tem apontado que uma boa nutrição nessas fases está associada não apenas ao desenvolvimento de uma gestação saudável, mas também à prevenção de deficiências de nutrientes importantes para a saúde da mulher. As novas evidências científicas indicam que os benefícios se estendem à saúde dos filhos, desde a sua formação até a vida adulta prevenindo o desenvolvimento de uma série de doenças crônicas não transmissíveis ao longo da vida”, comenta. “Um hábito alimentar equilibrado, variado e o mais natural possível, com o consumo de proteínas magras, carboidratos complexos e gorduras boas, além do consumo adequado de água é indicado. Lembrando de higienizar com muito cuidado os alimentos que serão consumidos crus como frutas e vegetais, para evitar a infestação por patógenos, que tem riscos aumentados nesta fase da vida. Entre os itens que devem ser evitados ou consumidos com grande moderação estão o açúcar em todas as suas versões, os carboidratos farináceos e refinados, as gorduras modificadas como as gorduras trans, as frituras de imersão, sal em excesso, os alimentos processados e ultraprocessados, como salgadinhos de pacote, biscoitos recheados e refrigerantes”, destaca a Dra. Marcella. “Mais do que comer por dois, o correto é comer para dois, priorizando qualidade nutricional. A gestante precisa de macro e micronutrientes que garantam o crescimento adequado do bebê e o bem-estar da mãe”, reforça o Dr. Nélio. “Assim, a regra de ouro para a gestante não é aumentar indiscriminadamente a quantidade de alimentos, mas manter uma dieta equilibrada, variada e ajustada às necessidades. O acompanhamento com equipe de saúde é essencial para que o ganho de peso siga as recomendações, evitando tanto os riscos do excesso quanto os da restrição”, finaliza o Dr. Nélio.
Fontes:
*DR. NÉLIO VEIGA JUNIOR: Médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Atua em consultório privado e já foi médico preceptor no curso de Medicina da UNICAMP e médico pesquisador no Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas. Participa periodicamente de congressos, eventos e simpósios, além de ser autor de diversos artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. CRM 162641 | RQE 87396 | Instagram: @neliojuniorgo
*DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Além disso, é membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e da Sociedade Brasileira para o Estudo do Envelhecimento. Instagram: @dra.marcellagarcez

