Enxaqueca Aumenta Risco de Complicações na Gravidez

Pré-eclâmpsia, parto prematuro e trombose são riscos reais em gestantes com enxaqueca. Elas devem ter acompanhamento obstétrico e neurológico para adequar o tratamento no período.

pixabay

Mais do que uma dor de cabeça incapacitante, a enxaqueca é uma doença neurológica crônica que pode ter impacto em diversas fases da vida, incluindo a gestação. E alguns estudos mostram que mulheres com histórico de enxaqueca especialmente com aura apresentam maior risco de complicações obstétricas, como pré-eclâmpsia, parto prematuro e trombose. “A enxaqueca é uma condição complexa, com origem genética e epigenética. Ela também envolve alterações na função endotelial, na regulação da pressão arterial e na resposta inflamatória. Todos esses fatores também influenciam a saúde da gestação”, o Dr. Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). “Alguns trabalhos já mostraram que, em gestantes com enxaqueca, há um risco maior de desenvolver pré-eclâmpsia, uma condição caracterizada por pressão alta e disfunção de órgãos durante a gravidez. Essa relação é ainda mais forte nas pacientes que apresentam enxaqueca com aura, forma em que a dor é precedida por alterações visuais, sensoriais ou motoras”, acrescenta o ginecologista e obstetra Dr. Nélio Veiga Júnior, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP).

Existem possíveis explicações para essa relação entre enxaqueca e complicações gestacionais. “A primeira delas tem a ver com a disfunção endotelial. A enxaqueca, especialmente a com aura, está relacionada à disfunção do endotélio, a camada que reveste os vasos sanguíneos. Essa disfunção prejudica a regulação do tônus vascular e da coagulação. A pré-eclâmpsia e outras complicações gestacionais também envolvem essa mesma disfunção endotelial, especialmente na formação inadequada da placenta”, diz o Dr. Nélio. “Também há uma ativação inflamatória crônica. A enxaqueca envolve um estado de inflamação neurovascular crônico, com liberação de substâncias como a CGRP (calcitonin gene-related peptide), que dilata vasos e gera inflamação. Esse perfil inflamatório também é observado em casos de parto prematuro e pré-eclâmpsia”, destaca o Dr. Tiago de Paula. Além disso, as oscilações hormonais da gravidez (principalmente de estrogênio e progesterona) afetam diretamente o cérebro e os vasos sanguíneos, segundo o neurologista. “Mulheres com enxaqueca são especialmente sensíveis a essas variações, o que pode predispor a um desequilíbrio vascular mais acentuado durante a gestação”, acrescenta.

Mulheres que enfrentam a enxaqueca crônica podem inclusive evitar a gravidez. “A enxaqueca pode afetar as escolhas das mulheres de engravidar, com 20% evitando a gravidez por medo de que a enxaqueca possa piorar durante a período, tornar a gestação mais difícil ou ter efeitos negativos sobre o filho”, destaca o Dr. Nélio com base em um estudo sobre o tema. De acordo com o Dr. Tiago, esse medo é reflexo da desinformação sobre os tratamentos da enxaqueca. “A grande questão é que, em grande parte dos casos, a mulher passa os meses da gestação sofrendo com fortes dores por ouvir e acreditar que não existem tratamentos seguros para enxaqueca nessa fase, ficando restrita aos remédios para crises que, além de não solucionarem o problema, ainda podem piorar o quadro”, explica o Dr. Tiago de Paula. “Porém, existem, sim, tratamentos seguros e eficazes para essa fase, incluindo a toxina botulínica, de acordo com estudo publicado no periódico Caphalalgia¨, completa o médico. “Quando aplicada em pontos nervosos específicos, a toxina botulínica bloqueia a saída de vesículas que são moduladores de dor. Assim, é capaz de reduzir a sensibilidade do cérebro à dor, ajudando no controle da enxaqueca. É um tratamento de primeira linha amplamente utilizado no combate a enxaqueca”, diz o especialista Dr. Tiago.

O Dr. Nélio ressalta que o obstetra pode ter papel fundamental na avaliação do risco obstétrico dessas pacientes. “O ideal é que a mulher com histórico de enxaqueca seja acompanhada em conjunto com o neurologista antes e durante a gravidez. Isso ajuda a ajustar medicações, identificar fatores de risco vasculares e evitar gatilhos que possam comprometer a saúde materno-fetal”, orienta o ginecologista. Não é incomum que, curiosamente, algumas mulheres relatem melhora das crises durante a gestação, sobretudo a partir do segundo trimestre, devido à estabilidade hormonal. “Apesar disso, o histórico da doença ainda contar como fator de risco vascular. Ou seja, mesmo que a mulher passe bem na gestação, não podemos subestimar os cuidados, principalmente se ela tem aura ou outros fatores associados, como hipertensão, tabagismo ou obesidade”, destaca o neurologista. “O manejo da enxaqueca na gravidez é especialmente importante porque não se trata apenas de um desconforto. Além de ser uma condição incapacitante em um momento em que a mulher já tem que lidar com uma série de questões, a enxaqueca ainda pode aumentar o risco de desenvolvimento de complicações como eclâmpsia, pré-eclâmpsia e parto prematuro. O recomendado, então, é que a paciente inicie o tratamento da enxaqueca antes de engravidar e mantenha-o durante a gestação. E caso a gravidez ocorra de maneira não planejada, é fundamental buscar um médico para verificar qual a melhor abordagem para o seu caso”, finaliza o Dr. Tiago de Paula.

Fontes:

DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP)

DR. NÉLIO VEIGA JUNIOR: Médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Atua em consultório privado e já foi médico preceptor no curso de Medicina da UNICAMP e médico pesquisador no Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas. Participa periodicamente de congressos, eventos e simpósios, além de ser autor de diversos artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais.

Deixe um comentário