Fonoaudióloga explica como entender e reduzir crises comportamentais em crianças autistas

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A cantora Manu Bahtidão emocionou o público ao compartilhar nas redes sociais o diagnóstico de autismo do filho, Théo, de 9 anos. Em um desabafo sincero, ela contou sobre o longo caminho até a confirmação da condição e reforçou que o TEA não define quem seu filho é. “Não é um rótulo”, afirmou a artista, explicando que, apesar das dificuldades, o diagnóstico trouxe respostas que ela buscava há anos.
O relato de Manu abriu espaço para uma conversa necessária sobre os desafios enfrentados por famílias que convivem com o autismo, especialmente no que diz respeito às crises comportamentais, um tema ainda cercado de mitos e interpretações equivocadas. Para esclarecer o assunto, a fonoaudióloga Letícia Sena, especialista em linguagem e comportamento, explica que compreender o que acontece durante as crises é essencial para acolher crianças como Théo.
Segundo Letícia, muitas dessas crises são confundidas com atitudes desobedientes, quando, na verdade, fazem parte de um processo neurológico. “A pessoa autista entra em crise quando está sobrecarregada. Pode ser um som alto, uma mudança na rotina, uma sensação corporal incômoda ou uma frustração que não conseguiu expressar. A crise é o corpo dizendo: ‘isso está demais para mim’”, afirma.
A especialista reforça que broncas e punições apenas intensificam o sofrimento. “Durante uma crise, o cérebro da pessoa autista está em modo de defesa. O foco deve ser proteger, não corrigir”, explica. Ela afirma que esse entendimento muda completamente a postura da família: “Quando paramos de ver a crise como algo proposital e começamos a vê-la como um pedido de ajuda, tudo se transforma”.
Para ajudar pais que vivem desafios semelhantes ao de Manu, Letícia lista estratégias que reduzem a frequência e a intensidade das crises.
A primeira é observar os gatilhos. “Anotar o que aconteceu antes de cada crise ajuda muito. Com o tempo, é possível identificar padrões e antecipar situações de risco”, orienta. Um diário com horários, ambientes e estímulos facilita esse acompanhamento.
A segunda é investir em rotina e previsibilidade, fundamentais para a segurança emocional da criança. “Usar quadros visuais, cronogramas e combinações simples reduz a ansiedade e o medo do inesperado”, explica a fonoaudióloga.
A comunicação é outro ponto crucial. Muitas crises surgem porque a criança não consegue expressar o que sente. “Mesmo quem não fala pode se comunicar. Quando a criança tem um jeito funcional de dizer ‘não gosto’, ‘estou cansado’ ou ‘quero parar’, o corpo não precisa gritar por ela”, destaca Letícia, ao defender o uso de figuras, gestos e aplicativos.
O ambiente também faz diferença. Luzes fortes, ruídos e cheiros podem provocar crises. “Um ambiente mais calmo, com iluminação suave e sons controlados, pode prevenir boa parte das crises. É uma forma de respeito sensorial”, afirma.
Além das adaptações externas, a fonoaudióloga ressalta a importância de ensinar estratégias de autorregulação, como respiração, movimentos rítmicos e compressão profunda. “Essas técnicas devem ser treinadas quando a criança está tranquila, para que ela consiga usar antes da crise”, explica.
Por fim, Letícia faz um alerta importante: a saúde emocional dos responsáveis também influencia diretamente as crises. “O autocuidado do cuidador é parte do tratamento. Quando o adulto está regulado, ele consegue acolher sem reagir. Isso muda completamente o desfecho da crise”, diz.
Para famílias como a de Manu Bahtidão, a mensagem é de acolhimento e esperança. “A empatia e o conhecimento são as ferramentas mais poderosas que temos. A crise não é o fim — é um pedido de ajuda que pode ser atendido com respeito e compreensão”, conclui Letícia Sena.
A revelação da cantora abre espaço para que mais famílias reconheçam sinais, busquem diagnóstico e recebam apoio qualificado. No fim, como Manu disse, não se trata de rótulo, mas de entender quem a criança é para que ela possa florescer com mais conforto, segurança e respeito.
Fonte: Fonoaudióloga Letícia Sena, especialista em linguagem e comportamento

