Alterações menstruais, dores intensas e sinais hormonais podem indicar dificuldades para engravidar. Reconhecer esses sinais cedo aumenta as chances de tratamento e sucesso reprodutivo

A infertilidade feminina costuma ser associada apenas à dificuldade de engravidar, mas o que muitas mulheres não sabem é que o corpo pode dar sinais muito antes de a gestação não acontecer. “Alterações no ciclo menstrual, dores persistentes e sintomas hormonais aparentemente ‘comuns’ podem indicar problemas que afetam a fertilidade e que merecem investigação médica”, explica o Dr. Rodrigo Rosa, médico especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador da Mater Prime. “A infertilidade nem sempre é silenciosa. Nem toda mulher percebe esses sinais como algo relacionado à fertilidade, mas eles podem ser alertas importantes de condições que impactam a ovulação, a qualidade dos óvulos ou o ambiente uterino”, explica o médico.
Clinicamente, considera-se infertilidade quando a mulher tenta engravidar por um ano sem sucesso, se tiver menos de 35 anos, ou por seis meses, se tiver mais de 35. “O quadro pode ser classificado como infertilidade primária, quando nunca houve gestação, ou secundária, quando a mulher já engravidou anteriormente, mas encontra dificuldade para engravidar novamente. As causas são multifatoriais e podem envolver fatores hormonais, anatômicos, inflamatórios, idade, estilo de vida e até fatores ambientais”, destaca o especialista. “E, claro, em muitos casos, há fatores masculinos envolvidos”, diz
Segundo o Dr. Rodrigo Rosa, alguns sintomas merecem atenção especial:
- Menstruação irregular ou ausência de menstruação – Ciclos imprevisíveis, muito longos, muito curtos ou a ausência do fluxo menstrual podem indicar falhas na ovulação, segundo o médico. “Eles são comuns em quadros como a síndrome dos ovários policísticos (SOP), alterações da tireoide ou baixa reserva ovariana”, explica.
- Cólicas intensas ou sangramento menstrual excessivo – Dores que atrapalham a rotina ou sangramento muito abundante podem estar associados a endometriose ou miomas uterinos, condições que dificultam a fecundação e a implantação do embrião. “Principal causa da infertilidade em mulheres, a endometriose ocorre quando as células do endométrio, mucosa que reveste a parede do útero, não são devidamente expelidas durante a menstruação, se espalhando pelo aparelho reprodutivo, o que atrapalha a implantação do embrião fecundado, e até mesmo por outras regiões como intestino, apêndice e bexiga”, explica o Dr. Rodrigo Rosa
- Alterações na cor do sangue menstrual – Fluxo muito claro, aguado ou escuro demais, de forma persistente, pode sinalizar desequilíbrios hormonais ou doenças que afetam o endométrio, explica o médico.
- Ciclos menstruais muito curtos ou muito longos – Ciclos abaixo de 21 dias ou acima de 35 dias, quando frequentes, podem indicar ovulação irregular ou uma fase lútea inadequada para a implantação do embrião, o que pode impedir a gestação.
- Sinais de desequilíbrio hormonal – Acne persistente, aumento de pelos no rosto ou corpo, queda de cabelo e alterações na oleosidade da pele podem indicar alterações hormonais, como SOP ou distúrbios da tireoide, que interferem diretamente na fertilidade, explica o especialista. “A síndrome do ovário policístico (SOP) é um distúrbio endocrinológico que causa alterações hormonais que fazem com que os ovários produzam uma quantidade anormal de andrógenos, hormônios sexuais masculinos que geralmente estão presentes nas mulheres em pequenas quantidades. Isso facilita a formação de cistos (pequenas bolsas que contêm material líquido ou semissólido) nos ovários. Essas estruturas surgem em números diversos e podem alterar o órgão, fazendo com que ele aumente de tamanho e tenha seu funcionamento prejudicado. É uma das principais causas de infertilidade feminina”, conta o médico.
- Dor durante a relação sexual ou dor pélvica frequente – Esse tipo de desconforto pode estar relacionado à endometriose, doença inflamatória pélvica ou aderências causadas por cirurgias prévias, afetando trompas, ovários e útero. “Isso precisa ser investigado por um especialista”, diz o médico.
- Dificuldade para engravidar mesmo com ciclos regulares – Ter menstruação “em dia” não garante fertilidade. “Problemas como baixa reserva ovariana, trompas obstruídas, alterações uterinas ou até fatores masculinos podem estar presentes mesmo sem sinais evidentes, por isso é fundamental buscar ajuda de um especialista”, explica o Dr. Rodrigo.
Para o especialista, ignorar esses sinais pode atrasar o diagnóstico e reduzir opções de tratamento. “Quanto mais cedo investigamos, maiores são as possibilidades terapêuticas, desde ajustes no estilo de vida até tratamentos de reprodução assistida com melhores taxas de sucesso”, afirma o Dr. Rodrigo Rosa.
A idade pode ser um empecilho para a Fertilização In Vitro, por exemplo, pois adiar a FIV pode reduzir as chances futuras após os 35 anos, alerta a Mater Prime. “Após essa idade, ocorre uma queda progressiva na quantidade e na qualidade dos óvulos, o que pode diminuir as taxas de sucesso da FIV e aumentar a necessidade de mais ciclos ou do uso de óvulos doados”, diz o Dr. Rodrigo Rosa. A Mater Prime explica que a idade ideal para obter melhores taxas de sucesso na FIV é até os 35 anos. “Ainda assim, o procedimento pode ser realizado em idades mais avançadas, desde que haja avaliação médica criteriosa, sendo comum a indicação do uso de óvulos doados após os 40 anos. Segundo o Conselho Federal de Medicina, não existe uma idade máxima fixa para realizar a FIV, mas o tratamento só deve ser indicado quando não houver riscos relevantes à saúde da paciente ou do bebê. Em mulheres acima dos 50 anos, as clínicas costumam exigir exames e liberações médicas mais detalhadas, além da obrigação de informar claramente sobre os riscos e as chances reais de sucesso”, acrescenta o médico.
A avaliação da infertilidade costuma incluir exames hormonais, ultrassonografia pélvica, acompanhamento da ovulação e, quando necessário, a análise do sêmen do parceiro. “A infertilidade deve ser encarada como uma condição de saúde do casal, não apenas da mulher”, reforça. O médico destaca que sentir esses sintomas não significa, automaticamente, que a mulher seja infértil. “Muitas pacientes com SOP, endometriose ou alterações hormonais conseguem engravidar com acompanhamento adequado. O mais importante é não normalizar sinais persistentes e buscar orientação especializada.”
Segundo ele, falar sobre infertilidade com mais clareza ajuda a reduzir o estigma e incentiva o cuidado precoce. “O corpo costuma avisar. Saber ouvir esses sinais pode mudar completamente a trajetória reprodutiva de uma mulher”, finaliza.
Fonte: DR. RODRIGO ROSA: Ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, e do Mater Lab, laboratório de Reprodução Humana. Membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), o médico é graduado pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Especialista em reprodução humana, o médico é colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana” da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Instagram: @dr.rodrigorosa

