4 em Cada 10 pessoas com Infertilidade Apresentam Sintomas de Estresse Pós-Traumático

Desgaste emocional contínuo, sensação de falta de controle, falhas repetidas no tratamento e perdas gestacionais, além de atendimento médico inadequado, estão entre as experiências traumáticas relatadas por pacientes com infertilidade.

O processo de tentar engravidar é desafiador para qualquer casal tentante. Mas, para quem sofre com infertilidade, o impacto psicológico vai além e pode ser verdadeiramente traumático. Um estudo publicado em maio no periódico Human Reproduction apontou que 41% das pessoas que enfrentaram infertilidade preenchem critérios de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou transtorno de estresse pós-traumático complexo (TEPT complexo). Para o especialista em reprodução humana Dr. Rodrigo Rosa, diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, os resultados destacam algo que já é percebido há anos na prática clínica. “Muitas vezes, a infertilidade é vista apenas como uma dificuldade médica, mas existe um sofrimento emocional importante envolvido. Isso porque o desejo de ter filhos está muito ligado a sonhos e realizações pessoais e familiares. Quando esse sonho não é alcançado, muitas pessoas desenvolvem sentimento de culpa, inadequação, impotência e isolamento. E mesmo ao buscar tratamentos, frequentemente o paciente vive ciclos repetidos de expectativa, ansiedade e frustração”, diz o médico.

O estudo avaliou 590 adultos com histórico de infertilidade ou acompanhamento em clínicas de fertilidade nos últimos cinco anos. Em questionário, 9% dos participantes preencheram critérios para TEPT e 32% para TEPT complexo. Enquanto o primeiro é caracterizado por sofrimento persistente relacionado a uma experiência traumática, frequentemente acompanhado de sensação constante de ameaça e fuga de situações que remetam ao trauma, o TEPT complexo inclui ainda efeitos mais prolongados e severos, como dificuldade para regular emoções, visão negativa sobre si mesmo e impacto nos relacionamentos. Conforme relatado pelos participantes, desgaste emocional contínuo, sensação de falta de controle, falhas repetidas no tratamento e perdas gestacionais estão entre as experiências que contribuem para essas respostas traumáticas. “Muitas vezes, os pacientes reorganizam completamente a vida em função desse sonho. Eles fazem mudanças financeiras, profissionais, físicas e emocionais. A cada tentativa existe esperança. E cada frustração pode ser vivida quase como um processo de luto”, detalha o médico.

Muitos participantes ainda relataram sofrimento relacionado à maneira como os atendimentos foram conduzidos. Cerca de 61% afirmaram que o cuidado recebido acabou agravando o sofrimento emocional. E apenas 16% disseram que profissionais de saúde abordaram diretamente questões relacionadas ao trauma durante o acompanhamento. “Isso reforça a importância de clínicas que adotem uma abordagem multidisciplinar e centrada no paciente. Hoje sabemos que não basta olhar apenas exames, hormônios e taxas de sucesso. O acolhimento emocional, a escuta ativa, a transparência nas informações e o acompanhamento psicológico adequado fazem diferença na experiência do paciente. Na reprodução humana, é fundamental entender que estamos lidando com sonhos, expectativas e vulnerabilidades muito profundas”, pontua o especialista.

Apesar dos dados preocupantes, o Dr. Rodrigo Rosa ressalta que os resultados ajudam a validar um sofrimento frequentemente silencioso e pouco compreendido socialmente.  “O reconhecimento desse sofrimento representa um avanço importante dentro da medicina reprodutiva. O tratamento em si não é o problema. Pelo contrário: ele representa, muitas vezes, a possibilidade real de realização do sonho de ter filhos. Mas cada vez mais entendemos que saúde mental também faz parte do tratamento da infertilidade e deve ser cuidada com a mesma seriedade que os aspectos físicos”, conclui o especialista.

Fonte: DR. RODRIGO ROSA: Ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, e do Mater Lab, laboratório de Reprodução Humana. Membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), o médico é graduado pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Especialista em reprodução humana, o médico é colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana” da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

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