Como os receios dos adultos influenciam na autonomia e no aprendizado dos filhos

Especialista alerta que a infância é fruto da imitação, sendo o comportamento de pais e cuidadores o ponto crucial para despertar ou inibir a construção de autonomia e a coragem das crianças.
No mês dedicado às crianças, especialistas chamam atenção para um aspecto muitas vezes invisível, mas determinante no desenvolvimento infantil: os medos dos adultos. Muitos estudiosos do comportamento humano já apontaram que, principalmente até os sete anos de idade, a criança aprende a partir da observação e da imitação dos mais velhos. Isso significa que os receios transmitidos por pais e cuidadores podem impactar diretamente na forma como a criança se relaciona com o mundo e se desenvolve.
A pedagoga e pesquisadora Maria Malerba explica que os medos excessivos podem limitar a vivência da infância. “Quando os adultos, por medo, impedem que a criança explore a natureza, suba em uma árvore ou tente realizar uma nova tarefa, eles acabam freando o impulso natural da coragem, a construção da autonomia e a autoconfiança. É certo que alguns incentivos podem refletir movimentos mais lentos no ritmo dos adultos e até mesmo em maior propensão a acidentes, justamente pela falta de prática em experimentar o novo, mas os benefícios a longo prazo são inegáveis.”
Uma infância com mais liberdade
O educador e filósofo Rudolf Steiner, fundador da pedagogia Waldorf, já defendia que a criança deve ter contato pleno com o brincar, o movimento e a natureza. Para ele, a infância é uma etapa essencial para desenvolver habilidades físicas, cognitivas e emocionais, e cada experiência vivida fortalece a formação integral do ser humano.

“Os pais têm medo de deixar as crianças brincarem na rua, mas o perigo está também no ambiente virtual, nas telas e jogos. Conversas que deem contorno, ou seja, limites amorosos são essenciais em todas as fases da criança, e indicam caminhos de construção de autonomia, liberdade e pertencimento”, explica Malerba.
A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é que crianças de até 2 anos não devem ter nenhum contato com telas, crianças de 2 a 5 anos podem ter até 1 hora de tela por dia, e de 6 a 10 anos, o limite é de 1 a 2 horas diárias.
Segundo a pedagoga, a mudança começa pelo exemplo. “Mais importante do que dar brinquedos caros no Dia das Crianças é oferecer tempo, presença e coragem. Quando um adulto supera seu próprio medo para incentivar a criança a experimentar algo novo, está dando a ela um presente para a vida inteira: a confiança em si mesma. ”
O convite no mês da criança então aqui é refletir: até que ponto os medos dos adultos estão limitando o desenvolvimento sadio e completo dos pequenos, a partir do brincar e das possibilidades da curiosidade natural? Ao permitir que a infância seja vivida com plenitude, liberdade e coragem, pais e cuidadores ajudam a formar adultos mais confiantes, criativos e preparados para enfrentar o mundo.
Fonte: pedagoga e pesquisadora Maria Malerba

