Enxaqueca na Gravidez aumenta Risco de todos os Tipos de AVC 

Enxaqueca na gravidez aumenta risco de todos os tipos de AVC e ataques isquêmicos transitórios, diz estudo

freepik

Tanto na gestação como no pós-parto, a enxaqueca e as cefaleias relacionadas à gravidez são fatores de risco independentes para um amplo espectro de eventos cerebrovasculares e cardiovasculares, mostrou um estudo de revisão recente que incluiu mais de 94 milhões de gestações

A enxaqueca é uma doença prevalente entre mulheres em idade fértil e, durante a gravidez, está associada a um risco aumentado de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, segundo estudo de revisão recente, publicado em novembro no The Journal of Headache and Pain, que analisou 12 estudos, abrangendo 94.195.776 gestações. “A gravidez já é um período em que o sangue fica naturalmente mais propenso a formar coágulos, por causa das mudanças no sistema de coagulação. Quando a mulher grávida também tem enxaqueca, esses riscos se somam. Isso pode aumentar ainda mais a chance de complicações no coração e no cérebro, muito além do que cada condição causaria de forma isolada”, destaca o Dr. Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). “Esses achados destacam a necessidade de maior vigilância clínica, aconselhamento direcionado sobre risco cardiovascular e estratégias de manejo multidisciplinares para gestantes”, acrescenta o médico. “Alguns trabalhos também já mostraram que, em gestantes com enxaqueca, há um risco maior de desenvolver pré-eclâmpsia, uma condição caracterizada por pressão alta e disfunção de órgãos durante a gravidez. Essa relação é ainda mais forte nas pacientes que apresentam enxaqueca com aura, forma em que a dor é precedida por alterações visuais, sensoriais ou motoras”, acrescenta o ginecologista e obstetra Dr. Nélio Veiga Júnior, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP).

 O estudo mostra que a enxaqueca foi associada a um aumento acentuado na probabilidade de todos os tipos de acidente vascular cerebral (AVC) e ataques isquêmicos transitórios (episódios breves de falta de sangue no cérebro que funcionam como um alerta importante para um AVC iminente) e de AVC isquêmico. “Em relação aos eventos cardiovasculares: o risco de infarto do miocárdio aumentou 96%, a probabilidade de cardiomiopatia periparto (condição em que o coração perde força para bombear sangue no final da gestação ou logo após o parto) foi 2,68 vezes maior e a probabilidade de dissecção espontânea da artéria coronária (ruptura súbita da parede de uma das artérias do coração, que pode causar infarto mesmo em mulheres jovens) foi 9,21 vezes maior. Todos os estudos incluídos foram classificados como de “boa” qualidade pela Escala de Newcastle-Ottawa”, destaca o Dr. Tiago de Paula.

Segundo o Dr. Tiago de Paula, essas doenças têm em comum um mecanismo de fundo: alterações vasculares e inflamatórias. “A enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça — ela envolve disfunção dos vasos sanguíneos e inflamação. A enxaqueca envolve um estado de inflamação neurovascular crônico, com liberação de substâncias como a CGRP (calcitonin gene-related peptide), que dilata vasos e gera inflamação. Esse perfil inflamatório também é observado em casos de parto prematuro e pré-eclâmpsia. Quando somamos isso às mudanças circulatórias da gravidez, o sistema cardiovascular fica mais vulnerável, o que explica o aumento significativo desses riscos”, destaca.

De acordo com o Dr. Tiago, muitas mulheres com enxaqueca chegam, inclusive, a evitar a gravidez, um medo que é reflexo da desinformação sobre os tratamentos da enxaqueca. “A enxaqueca pode afetar as escolhas das mulheres de engravidar, com 20% evitando a gravidez por medo de que a enxaqueca possa piorar durante a período, tornar a gestação mais difícil ou ter efeitos negativos sobre o filho”, destaca o Dr. Nélio. “A grande questão é que, em grande parte dos casos, a mulher passa os meses da gestação sofrendo com fortes dores por ouvir e acreditar que não existem tratamentos seguros para enxaqueca nessa fase, ficando restrita aos remédios para crises que, além de não solucionarem o problema, ainda podem piorar o quadro”, explica o Dr. Tiago de Paula. “Porém, existem, sim, tratamentos seguros e eficazes para essa fase, incluindo a toxina botulínica, de acordo com estudo publicado no periódico Cephalalgia”, completa o médico. “Quando aplicada em pontos nervosos específicos, a toxina botulínica bloqueia a saída de vesículas que são moduladores de dor. Assim, é capaz de reduzir a sensibilidade do cérebro à dor, ajudando no controle da enxaqueca. É um tratamento de primeira linha amplamente utilizado no combate à enxaqueca”, diz o especialista Dr. Tiago.

Segundo o médico, o ideal é que a mulher com histórico de enxaqueca seja acompanhada em conjunto com o neurologista antes e durante a gravidez. “Isso ajuda a ajustar medicações, identificar fatores de risco vasculares e evitar a exposição a riscos que possam comprometer a saúde materno-fetal”, orienta. Não é incomum que, curiosamente, algumas mulheres relatem melhora das crises durante a gestação, sobretudo a partir do segundo trimestre, devido à estabilidade hormonal. “Apesar disso, o histórico da doença ainda conta como fator de risco vascular. Ou seja, mesmo que a mulher passe bem na gestação, não podemos subestimar os cuidados, principalmente se ela tem aura ou outros fatores associados, como hipertensão, tabagismo ou obesidade”, destaca o neurologista. “O manejo da enxaqueca na gravidez é especialmente importante porque não se trata apenas de um desconforto. Além de ser uma condição incapacitante em um momento em que a mulher já tem que lidar com uma série de questões, a enxaqueca ainda pode aumentar o risco de eventos cardiovasculares e cerebrovascular, além do desenvolvimento de complicações como eclâmpsia, pré-eclâmpsia e parto prematuro. O recomendado, então, é que a paciente inicie o tratamento da enxaqueca antes de engravidar e mantenha-o durante a gestação. E caso a gravidez ocorra de maneira não planejada, é fundamental buscar um médico para verificar qual a melhor abordagem para o seu caso”, finaliza o Dr. Tiago de Paula.

Fontes:

DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).  Autor principal de estudo premiado como Melhor Pôster pelos participantes do Congresso Internacional de Cefaleia 2025, o médico tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. CRMSP 168999

DR. NÉLIO VEIGA JUNIOR: Médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Atua em consultório privado e já foi médico preceptor no curso de Medicina da UNICAMP e médico pesquisador no Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas. Participa periodicamente de congressos, eventos e simpósios, além de ser autor de diversos artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. CRM 162641

Deixe um comentário