Com bebês mais agasalhados, menos tempo no chão e movimentos mais limitados, rotina da estação pode favorecer fatores associados às assimetrias cranianas. Fisioterapeuta explica o que os pais precisam observar

O inverno chegou e, com ele, uma série de adaptações naturais na rotina dos bebês. Mais roupas, mais cobertores, mais tempo em ambientes fechados e menos disposição, tanto da família como do próprio bebê, para as atividades no chão.
O que parece apenas uma questão de conforto e proteção contra o frio pode reduzir a variedade de movimentos do bebê e aumentar o tempo com a cabeça apoiada na mesma posição. Nos primeiros meses de vida, esse padrão merece atenção, especialmente quando há achatamento visível ou preferência para virar o pescoço sempre para o mesmo lado.
Segundo o fisioterapeuta pediátrico Icaro Ramalho (@dr.icaroramalho no Instagram), especialista em assimetrias cranianas e torcicolo congênito, o alerta não está no frio em si, mas na soma de hábitos que podem deixar o bebê por mais tempo na mesma posição.
“No inverno, o bebê costuma ficar mais agasalhado, mais tempo no colo, no carrinho ou no bebê conforto. Se ele mexe pouco o pescoço e apoia sempre a cabeça no mesmo ponto, isso merece atenção”, explica.
Por que o inverno merece atenção especial
O crânio do recém-nascido ainda está em formação. Os ossos são maleáveis e a cabeça muda rapidamente nos primeiros meses de vida. Para que esse desenvolvimento aconteça de forma mais equilibrada, o bebê precisa de movimento, mudança de posição e momentos regulares de barriga para baixo quando está acordado e supervisionado por um adulto.
No inverno, esse equilíbrio pode ser prejudicado por mudanças simples na rotina. Bebês mais agasalhados tendem a se movimentar menos. O frio no chão, mesmo com tummy time ou mantas, faz muitas famílias evitarem ou encurtarem o tempo de barriga para baixo. Além disso, o maior tempo em carrinhos, cadeirinhas, bebê conforto e superfícies acolchoadas pode significar mais horas com a cabeça apoiada na mesma região.
Cada um desses fatores, isoladamente, pode parecer pequeno. Quando se repete todos os dias, porém, aumenta o tempo de pressão na mesma área da cabeça e reduz as oportunidades de movimento.
O que é o tummy time e por que ele importa
O tummy time é o período em que o bebê fica de barriga para baixo, sempre acordado e sob supervisão. A prática ajuda no desenvolvimento motor porque fortalece a musculatura do pescoço, dos ombros, das costas e do tronco. Também reduz o tempo de pressão constante na parte de trás da cabeça.
A orientação não muda a recomendação de sono seguro. Para dormir, o bebê deve ser colocado de barriga para cima. O tempo de barriga para baixo vale para momentos de estímulo e brincadeira, quando a criança está desperta e acompanhada.
“Não precisa colocar o bebê no chão frio. Dá para usar um tapete firme, uma manta adequada e deixar o ambiente mais confortável. O importante é não eliminar esse momento da rotina”, orienta Ramalho.
Segundo o fisioterapeuta, a família pode começar com períodos curtos e adaptar o tempo à idade e à tolerância do bebê. Mais importante do que fazer por longos períodos é manter regularidade, sempre com supervisão.
Além disso, vale observar se o bebê tem preferência por virar a cabeça para um lado, se há resistência para movimentar o pescoço em alguma direção ou se o formato da cabeça apresenta achatamento visível. Esses sinais, quando persistem, indicam a necessidade de avaliação.
“Nem toda alteração na cabeça do bebê é preocupante. Mas quando a assimetria continua, aumenta ou vem acompanhada de limitação de movimento no pescoço, a família não deve esperar meses para investigar”, afirma.
A janela que o inverno não pode encurtar
Nos primeiros meses de vida, o crânio do bebê ainda é mais maleável e costuma responder melhor às orientações indicadas para cada caso. Por isso, a avaliação precoce ajuda a entender se há uma assimetria, qual é o grau do problema e se existe torcicolo associado.
Segundo Ramalho, quando a avaliação acontece cedo, o acompanhamento pode incluir orientações de posicionamento, estímulos em casa, fisioterapia pediátrica e acompanhamento da evolução do bebê. O tempo de tratamento varia de acordo com a idade, o grau da assimetria e a resposta de cada criança.
“Quando a família identifica o problema no momento certo, as chances de orientar e intervir de forma mais simples são maiores. O objetivo é evitar que uma assimetria pequena se prolongue ou se torne mais difícil de tratar”, explica o fisioterapeuta.
A orientação, segundo Icaro, é procurar avaliação se o bebê apresentar achatamento persistente na cabeça, preferência por virar sempre para o mesmo lado, dificuldade para movimentar o pescoço ou diferença visível entre as laterais do rosto. Avaliar esses sinais cedo ajuda a definir a conduta adequada.
Fonte: Icaro Ramalho é fisioterapeuta pediátrico formado pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), com pós-graduação em Osteopatia pela Escola Brasileira de Fisioterapia Manipulativa (EBRAFIM). Atua em Petrolina (PE) com foco no atendimento de bebês e crianças com torcicolo congênito, assimetrias cranianas e alterações do desenvolvimento motor. É criador do Método TMAP – Terapia Manual Avançada Pediátrica, voltado à capacitação de fisioterapeutas de todo o Brasil para o tratamento dessas condiçõe

