Perimenopausa e Maternidade

Perimenopausa e maternidade: como as alterações hormonais silenciosas podem afetar relação com os filhos

Oscilações hormonais da transição para a menopausa podem aumentar irritabilidade, culpa e sensação de sobrecarga materna, impactando o vínculo familiar e a saúde mental da mulher.

A maternidade costuma exigir da mulher uma espécie de equilíbrio invisível: administrar a rotina, acolher emocionalmente os filhos, lidar com demandas profissionais, familiares e pessoais enquanto tenta manter tudo funcionando. Mas, para muitas mulheres na perimenopausa, essa engrenagem começa a falhar sem que elas entendam exatamente o motivo. “Sintomas como irritação e impaciência ficam mais intensos diante de pequenas situações, além disso, há uma sensação constante de exaustão e culpa após explosões emocionais que passam a fazer parte do cotidiano. Frequentemente, essas mudanças são interpretadas como falha pessoal ou desgaste psicológico comum da vida adulta. No entanto, em muitos casos, existe um componente biológico importante por trás dessas alterações”, explica a Dra. Ana Paula Fabricio, ginecologista com Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO). “O conjunto de responsabilidades, incluindo carreira, cuidado com filhos e demandas pessoais, somado às mudanças no próprio corpo pode gerar uma sensação intensa de sobrecarga”, completa o Dr. Nélio Veiga Junior, pós-doutorando em Menopausa, com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério.

Embora muita gente não saiba, a perimenopausa, fase de transição hormonal que antecede a menopausa, pode começar anos antes da interrupção definitiva da menstruação. “Nesse período, ocorre uma oscilação significativa dos níveis de estrogênio e progesterona, hormônios que também influenciam diretamente neurotransmissores relacionados ao humor, como serotonina e dopamina. Na prática clínica, o que mais observamos é uma redução importante do limiar emocional da mulher. Ela passa a ter menos tolerância ao estresse, sente uma sobrecarga constante e pode reagir de forma mais intensa com os filhos, muitas vezes seguida de arrependimento”, explica a médica.

Segundo a especialista, esse processo não deve ser interpretado como “falta de paciência” ou desinteresse pela maternidade. Existe uma alteração neurobiológica real acontecendo naquele organismo. “O cérebro dessa mulher está sob influência de oscilações hormonais importantes e, muitas vezes, também de um estado inflamatório aumentado. Isso afeta diretamente a regulação emocional”, afirma. “Há um sentimento de culpa, como se estivessem falhando como mães por estarem mais impacientes ou cansadas”, afirma o Dr. Nélio.

O impacto tende a ser ainda maior quando não existe uma rede de apoio estruturada. Mulheres que acumulam múltiplas funções, sem espaço para descanso físico ou emocional, frequentemente vivem em estado contínuo de alerta e exaustão. “E isso acaba transbordando justamente nas relações mais próximas, especialmente com os filhos. Um dos padrões emocionais mais comuns nessa fase é o ciclo formado por irritação e culpa. A mulher reage de forma mais ríspida em situações simples do dia a dia e, logo depois, sente culpa intensa por acreditar que está se tornando uma ‘mãe pior’”, esclarece a Dra. Ana.

Esse sofrimento costuma ser silencioso. Muitas mulheres não verbalizam o que sentem por medo de julgamento, o que aumenta ainda mais a sensação de isolamento. “É fundamental entender que isso não define quem ela é como mãe. Não é falta de amor, nem fraqueza emocional. É uma fase fisiológica de transição que precisa ser compreendida e acolhida”, ressalta a médica.

A médica explica que reduzir a autocobrança é um passo importante para atravessar essa fase com mais equilíbrio. Conversar sobre o tema com a família tende a deixar a dinâmica familiar mais empática”, explica o Dr. Nélio. “Desenvolver consciência emocional ajuda a identificar gatilhos antes das reações mais intensas, protegendo o vínculo familiar e diminuindo o sofrimento psíquico.” Além disso, pequenas mudanças práticas podem ajudar na preservação da saúde mental, principalmente para mulheres sem uma rede de apoio forte. A médica cita: pausas curtas ao longo do dia, mesmo de poucos minutos, para ajudar a reduzir a sensação de sobrecarga cerebral; organizar minimamente a rotina; e dar atenção especial ao sono, já que a privação de descanso piora significativamente a instabilidade emocional e a irritabilidade. “Dormir bem, em torno de sete horas por noite, é fundamental para a estabilidade emocional”, diz o Dr. Nélio. “Outro ponto importante é reduzir estímulos que drenam energia mental, como excesso de telas e comparações constantes nas redes sociais, realidade que frequentemente aumenta a sensação de inadequação materna”, diz a Dra. Ana Paula. Em alguns casos, a terapia de reposição hormonal pode ser indicada, conjuntamente a acompanhamento psicológico. “A comunicação transparente com os filhos, dentro do que for compatível com a idade deles, também pode ajudar a preservar a relação afetiva. Nem sempre essa mulher precisa apenas suportar essa fase em silêncio. Muitas vezes, ela precisa de cuidado adequado, com avaliação hormonal e uma abordagem que considere sono, saúde mental, alimentação e qualidade de vida de forma integrada”, conclui a especialista. “Em um período da vida marcado por tantas transformações físicas e emocionais, acolher a mulher também significa proteger suas relações, sua saúde mental e sua identidade para além da maternidade”, finaliza a Dra. Ana Paula.

Fontes:

DRA. ANA PAULA FABRICIO: ginecologista, com Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO). Graduada em Medicina pela Unoeste de Presidente Prudente, com Residência em Ginecologia e Obstetrícia pela Santa Casa de Araçatuba. Possui Pós-graduação em Nutrologia pela ABRAN, Pós-graduação em Medicina Estética e Pós-graduação com Dr. Lair Ribeiro em Prevenção e Tratamento de Doenças Relacionadas com a Idade. CRM 16636 | RQE 7925.

Médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP) e pós-doutorando em Menopausa, com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério. Foi médico preceptor do curso de Medicina da UNICAMP e pesquisador no Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas, participando de estudos voltados à saúde ginecológica e reprodutiva. CRM-SP 162641 | RQE 87396

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