Especialista do Hospital Oftalmos explica por qual motivo o exame anual de fundo de olho é essencial para prevenir a principal causa evitável de cegueira entre pacientes diabéticos

Quando se fala em diabetes, a maioria das pessoas associa a doença ao controle do açúcar no sangue, à alimentação e às complicações cardiovasculares. O que muita gente ainda desconhece é que o diabetes também está entre as principais causas de cegueira evitável no Brasil. Por isso, durante o Mês da Saúde Ocular, o alerta ganha ainda mais importância. Para que pacientes e familiares tirem as principais dúvidas sobre a doença, o médico oftalmologista Igor Carvalho, do Hospital Oftalmos, esclarece os principais pontos sobre a retinopatia diabética, sua relação com a visão, formas de prevenção e tratamentos:
1. Por qual motivo o diabetes é a principal causa evitável de cegueira no Brasil?
A cegueira causada pelo diabetes pode ser evitada com um exame simples de visão, realizado uma vez por ano, mas, infelizmente, a maioria das pessoas não o faz. O Brasil tem milhões de diabéticos, muitos deles sem diagnóstico. Mesmo quem sabe que tem a doença, muitas vezes não procura o oftalmologista até começar a enxergar mal. Quando os sintomas aparecem, o dano já está avançado, e o tratamento se torna mais difícil. Estudos mostram que o exame anual de fundo de olho reduz em mais de 90 por cento o risco de cegueira grave. Ou seja, a pessoa não fica cega por falta de tratamento, mas, sim, por não ter feito o exame a tempo.
2. O que é retinopatia diabética e como o excesso de açúcar afeta a visão?
A retinopatia diabética é uma doença que atinge os vasos sanguíneos microscópicos da retina, a parte do olho que funciona como um filme que capta as imagens. O excesso de glicose no sangue, ao longo dos anos, danifica esses pequenos vasos, que enfraquecem e começam a vazar sangue e líquido dentro da retina. Com o tempo, eles se obstruem e deixam áreas da retina sem oxigênio. Para compensar, o olho cria novos vasos, mais frágeis, que se rompem facilmente. Isso causa hemorragias internas, inchaço na mácula, que é a região central da visão, e, nos casos mais graves, descolamento da retina. O resultado final é a perda progressiva e, muitas vezes, irreversível da visão. O processo não causa dor, o que o torna ainda mais perigoso.
3. Por qual motivo a retinopatia diabética é chamada de doença silenciosa?
A pessoa não sente absolutamente nada nas fases iniciais. É possível ter lesões graves na retina e, ainda assim, enxergar perfeitamente, já que a visão central, responsável pela leitura e pelo reconhecimento de rostos, só é afetada quando a doença atinge a mácula. É como uma goteira no telhado: você só percebe quando a água começa a cair na sala, mas o estrago já vem acontecendo há meses. Os primeiros sinais de alerta, quando finalmente aparecem, são visão embaçada ou borrada, como se estivesse olhando por um vidro sujo; moscas volantes, que aparecem como pontos, fios ou manchas flutuando no campo visual; uma mancha escura no centro da visão, com dificuldade para ler ou reconhecer pessoas; e perda súbita da visão, como se uma cortina tivesse caído sobre o olho, o que pode indicar uma hemorragia interna. Quando qualquer um desses sintomas surge, a doença já está em estágio avançado, e o tratamento tende a ser mais agressivo. Por isso, é fundamental adotar medidas preventivas antes do aparecimento de qualquer sintoma.
4. Por que fazer o exame de fundo de olho anual, mesmo enxergando bem?
A retinopatia diabética não apresenta sintomas até estar em estágio avançado. O exame de fundo de olho permite que o médico visualize toda a retina, inclusive lesões minúsculas que o paciente não perceberia. Uma pessoa pode ter retinopatia proliferativa, a forma mais grave, e ainda ler todas as letras da tabela de visão. O exame anual é a única forma de detectar o problema antes que ele comprometa a visão. Além disso, a triagem oftalmológica anual pode reduzir em até 95 por cento o risco de cegueira por diabetes.
5. Quais são os riscos de negligenciar o acompanhamento?
A doença evolui sem que o paciente perceba, o que faz com que ele perca, diariamente, oportunidades de tratamento. Quando os sintomas surgem, o tratamento costuma ser mais caro, mais invasivo e com resultados piores. A chance de cegueira permanente aumenta drasticamente, e o que poderia ser resolvido com algumas aplicações ou laser, pode exigir uma cirurgia de urgência. Na prática, quem abandona o acompanhamento, coloca a própria visão em risco frente ao diabetes, e, na maioria dos casos, a doença acaba prevalecendo.
6. O controle da glicose, da pressão e do colesterol ajuda a preservar a visão?
Sim, e os dados comprovam isso. O controle da glicose, da pressão arterial e do colesterol constitui a base da prevenção das complicações oculares causadas pelo diabetes. Manter a hemoglobina glicada abaixo de 7 por cento pode reduzir o risco de retinopatia diabética em cerca de 35 por cento. Já manter a pressão arterial abaixo de 130 por 80 contribui para diminuir aproximadamente 37 por cento do risco de edema macular, enquanto controlar o colesterol LDL abaixo de 100 reduz a ocorrência de lesões na retina. No entanto, o controle clínico não substitui o acompanhamento oftalmológico. As duas medidas são complementares: enquanto o controle da doença ajuda a prevenir danos, o exame de fundo de olho permite identificar alterações precoces e iniciar o tratamento antes que a visão seja comprometida.
7. Quais são os tratamentos disponíveis hoje?
O tratamento da retinopatia diabética envolve diversas abordagens e começa pelo controle da glicose, que é a base do cuidado. É fundamental que o paciente acompanhe e trate o diabetes com um médico endocrinologista. Outra opção é o uso de injeções intraoculares, conhecidas como anti VEGF, nas quais medicamentos são aplicados diretamente no olho para reduzir o inchaço na mácula e fazer com que os vasos anormais regridam, possibilitando, em muitos casos, a recuperação da visão. Além disso, o tratamento inclui o laser de fotocoagulação, aplicado na retina para tratar áreas comprometidas e reduzir a necessidade de oxigênio. Embora seja eficaz, pode impactar a visão noturna e periférica. Em casos mais graves, pode ser indicada a cirurgia de vitrectomia, especialmente quando há hemorragia que não se resolve ou descolamento de retina. Nesse procedimento, o sangue é removido, e a retina é reposicionada. Também podem ser utilizados corticoides intraoculares em casos de inchaço que não respondem ao tratamento com anti VEGF.
8. É possível reverter os danos da retinopatia diabética?
Depende do tipo de dano. Nos casos de inchaço na mácula, também chamado de edema macular, é possível recuperar parte da visão com tratamento. Já quando há morte de células da retina, o dano é permanente, pois ocorre por falta de oxigênio. Hemorragias recentes podem ser reabsorvidas naturalmente ou tratadas cirurgicamente, com boas chances de recuperação. O principal objetivo do tratamento é interromper a progressão da doença e preservar a visão existente. A recuperação da visão perdida pode ocorrer em alguns casos, mas não é garantida.
9. Qual é o impacto do diagnóstico tardio do diabetes na saúde ocular?
É o cenário mais preocupante. A pessoa pode viver anos com níveis elevados de açúcar no sangue sem ter conhecimento disso. Nesse período, os vasos da retina podem ser seriamente comprometidos. Estima se que entre 20 e 30 por cento das pessoas já apresentam retinopatia no momento do diagnóstico do diabetes, e algumas já descobrem a doença com a visão afetada. O diagnóstico tardio reduz significativamente as possibilidades de prevenção. Existe uma máxima que diz: “Entre enxergar e perder a visão, existe um exame de fundo de olho por ano”. Por isso, realizar exames periódicos e obter o diagnóstico precoce é essencial para proteger a saúde dos olhos.
Fonte : Oftalmos – Fundado há quase 20 anos, o Oftalmos Hospital de Olhos é referência em oftalmologia no Litoral Centro-Norte de Santa Catarina. Une tecnologia de ponta aos mais modernos equipamentos do mercado, com uma infraestrutura completa para acolher o paciente em todas as etapas do atendimento ocular. No mesmo local, são realizadas consultas, exames, cirurgias e adaptação de lentes. É reconhecido pelo atendimento humanizado e pela excelência no cuidado visual em cada detalhe.

