Como Identificar e Agir diante das Dificuldades de Alfabetização?

A alfabetização constitui uma das etapas mais importantes da trajetória escolar da criança.

A alfabetização constitui uma das etapas mais importantes da trajetória escolar da criança. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o trabalho pedagógico com foco na alfabetização concentra-se nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental, período em que se espera que os estudantes desenvolvam as habilidades essenciais de leitura e escrita, processo que continua a ser consolidado ao longo da escolarização.

Embora o Brasil tenha registrado avanços importantes nessa área nos últimos anos, os desafios ainda são significativos. Em 2025, o país chegou a 66% das crianças da rede pública alfabetizadas ao fim do 2º ano, segundo o Indicador Criança Alfabetizada divulgado pelo MEC e pelo Inep, resultado que superou a meta de 64% prevista para o período e ficou 10 pontos acima do registrado em 2023.

Ainda assim, muitos estudantes enfrentam desafios ao longo desse processo. Um estudo realizado pelo Itaú Social, Fundação Lemann e BID, revelou que 40% estudantes enfrentaram desafios na aprendizagem e 11% possuem níveis de leitura e escrita abaixo do esperado para a fase de alfabetização.

Quando as fragilidades de alfabetização não são identificadas e acompanhadas adequadamente, além de comprometer a aprendizagem, elas podem afetar a autoestima da criança, gerar insegurança diante dos desafios e reduzir sua motivação na participação das atividades. Com o tempo, as barreiras encontradas durante a alfabetização podem limitar, também, sua capacidade de comunicação e compreensão do mundo ao seu redor.

Sinais de dificuldades de alfabetização que merecem atenção

Embora cada criança tenha seu próprio ritmo de aprendizagem, alguns sinais podem indicar a necessidade de um acompanhamento mais próximo, como a dificuldade persistente em associar letras e sons, compreender o funcionamento da escrita, avançar na produção de textos, ler palavras e interpretar pequenos textos adequados à faixa etária ou registar ideias com autonomia.

Além dos aspectos relacionados à aprendizagem, também vale observar aspectos comportamentais, como insegurança diante das atividades, desmotivação, resistência às propostas de leitura e escrita ou pouca participação em situações que envolvam linguagem. Esses sinais não devem ser encarados como diagnósticos, mas como alertas de que a criança pode precisar de intervenções pedagógicas mais direcionadas. Quanto mais cedo essas necessidades são identificadas, maiores são as chances de promover avanços consistentes.

No geral, as dificuldades de alfabetização têm origem multifatorial e podem estar associadas a fatores pedagógicos, emocionais, sociais, familiares ou neurobiológicos. Pouco contato com livros e práticas de leituras, faltas frequentes às aulas, desafios para manter a atenção, transtornos de aprendizagem, questões emocionais, mudanças importantes na rotina familiar ou situações de vulnerabilidade são alguns exemplos de elementos que podem interferir nesse processo.

Neste sentido, compreender o estudante de forma integral tem se tornado cada vez mais fundamental, considerando contexto de desenvolvimento, experiências e necessidades específicas. Somente a partir desse olhar ampliado é possível construir intervenções realmente eficazes.

Isto porque, o estado emocional da criança exerce influência direta sobre o seu desenvolvimento e sua disposição em aprender. Situações de ansiedade, insegurança, baixa autoestima, conflitos familiares ou dificuldades de socialização podem dificultar a concentração, a persistência diante dos desafios e a confiança em suas capacidades.

Nesse contexto, ao oferecer um ambiente acolhedor, seguro e afetivo, que valorize os avanços individuais e fortaleça o vínculo da criança com o processo de aprendizagem, a escola desempenha um papel essencial para seu desenvolvimento, uma vez que, quando se sente respeitada e incentivada, a criança torna-se mais aberta a experimentar, errar, aprender e evoluir.

O papel da escola e da família para as estratégias pedagógicas

Não existe metodologia única capaz de atender às necessidades de todos os estudantes de uma turma, e por isso o trabalho pedagógico exige observação constante, avaliação e registro sistemático do que cada criança já lê e escreve.

Com base nesse processo, os professores podem planejar intervenções intencionais, diversificar estratégias de ensino, utilizar recursos lúdicos e multissensoriais, promover agrupamentos produtivos e desenvolver ações de recomposição das aprendizagens, com o objetivo de garantir que cada estudante avance a partir de seu ponto de partida, respeitando seu ritmo sem perder de vista as habilidades essenciais para a alfabetização.

Isto é importante, pois reconhecer que as crianças aprendam de maneiras diferentes é um passo fundamental para construir experiências de aprendizagem mais significativas, capazes de ampliar o engajamento e favorecer o desenvolvimento de todos.

A família acompanha esse processo por outro lado, e quando compreendem a relevância dessa etapa e participam ativa e positivamente, a criança tende a sentir mais segura, valorizada e disposta a tentar. Atitudes simples do cotidiano, como incentivar a leitura, conversar sobre histórias, ampliar o repertório cultural e acompanhar a rotina escolar, contribuem significativamente para o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita.

Além disso, o diálogo constante entre escola e familiares permite alinhar expectativas, compartilhar estratégias e fortalecer a rede de apoio necessária para o desenvolvimento do estudante.

A leitura como porta de entrada para a linguagem escrita

Entre as estratégias que favorecem a alfabetização, a leitura aparece desde a primeira infância, antes mesmo de a criança escrever a primeira palavra. O contato frequente com livros e com diferentes gêneros textuais amplia o vocabulário e a familiariza com a estrutura da língua escrita. Com isso, cultivar esse hábito, tanto na escola quanto em casa, é uma forma de fortalecer as bases da alfabetização e formar leitores autônomos, críticos e participativos.

Diante desse contexto, falar sobre alfabetização é falar sobre autonomia, participação e desenvolvimento humano. Esse processo não só ensina a ler e escrever, mas permite que a criança compreenda o mundo, expresse pensamentos, sentimentos e ideias, além de construir sua própria trajetória de aprendizagem.

Desta forma, superar os desafios de alfabetização exige sensibilidade, intencionalidade pedagógica e a convicção de que toda criança é capaz de aprender quando encontra oportunidades adequadas, acolhimento e mediações compatíveis com as suas necessidades. Ao olhar para cada estudante individualmente, respeitando seu tempo, a escola contribui para a formação de cidadãos mais críticos, confiantes e preparados para atuar de maneira significativa na sociedade

Fonte: Isabella Oliveira é coordenadora pedagógica da unidade Muriaé da Rede de Colégios Santa Marcelina, instituição que alia tradição à uma proposta educacional sociointeracionista e alinhada às principais tendências do mercado de educação.

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