Psicóloga e terapeuta ocupacional explicam como autorregulação, atenção, impulsividade e sobrecarga sensorial podem influenciar comportamentos que costumam ser interpretados apenas como desobediência

“Eu peço dez vezes e ele não faz.” “Parece que não me escuta.” “Quando digo não, começa uma crise.” Situações como essas fazem parte da rotina de muitas famílias, mas interpretar todo comportamento difícil como falta de limite pode deixar de lado uma pergunta importante: a criança não quer fazer ou ainda não consegue se organizar para fazer?
Nem sempre uma criança que não atende a um pedido está escolhendo simplesmente desobedecer. Dependendo da idade e do contexto, dificuldades de atenção, impulsividade, processamento sensorial, transição entre atividades e regulação emocional podem interferir diretamente na capacidade de responder a uma solicitação.
“Autorregulação é uma habilidade que está em desenvolvimento durante a infância. A criança ainda está aprendendo a lidar com frustração, esperar, controlar impulsos e mudar de uma atividade para outra. Por isso, um comportamento que parece oposição para o adulto pode, em determinadas situações, representar uma dificuldade real de organização emocional e comportamental”, explica Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga.
Isso não significa, porém, que todo comportamento desafiador deva ser interpretado como sinal de transtorno. Crianças testam limites, sentem frustração e podem dizer “não” simplesmente porque não querem interromper uma atividade prazerosa.
O contexto é o que ajuda a diferenciar uma situação pontual de uma dificuldade persistente.
Quando um pedido simples vira uma grande crise
Para Catiuscia Homem, terapeuta ocupacional especialista em TEA, alguns episódios precisam ser observados também pela perspectiva da forma como a criança processa as informações do ambiente.
“Imagine uma criança que está profundamente envolvida em uma brincadeira e, de repente, precisa parar, guardar os brinquedos, colocar o sapato e sair. Para alguns adultos, são pedidos simples. Para determinadas crianças, essa sequência pode representar muitas demandas ao mesmo tempo. A dificuldade não está necessariamente em não querer obedecer, mas em conseguir fazer essa transição e se reorganizar”, explica.
Barulho, excesso de pessoas, mudanças inesperadas, fome, cansaço e uma rotina pouco previsível também podem aumentar a dificuldade de autorregulação.
Por isso, observar quando, onde e em quais situações determinado comportamento aparece pode ser mais útil do que classificá-lo imediatamente como “birra”.
O adulto também pode mudar a forma de dar uma ordem
Uma estratégia simples é transformar pedidos genéricos em orientações objetivas e compatíveis com a idade da criança.
Em vez de uma sequência de comandos — “guarda tudo, coloca o sapato, pega a mochila e vamos embora” — pode ser mais funcional dividir as tarefas, antecipar a mudança e verificar se a criança compreendeu o que precisa fazer.
“Dar uma instrução clara não significa ser permissivo. Pelo contrário. Crianças precisam de limites, mas também precisam de adultos que considerem suas capacidades naquele momento. Antecipar mudanças, estabelecer rotinas e oferecer instruções objetivas pode diminuir conflitos sem retirar a autoridade dos pais”, afirma Thaís.
E quando é hora de procurar ajuda?
Crises ocasionais fazem parte do desenvolvimento. O sinal de atenção está na frequência, intensidade, duração e impacto desses comportamentos na vida da criança e da família.
Quando a criança apresenta dificuldades muito frequentes para lidar com mudanças, sofre intensamente com estímulos cotidianos, não consegue participar de atividades compatíveis com sua idade ou os episódios interferem de maneira significativa na rotina, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender as causas.
“O objetivo de uma avaliação não é colocar um rótulo em cada comportamento infantil. É entender o que aquela criança está comunicando por meio do comportamento e quais habilidades ainda precisam ser desenvolvidas. A partir disso, podemos pensar em estratégias mais adequadas para aquela realidade”, afirma Catiuscia.
Mais do que escolher entre “falta de limite” ou “problema de comportamento”, a proposta é olhar para a criança com mais precisão. Comportamento é comunicação, e entender o que existe por trás dele pode mudar a maneira como adultos e crianças enfrentam os desafios do dia a dia.
Fonte:Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga – Catiuscia Homem, terapeuta ocupacional especialista em TEA

