Quando Comer vira um Problema

Quando comer vira um problema: ansiedade dos pais pode levar famílias a subestimar a alimentação dos filhos

De acordo com dados levantados pelo Cenda e Instituto Pensi, os pais acreditam que os filhos comem apenas 15 alimentos, mas as crianças consomem, em média, 26 alimentos diferentes

Queixas como “meu filho não come nada”, “só aceita alguns alimentos” ou “está comendo demais por ansiedade” fazem parte da rotina de milhares de famílias brasileiras. Frequentemente interpretadas como uma fase passageira do desenvolvimento, as dificuldades alimentares na infância podem esconder quadros complexos que vão muito além do comportamento à mesa, com impactos no crescimento, na nutrição, no desenvolvimento e na qualidade de vida das crianças.

O tema será um dos destaques do 8º Congresso Internacional Sabará-PENSI de Saúde Infantil, que reunirá em São Paulo médicos, pesquisadores, nutricionistas, fonoaudiólogos, psicólogos e outros profissionais do Brasil e do exterior para discutir avanços no diagnóstico, tratamento e prevenção dos transtornos alimentares pediátricos. O encontro também será palco para o debate de protocolos e abordagens multiprofissionais voltados ao cuidado integral da criança.

Pesquisas conduzidas pelo Instituto Pensi (Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil) e a experiência clínica desenvolvida no Sabará Hospital Infantil ajudam a ampliar a compreensão sobre os diferentes fatores envolvidos nas dificuldades alimentares. Entre os estudos que ilustram essa realidade, um levantamento realizado pelo Cenda (Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares) identificou que o estresse e a ansiedade dos cuidadores durante as refeições podem influenciar significativamente a percepção que as famílias têm sobre os hábitos alimentares dos filhos.

De acordo com os dados avaliados pelo centro, 54% dos pais acreditavam que seus filhos consumiam apenas 15 ou menos tipos de alimentos. Entretanto, após avaliação realizada por médicos, nutricionistas e fonoaudiólogos, com aplicação de inventários alimentares detalhados, verificou-se que o repertório alimentar real dessas crianças era substancialmente maior, alcançando uma média de 26 alimentos diferentes.

Segundo pesquisadores do Cenda e do Instituto PENSI, a percepção dos adultos tende a se concentrar nos poucos alimentos aceitos sem resistência ou nos conflitos que surgem durante as refeições, contribuindo para uma visão distorcida do comportamento alimentar infantil. “Muitas vezes, a percepção dos adultos fica concentrada nos alimentos que a criança recusa ou nos conflitos gerados à mesa. Isso pode dificultar uma avaliação mais precisa do repertório alimentar já aceito pela criança e aumentar a ansiedade da família durante as refeições”, afirma Dr. Mauro Fisberg, , nutrólogo e coordenador do Cenda, vinculado ao Sabará Hospital Infantil.

O mapeamento também identificou um perfil mais frequente entre os pacientes que procuram atendimento especializado: 61% são meninos, com maior incidência dos casos entre 2 e 5 anos de idade.

As dificuldades alimentares também estão associadas a transtornos do neurodesenvolvimento. Embora a seletividade alimentar atinja cerca de 45% das crianças com desenvolvimento típico, estudos apontam que esse percentual pode chegar a 80% entre crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Nesses casos, a recusa alimentar costuma estar relacionada à rigidez comportamental e a alterações do processamento sensorial, como aversão a determinadas texturas, cores, cheiros ou temperaturas dos alimentos. Por isso, o acompanhamento precoce e individualizado por equipes multiprofissionais é fundamental para favorecer o desenvolvimento infantil e ampliar a variedade alimentar.

Outro aspecto que será debatido durante o congresso é a falsa associação entre dificuldades alimentares e baixo peso. Na prática clínica, muitos pacientes apresentam justamente o cenário oposto: excesso de peso, sobrepeso ou obesidade.

Isso ocorre porque algumas crianças mantêm uma alimentação extremamente restrita, baseada principalmente em alimentos ultraprocessados, altamente palatáveis e de fácil mastigação. Apesar da ingestão calórica elevada, essas dietas podem apresentar carências importantes de vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais para o desenvolvimento saudável.

A importância da abordagem multiprofissional

Para prevenir impactos físicos, emocionais e sociais decorrentes das dificuldades alimentares, o modelo assistencial adotado pelo Cenda defende uma avaliação ampla e integrada. Como a alimentação envolve aspectos motores, sensoriais, cognitivos, comportamentais e orgânicos, o protocolo prevê atendimento conjunto realizado por médico pediatra, nutricionista e fonoaudiólogo, permitindo um diagnóstico mais preciso e a definição de estratégias terapêuticas adequadas para cada caso.

“O sucesso do tratamento depende da compreensão de que a dificuldade alimentar raramente tem uma única causa. É fundamental avaliar a criança de forma integral para identificar os fatores envolvidos e promover uma relação saudável com a alimentação”, destaca o Dr. Mauro Fisberg, pediatra, nutrólogo e coordenador do Cenda, vinculado ao Sabará Hospital Infantil.

Sinais de alerta para pais e cuidadores para alguns comportamentos das crianças

  • Rejeição persistente e sofrimento diante da oferta de novos alimentos;
  • Refeições que frequentemente ultrapassam 40 minutos e geram conflitos familiares;
  • Engasgos frequentes, ânsias de vômito ou recusa de determinadas texturas;
  • Perda de peso ou ganho excessivo e repentino;
  • Isolamento social relacionado à alimentação, em festas, eventos escolares ou reuniões familiares.

A identificação precoce desses sinais pode contribuir para diagnósticos mais rápidos, tratamentos mais eficazes e melhor qualidade de vida para crianças e familiares.

Fonte: O Sabará Hospital Infantil tem mais de 60 anos de história e é referência em saúde infantojuvenil no país, sendo um dos primeiros hospitais exclusivamente pediátricos do Brasil a conquistar acreditação pela Joint Commission International (JCI), desde 2013. Conta com uma equipe multiprofissional altamente qualificada, preparada para atender desde casos simples até os mais raros e complexos da pediatria.

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