Preparação prévia, estratégias lúdicas e participação familiar podem facilitar o procedimento e reduzir experiências negativas

O corte de cabelo pode representar um desafio para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O ruído da máquina, o contato da tesoura com os fios, a sensação do cabelo sobre a pele e a necessidade de permanecer sentado são estímulos que podem provocar desconforto.
Para tornar o procedimento mais acessível, profissionais recomendam uma abordagem individualizada, com preparação prévia, ambiente adaptado e respeito aos limites de cada criança.
Segundo Cristopher Rodrigues, cabeleireiro especializado em cortes infantis e no atendimento humanizado de pessoas com TEA, o corte exige atenção às respostas sensoriais e comportamentais apresentadas durante cada etapa. “O atendimento começa antes mesmo de ligar a máquina. É necessário observar como a criança reage ao ambiente, ao toque, aos equipamentos e aos diferentes estímulos envolvidos no procedimento. A partir dessa avaliação, o profissional pode definir uma sequência de aproximação, introduzindo os instrumentos gradualmente e utilizando recursos que facilitem a compreensão do que será feito. Também é importante reconhecer sinais de sobrecarga, como agitação e tentativas de afastamento, para interromper a atividade quando necessário. A técnica de corte precisa estar associada à capacidade de adaptar a condução do atendimento, sem ultrapassar os limites apresentados pela criança”, explica.
Entre as estratégias possíveis estão a aproximação gradual dos equipamentos, o uso de brincadeiras e a incorporação de interesses da criança ao atendimento. Se ela gosta de carrinhos, por exemplo, a máquina pode ser apresentada de maneira lúdica, como um veículo com motor.
A preparação também pode começar em casa, com atividades de cuidado capilar e familiarização progressiva com os sons envolvidos no procedimento. Durante o corte, sinais como agitação, tentativas de se afastar e pedidos para sair do ambiente indicam que pode ser necessário interromper a atividade e permitir que a criança se reorganize.
Para Ronaldo Ranieri, diretor da CompletaMente, instituição especializada no atendimento e desenvolvimento de pessoas com TEA e suas famílias , a oferta de um atendimento adaptado responde à necessidade de ampliar o acesso a serviços que considerem as particularidades de crianças autistas e de suas famílias. “Quando pensamos em um serviço voltado a esse público, precisamos olhar além da execução de uma atividade cotidiana. Existe uma demanda por ambientes preparados e profissionais que compreendam as necessidades dessas crianças. Desenvolver esse tipo de atendimento significa estruturar um serviço que considere diferentes formas de interação, acolha as famílias e ofereça condições para que cada criança seja atendida de acordo com suas características. É uma iniciativa que busca responder a uma necessidade concreta, com atenção à qualidade da experiência oferecida”, afirma.
A importância desse acolhimento também se reflete na expansão da CompletaMente, que inaugurou sua quinta unidade em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. O espaço realizou 81 atendimentos no primeiro dia de funcionamento. Nas unidades, a instituição promove ainda atividades lúdicas, como pintura facial, distribuição de algodão-doce e escultura com balões, que contribuem para criar momentos de descontração e aproximar as crianças do ambiente de atendimento.
Ranieri ressalta que a consolidação de iniciativas como essa depende da compreensão de que o cuidado precisa envolver tanto a criança quanto seus responsáveis. “A família é parte importante desse processo, porque participa da preparação e acompanhamento das conquistas que acontecem ao longo do tempo. Nosso papel é oferecer uma estrutura que permita acolher diferentes necessidades e construir uma relação de confiança com quem procura o serviço. O sucesso não deve ser medido apenas pela realização de um procedimento, mas também pela forma como a criança vivencia aquele momento. Quando conseguimos transformar uma situação que poderia ser difícil em uma experiência mais positiva, contribuímos para que atividades da rotina se tornem progressivamente mais familiares”, conclui.
Fonte: Ronaldo Ranieri, diretor da CompletaMente, instituição especializada no atendimento e desenvolvimento de pessoas com TEA e suas famílias

