Desenvolvimento intelectual avançado não significa maturidade emocional; especialista explica por que brincadeiras, convivência e tempo livre são fundamentais para crianças com altas habilidades

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Uma criança que aprende a ler antes dos colegas, demonstra interesse por assuntos complexos ou apresenta habilidades muito acima do esperado para sua idade pode despertar admiração entre familiares e professores. Mas, quando a capacidade intelectual passa a definir todas as expectativas sobre ela, existe o risco de esquecer uma necessidade fundamental: continuar sendo criança.
Neste Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, o debate sobre a infância de estudantes com altas habilidades ou superdotação ganha relevância diante da nova Política Nacional para esse público, instituída pela Lei nº 15.436, de junho de 2026.
A legislação prevê identificação precoce, atendimento educacional especializado e desenvolvimento integral, incluindo estudantes com dupla excepcionalidade.
Para Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente e professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, reconhecer o potencial de uma criança também exige atenção às suas necessidades emocionais, sociais e afetivas.
“Uma criança pode ter um desenvolvimento intelectual muito avançado e, ao mesmo tempo, apresentar necessidades emocionais próprias da sua idade. O fato de compreender assuntos complexos não significa que ela saiba lidar com todas as emoções ou que esteja preparada para assumir responsabilidades maiores. Antes de ser superdotada, ela é uma criança e precisa viver sua infância.”
Quando a inteligência vira cobrança
A identificação das altas habilidades pode abrir oportunidades importantes para o desenvolvimento infantil. O problema surge quando o reconhecimento desse potencial se transforma em cobrança constante por resultados.
Uma criança que demonstra facilidade com matemática, por exemplo, pode passar a receber atividades cada vez mais complexas, enquanto suas oportunidades de brincar, experimentar outras linguagens e conviver com colegas ficam em segundo plano.
O mesmo pode acontecer com aquelas que demonstram talento musical, artístico ou facilidade para aprender idiomas.
A Associação Nacional para Crianças Superdotadas dos Estados Unidos (NAGC) publicou, em maio de 2025, um documento destacando que o desenvolvimento de crianças com altas habilidades deve contemplar não apenas os aspectos cognitivos, mas também os físicos, sociais, emocionais e psicológicos.
“Existe uma diferença importante entre estimular uma habilidade e transformar toda a rotina da criança em uma sequência de atividades voltadas ao desempenho. Nem tudo o que ela faz precisa resultar em aprendizado formal, uma conquista ou uma demonstração de inteligência. O tempo livre também tem valor para o desenvolvimento”, explica Gattino.
Isso não significa deixar de oferecer desafios intelectuais. Crianças com altas habilidades podem precisar de atividades educacionais específicas, mas essas oportunidades devem coexistir com experiências próprias da infância.
Brincar também é desenvolver inteligência
Um relatório global publicado pelo UNICEF em junho de 2026 reforça que brincar contribui para o desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional. Durante as brincadeiras, as crianças exercitam a criatividade, experimentam diferentes papéis, negociam regras, aprendem a resolver conflitos e desenvolvem relações com outras pessoas.
Essas experiências também são importantes para crianças superdotadas. Uma brincadeira coletiva, por exemplo, oferece situações que não dependem apenas da capacidade intelectual: esperar a vez, negociar decisões, aceitar resultados inesperados e considerar os sentimentos dos colegas.
“Nas brincadeiras, a criança encontra situações que não podem ser resolvidas apenas com inteligência ou conhecimento. Ela precisa negociar, esperar, lidar com a frustração e perceber o outro. São experiências fundamentais para o desenvolvimento emocional e para a construção das relações sociais”, destaca Gustavo.
O especialista também chama atenção para o papel das atividades criativas. Música, dança, desenho, jogos de imaginação e brincadeiras espontâneas oferecem diferentes possibilidades de expressão, sem a necessidade de transformar cada experiência em uma atividade dirigida.
A criança que sabe muito também pode precisar de ajuda
Um dos equívocos que podem acompanhar a superdotação é acreditar que o desenvolvimento intelectual avançado necessariamente corresponde à mesma maturidade em todas as outras áreas.
Uma criança pode demonstrar conhecimentos surpreendentes sobre astronomia e, ainda assim, ter dificuldade para lidar com a derrota em um jogo. Outra pode apresentar grande habilidade musical, mas precisar de ajuda para administrar conflitos com os amigos.
Isso não significa que todas as crianças superdotadas tenham dificuldades emocionais. O desenvolvimento é individual, e as necessidades variam de uma criança para outra.
“Quando os adultos enxergam apenas a capacidade intelectual, podem esperar comportamentos que ainda não correspondem à idade emocional da criança. Ela pode argumentar como alguém mais velho, mas continuar precisando de acolhimento, orientação e ajuda para compreender o que sente”, observa Gattino.
A escola tem papel importante nesse processo. Além de oferecer desafios compatíveis com as habilidades identificadas, precisa assegurar oportunidades de convivência, atividades lúdicas e participação nas experiências coletivas.
Como equilibrar estímulo e infância?
Para famílias e professores, o desafio não está em escolher entre desenvolver o potencial e permitir que a criança brinque, mas em garantir espaço para as duas experiências.
Algumas atitudes podem ajudar: respeitar os interesses da criança sem transformar todos eles em compromissos, preservar momentos livres na rotina, oferecer brincadeiras com outras crianças e valorizar experiências que não estejam relacionadas ao desempenho escolar.
Também é importante observar como ela reage às atividades propostas. Uma rotina aparentemente enriquecedora pode precisar de ajustes quando deixa pouco espaço para descanso, convivência ou escolhas espontâneas.
“O desenvolvimento de uma criança não pode ser medido apenas pelo que ela sabe ou pela velocidade com que aprende. Também precisamos observar se ela tem amigos, se encontra espaço para brincar, se consegue expressar suas emoções e se está tendo oportunidades de descobrir o mundo sem a obrigação de demonstrar alguma habilidade o tempo todo”, afirma Gustavo.
Neste Dia das Crianças, a reflexão é especialmente importante para famílias que convivem com altas habilidades ou superdotação: reconhecer talentos e oferecer oportunidades de aprendizagem é fundamental, mas o desenvolvimento integral também depende de experiências que não cabem em provas, avaliações ou certificados.
“Uma infância rica não é aquela em que a criança aprende o maior número possível de coisas no menor tempo. É aquela em que ela tem oportunidades de desenvolver suas habilidades, construir vínculos, explorar o mundo e simplesmente brincar. O talento não deve ocupar o espaço da infância”, conclui.
Fonte: Gustavo Gattino – Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, e autor de dez livros. Com mais de 20 anos de experiência, dedica-se a temas relacionados ao desenvolvimento humano, música, saúde, neurodivergência e educação.

