5 Ensinamentos do Ayurveda que podemos Levar para a Rotina das Crianças

Uma das coisas que mais me encanta no Ayurveda é que ele nunca olha para uma criança como um adulto em tamanho menor

A infância é compreendida como uma fase própria da vida, com necessidades próprias, porque existe um corpo inteiro sendo construído ali. Na visão ayurvédica, essa é uma fase naturalmente relacionada a Kapha, dosha formado pelos elementos terra e água e associado às qualidades de estrutura, crescimento, estabilidade e nutrição. E isso faz muito sentido quando pensamos que uma criança está literalmente construindo matéria: ossos crescem, tecidos se desenvolvem, dentes aparecem, o sistema digestivo amadurece e, ao mesmo tempo, ela está formando sua relação com o sono, com a comida, com o próprio corpo e com o mundo.

A gente não abre uma flor com as mãos para fazê-la florescer mais rápido. Cuida da terra, observa a quantidade de água, oferece luz e permite que o tempo faça uma parte do trabalho que ninguém pode fazer por ela. Existe algo dessa mesma inteligência no cuidado com uma criança. Nem tudo precisa ser estimulado, acelerado ou ensinado. Muitas vezes, precisamos apenas criar boas condições para que o desenvolvimento aconteça. E existem alguns ensinamentos do Ayurveda que considero especialmente bonitos para trazer para a infância. 

1. A criança precisa de ritmo, não de rigidez

A natureza inteira funciona através de ritmos. O sol nasce e se põe, as estações mudam, existem períodos de crescimento e de recolhimento. Nosso corpo também reconhece repetições. Na Ayurveda, Dinacharya é justamente o entendimento de que aquilo que fazemos todos os dias ajuda a organizar o organismo. Com crianças, isso não significa transformar a casa em um relógio ou fazer tudo exatamente no mesmo minuto. Significa criar referências. Existe uma hora aproximada para acordar, comer, brincar, tomar banho, diminuir o ritmo e dormir. Imagine entrar todos os dias em uma casa em que os móveis mudam de lugar. Mesmo que a casa seja segura, você precisaria estar constantemente atento para descobrir onde está cada coisa. A previsibilidade funciona de maneira parecida: ela cria um mapa. Quando determinados acontecimentos se repetem, o corpo começa a reconhecer o que vem depois. Por isso, uma rotina não precisa aprisionar a infância. Quando existe flexibilidade, ela pode justamente oferecer uma estrutura segura dentro da qual a criança consegue explorar o mundo.

2. Não importa apenas o que colocamos no prato, mas o que a criança consegue digerir

Esse é um dos princípios do Ayurveda que mais transformam a maneira como enxergamos a alimentação. Nós aprendemos a perguntar se um alimento é saudável, nutritivo, orgânico ou rico em determinada vitamina, mas o Ayurveda acrescenta outra pergunta: aquele corpo consegue transformar o que recebeu? É aí que entra Agni, o princípio digestivo. Podemos pensar nele como uma fogueira. Se existe fogo suficiente, colocamos a lenha e ela é transformada. Mas, se continuamos colocando lenha antes que a anterior tenha sido consumida, em algum momento teremos mais material acumulado do que capacidade de transformação. Com a alimentação acontece algo parecido. Não adianta olhar apenas para a qualidade do alimento e esquecer o apetite, os intervalos, a quantidade, a mastigação e como a criança se sente depois de comer. Por isso, na visão do Ayurveda, observar uma criança também faz parte de alimentá-la. Ela chega à próxima refeição com fome? Como fica depois de comer? O intestino funciona bem? Existe disposição? Alimentar não é apenas oferecer nutrientes; é também respeitar a capacidade daquele corpo de recebê-los e transformá-los. E uma das coisas mais simples que podemos devolver às crianças é a possibilidade de perceber a própria fome e a própria saciedade, em vez de crescerem completamente desconectadas desses sinais. 

3. O sono começa muito antes de a criança fechar os olhos

Muitas vezes esperamos que uma criança passe do movimento para o repouso como quem aperta um interruptor: estava correndo, brincando, vendo uma tela ou recebendo estímulos e, de repente, precisa deitar e dormir. Mas o corpo não funciona como um botão de liga e desliga. É mais parecido com uma água que estava fervendo: mesmo depois que apagamos o fogo, ela leva algum tempo para perder o calor. No Ayurveda, Nidra, o sono, é considerado um dos pilares que sustentam a vida. Por isso, tão importante quanto o horário de dormir é aquilo que acontece antes dele. Diminuir as luzes, reduzir estímulos, guardar os brinquedos, tomar banho, ouvir uma história, receber uma massagem ou simplesmente perceber que a casa também começou a desacelerar são formas de construir uma ponte entre o dia e a noite. A criança não aprende a descansar apenas quando dizemos “agora é hora de dormir”. Ela aprende quando experimenta, repetidamente, a passagem entre movimento e repouso.

4. O toque também alimenta

Quando falamos em nutrir uma criança, quase imediatamente pensamos em comida. Mas existem outras formas de nutrição. Na Ayurveda, o toque e o uso dos óleos fazem parte do cuidado cotidiano há milhares de anos. A prática da oleação corporal é conhecida como Abhyanga, e existe também uma tradição específica de cuidados ayurvédicos voltados à infância. Mas não precisamos transformar isso em um ritual complexo para compreender o princípio que existe por trás dele. Uma massagem suave nos pés, um pouco de óleo no corpo antes do banho ou alguns minutos de toque sem pressa já mudam a qualidade daquele momento. Quando passamos óleo em uma criança, não estamos apenas colocando uma substância sobre a pele. Existe temperatura, pressão, cheiro, repetição, presença e contato. É uma experiência inteira. Às vezes pensamos muito no que uma criança precisa receber e pouco em como ela recebe. O mesmo banho pode ser apenas mais uma tarefa antes de dormir ou pode se tornar um momento em que o corpo percebe: agora estamos diminuindo o ritmo. É por isso que eu gosto tanto desse ensinamento. Ele nos lembra que cuidado não é feito apenas das coisas que oferecemos, mas também da maneira como estamos presentes enquanto oferecemos. 

5. A natureza ensina aquilo que muitas vezes tentamos explicar

O Ayurveda nasceu da observação da natureza. Antes de existirem aplicativos dizendo a hora de dormir, tabelas dizendo o que comer ou relógios marcando cada minuto do dia, existiam luz e escuridão, calor e frio, chuva e seca, fome e saciedade, movimento e repouso. E o corpo humano se desenvolveu dentro desses ciclos. Uma criança que vê o dia amanhecer, percebe que escureceu, brinca ao ar livre, sente a mudança de temperatura, toca a terra, acompanha uma planta crescendo ou conhece os alimentos de uma estação está recebendo informações sobre ritmo sem que ninguém precise dar uma aula sobre isso. Uma árvore não dá frutos o ano inteiro. A terra não está permanentemente produzindo. O sol aparece e desaparece todos os dias. A natureza inteira alterna expansão e recolhimento. É importante lembrar disso em uma época em que até a infância pode ser preenchida por estímulos, compromissos e atividades o tempo inteiro. Nem todo espaço vazio precisa ser ocupado. O tédio também pode virar brincadeira. O silêncio pode virar imaginação. O tempo sem uma atividade dirigida pode ser justamente o espaço em que uma criança começa a descobrir o que fazer com o próprio mundo interno.

Depois que me tornei mãe, esse foi um dos ensinamentos do Ayurveda que ganhou ainda mais significado para mim: cuidar não é controlar todas as variáveis ao redor de uma criança. Também não é tentar construir uma infância perfeita. É observar. Uma planta pode receber a melhor terra, água e luz e ainda assim terá o seu próprio tempo para crescer. Com uma criança não é diferente. Podemos oferecer alimento, rotina, sono, toque, natureza e presença, mas existe uma parte do desenvolvimento que pertence a ela.

Levar o Ayurveda para a infância, então, não significa colocar mais cinco coisas na lista de tarefas dos pais. Significa justamente lembrar que nem todo cuidado precisa acrescentar alguma coisa. Às vezes, cuidar é retirar: um pouco do excesso de estímulo, um pouco da pressa, um pouco da necessidade de preencher cada minuto. E devolver espaço para aquilo que sempre sustentou o crescimento humano: alimento, descanso, movimento, vínculo, natureza, toque e tempo.

Porque nenhuma criança precisa ser ensinada a crescer. Assim como uma semente, ela já carrega essa inteligência. O nosso papel é cuidar do terreno.

Fonte: Nina Habib: Nina Habib é terapeuta ayurvédica, escritora e fundadora da Taila Veda. Com estudos e imersões na Índia e formação em Wellness & Nutrition pela Harvard Medical School, dedica-se ao estudo e à difusão do Ayurveda, aproximando seus conhecimentos tradicionais da vida contemporânea.

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