A presença da família no brincar

Um legado que passa de geração para geração

Brincar é tradição, é a alegria da infinidade em ser criança. É perder noção do tempo pela troca justa e honesta que só uma brincadeira proporciona. É a chance que adultos – pais, avós e cuidadores – tem para voltar a ser criança. Ao sentir cada emoção de novo, como se fosse a primeira vez, e vista refletida nos olhos dos pequenos.

Na memória, e nas melhores lembranças, existem diversas brincadeiras que se mantém de geração para geração: pega-pega, pipa, ioiô, pião, esconde-esconde, pular corda, amarelinha, por exemplo, são brincadeiras que ultrapassam o tempo e criam vínculos eternos.

Na expressão mais aprofundada do brincar, conforme explicação de Raquel Luzardo, fonoaudióloga, há brincadeiras sensório-sociais eternizadas como serra-serra serrador, cadê-achou, upa upa cavalinho. Esse tipo de brincadeira conecta e promove a interação da criança com o outro. “São brincadeiras que não dá pra brincar sozinho. É preciso do outro para brincar e se conectar”, completa Raquel.

Atualmente o foco está desde bem pequenos na conexão, mas diferente de antigamente, essa conexão tem sido com a tecnologia e as telas. Conseguir trazer a atenção da criança pode ser um desafio, mas é necessário promover momentos de conexão pais-filhos para favorecer o desenvolvimento de linguagem e da fala das crianças. “Existem diversas estratégias que pode ajudar, como: organizar a rotina abrindo espaço para se conectar com a criança, convidar a criança para as atividades diárias, ter momentos lúdicos que incentive o pequeno estar ali. Nessa hora é importante que os pais também se desconectem, não adianta guardar o tablet da criança e manter seu celular do lado para checar as mensagens de vez em quando!”, afirma Raquel Luzardo, fonoaudióloga especialista em linguagem e desenvolvimento infantil.

Quanto mais as telas se tornam acessíveis a crianças ainda pequenas, menos elas aprendem as brincadeiras que faziam parte da infância de seus pais e avós. Isso representa um prejuízo enorme para toda a família. “Os laços formados ao ensinar uma brincadeira ao filho ou neto transformam-se em recursos que essa criança vai usar em diversos momentos desafiadores da sua vida, incluindo na aprendizagem formal e nos relacionamentos sociais. É papel da família garantir o equilíbrio no uso das telas, mantendo vivas brincadeiras que envolvem movimentos, utensílios simples do dia a dia e interações com outras crianças ou adultos”, reforça Roberta Bento, psicopedagoga e fundadora da SOS Educação.

Crianças que mantém a tradição das brincadeiras de seus pais e avós desenvolvem maior autoconfiança, autoestima, resiliência e curiosidade. São também crianças com maior facilidade na autoregulação das próprias emoções e mais capazes de falar sobre sentimentos e necessidades, buscando ajuda com maior frequência em situações de maior desafio.

Um caminhar de alegria e aprendizado é possível. “Cabe a nós, adultos, ajudar as crianças a terem uma vida na qual o equilíbrio entre o mundo real o virtual esteja presente. Quanto mais tarde uma criança começa a ter acesso a telas, maiores os benefícios para seu desenvolvimento, incluindo habilidades de comunicação e interação social. Determinar e fazer cumprir horários em que nenhuma tela esteja ligada é fundamental. Assim como tirar tempo dedicado a brincar e interagir com a criança, mantendo o foco realmente dedicado a esses momentos juntos”, reitera Roberta.

E como pais auxiliam as crianças no processo construtivo do brincar? Tirando um tempo dedicado para a ação, sem outros elementos interrompendo a interação entre eles, como celular ou TV. “E da mesma forma, é importante também que estimulem os momentos de brincadeira sem o envolvimento de um adulto. É importante que a criança descubra o prazer de algumas vezes brincar sozinha, com um adulto por perto. Sem dúvida alguma, o maior desafio dos pais nos tempos atuais é garantir que os filhos brinquem no mundo real, sem a interferência de telas. Só encontrando esse equilíbrio vamos poder garantir um desenvolvimento saudável para nossas crianças, finaliza Roberta.

Raquel Luzardo, fonoaudióloga especialista em linguagem e desenvolvimento infantil.

Roberta Bento, psicopedagoga e fundadora da SOS Educação

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