Abril Laranja: “Usei um Vestido de Noiva Adaptado e Entrei na Cerimônia de Cadeira de Rodas”

Acidente de trânsito é uma das principais causas de amputações no Brasil, como o caso da enfermeira Bianca Carvalho, que sofreu um acidente e teve parte da perna amputada um mês antes de sua cerimônia de casamento.

A enfermeira obstétrica Bianca Carvalho, juntamente com seu esposo e seus três filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Campanha nacional de prevenção e riscos de amputação está sendo realizada este mês pela Associação Brasileira de Ortopedia Técnica (ABOTEC)

Toda noiva sonha com a chegada do grande dia e são vários os caminhos a serem percorridos até a chegada no altar, como a escolha pelo local da cerimônia, buffet, repertório musical, decoração,  viagem de lua de mel e o tão sonhado vestido. Para a enfermeira obstetra Bianca Carvalho, esse dia foi bem diferente.

Um mês antes da cerimônia de casamento, ela sofreu um acidente de moto e foi marcada pela cena de ver seu pé esquerdo com  fratura exposta e o braço pendurado, sem nenhum movimento. Acidentes de trânsito estão entre as causas de amputação no Brasil, sendo cerca de 70% dos casos, em decorrência do diabetes, segundo o Ministério da Saúde.

Bianca, que estava há um passo do altar e a um ano de se formar em enfermagem, mesmo diante da situação vivida resolveu prosseguir com os planos

“Fiz adaptações no meu vestido de noiva por causa da calda, entrei de cadeira de rodas e como não deu para colocar a rampa, meu esposo me buscou na metade do caminho e me levou em seus braços”, ressalta.

A cena marcante era apenas o início de uma nova (re) adaptação, que se estendia à nova casa e também à sua profissão. A enfermeira relata que para sua mãe, o fato de ter que passar por todo esse processo desde o acidente até a amputação, ainda é algo muito doloroso e que gera sentimento de culpa, já que foi ela a responsável por assinar o termo de conscientização da amputação, mas Bianca diz com alegria: “Eu sempre falo para minha mãe que ela me deu a vida de volta”.

Uma nova jornada de adaptação também estava por vir, a maternidade. Grávida de gêmeos, a enfermeira acredita em todo o poder do corpo que segundo ela, foi feito para gerar, parir e cuidar e então fez de tudo para ter uma gravidez tranquila: 

“Tive uma mudança corporal com o acidente e com a gravidez, onde meu corpo teve que aprender. Quando meus filhos nasceram e meu esposo precisava sair para trabalhar, minha mãe ajudava quando podia, mas eu não queria que as pessoas fizessem o meu trabalho de mãe. Meu corpo precisava passar por esse processo para eu entender que era capaz’’, compartilha.

Para isso, Bianca conta que no início fazia tudo no chão, pois tinha muito receio de deixá-los cair. Ela considera que o desenvolvimento de sua autonomia foi importante, inclusive para cuidar da próxima filha, que nasceu pouco mais de um ano depois dos gêmeos.

Contudo, após a segunda gestação, a enfermeira sentia um certo desconforto na amputação realizada, já que o coto era curto e não lhe proporcionava a estabilidade necessária. Vaidosa e acostumada a usar saltos durante os plantões hospitalares, Bianca realizou uma nova amputação três anos depois do acidente, a fim de melhorar sua qualidade de vida.

A perna amputada ganhou o nome de ‘Totoca’ e a prótese de ‘Preciosa’, nomes dados carinhosamente pelos filhos, que se divertem com a mãe em cada customização feita na prótese.

“Sou bem ousada, uso próteses coloridas, pinto com spray. Tento trazer essa naturalidade para os meus filhos. Até achei que, quando chegasse na fase escolar sentiriam alguma vergonha, mas me surpreendi. Até os coleguinhas se divertem e me chamam de ‘Tia do homem de ferro’ “, brinca a enfermeira.

Terapia de Customização de Próteses

Hoje enfermeira obstetra, com consultório próprio, influenciadora e embaixadora de uma grande marca fabricante de componentes para prótese,  Bianca também criou a Terapia de Customização de Próteses. 

A terapia é um trabalho que tem como objetivo resgatar a feminilidade e autoestima de mulheres que foram amputadas e utiliza nas próteses a criatividade com o uso  de adereços como strass, meias coloridas e spray em busca de uma mudança de aceitação. “A mulher precisa se olhar no espelho e se identificar com a prótese. Trabalhar a sua sexualidade, se sentir feminina, desejável, se amar”, pontua.

Para a enfermeira, sua história de vida se conecta com as de seus pacientes e considera que através da Terapia de Customização de Próteses as mulheres passam a olhar mais para si e ressalta: “As pessoas amputadas precisam reconhecer a prótese como parte do corpo e não como uma perda do membro”.

A história de Bianca Carvalho faz parte do retrato de outras 500 mil pessoas amputadas no Brasil, conforme dados da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação (ABMFR). Para conscientizar as pessoas sobre a prevenção e riscos de amputação, a Associação Brasileira de Ortopedia Técnica (ABOTEC), tem realizado durante todo este mês a terceira edição da campanha Abril Laranja. Além de lives com temáticas sobre o assunto e vídeos com depoimentos, serão doadas próteses por parte das empresas e clínicas ortopédicas participantes da campanha.  

Fonte: A Associação Brasileira de Ortopedia Técnica (ABOTEC) é uma entidade sem fins lucrativos, que tem como principal objetivo o desenvolvimento técnico – científico da ortopedia técnica do Brasil.

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