Como o Uso das Telas está Interferindo no Desenvolvimento das Crianças

Precisamos falar com urgência da forma como a tecnologia está moldando o comportamento

Não dá para negar que a tecnologia faz parte da nossa vida – e é um fato que muitos de nós desenvolvemos uma séria dependência da internet e das telas, principalmente do celular. Aliás, com uma presença tão unânime no nosso dia a dia, é de se esperar que esses aparelhos também passem a fazer parte da rotina das crianças, certo?

No entanto, é preciso cuidado redobrado quando o assunto é o uso de telas pelos pequenos. Isso porque esses hábitos têm muito mais malefícios do que benefícios e podem desencadear uma série de questões mais a frente na vida.

“Aplicativos e jogos com aspecto inocente muitas vezes são extremamente associados a geração de ansiedade, violência, depressão, transtorno de sono, de alimentação, irritabilidade e vício/adição”, explica o Dr. Paulo Telles, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). “As redes sociais aumentam a incidência de bullying, distorção de imagem, sexualização precoce, comportamentos auto lesivos, indução e riscos de suicídio. Sem falar de problemas visuais, auditivos e posturais.”

E tem mais: é importante considerarmos os marcos de desenvolvimento que estão sendo afetados pelo uso desenfreado das telinhas. Durante o primeiro ano de vida, as sinapses do cérebro de uma criança aumentam em mais de 10 vezes. Por volta dos 2, 3 anos, essa mesma criança terá 15 mil sinapses por neurônio e, nos primeiros 3 anos de vida, o seu cérebro vai crescer e se desenvolver tanto que o tamanho aumenta em 3 vezes.

“Por que isso é importante? Porque a criança precisa de experiências ambientais, emocionais, afetivas, de relação interpessoal, socialização e interação, para refinar seus circuitos, construir ligações e fortalecer as mais adequadas e necessárias”, explica o médico. “Uma criança que faz música, desenha, faz esportes, explora o espaço ao ar livre, recebe afeto, troca olhares, recebe atenção de seus pais e familiares, têm mais conexões neuronais, mais desenvolvimento cerebral e constrói uma arquitetura neurológica mais forte.”

Por outro lado, uma criança que fica sentada em frente às telas, jogando games, assistindo vídeos no YouTube ou no TikTok, terá essas células e conexões como prioritárias, e elas vão sobreviver em detrimento das outras, essenciais para o convívio social saudável e para o desenvolvimento da inteligência.

“Não existe benefício neurológico nenhum no uso das telas quando comparamos com a vida real, não se iluda ou se engane com nomes bonitos ou músicas agradáveis, as telas são ‘lobos com pele de cordeiro'”, alerta o médico.

Como saber que as crianças estão dependentes das telas?

A própria SBP recomenda que o uso de telas fique limitado a uma hora por dia para crianças com idade entre 2 e 5 anos, e duas horas, como limite máximo, para crianças de 6 a 10 anos. Para recém-nascidos e bebês até dois anos, o ideal é que não haja uso de telas. Para os adolescentes, o máximo recomendado é de 3 horas diárias, incluindo para o uso de videogames, até os 18 anos.

Ainda assim, é fácil perceber que na prática não funciona dessa maneira, por isso, vale a pena ficar de olho nos sinais de vício:

1.A criança não consegue controlar o seu tempo na frente das telas

2.A criança não se interessa por outras atividades longe das telas e a única coisa que a motiva é o uso dos devices

3.Os vídeos, videogames e apps de celular ocupam a mente da criança o tempo inteiro (por exemplo, ela não para de falar sobre jogos ou apps, mesmo longe do celular)

4.O uso de telas está interferindo na socialização da criança: ela não consegue ficar longe do celular durante o jantar, espia as telas quando está na sala com a família etc.

5.A criança demonstra sinais de abstinência, ou seja, ela fica irritada, nervosa ou ansiosa com a possibilidade de desligar os aparelhos e fazer outra coisa.

Autoria: Dr. Paulo Nardy TellesCRM 109556 @paulotelles

  • Formado pela Faculdade de medicina do ABC
  • Residência médica em pediatra e neonatologia pela Faculdade de medicina da USP
  • Preceptoria em Neonatologia pelo hospital Universitário da USP
  • Título de Especialista em Pediatria pela SBP
  • Título de Especialista em Neonatologia pela SBP
  • Atuou como Pediatra e Neonatologista no hospital israelita Albert Einstein 2008-2012
  • 18 anos atuando em sua clínica particular de pediatria, puericultura.

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