Lipedema Não é Falta de Dieta.

Lipedema não é falta de dieta. É uma doença que ainda demora para ser reconhecida

Especialista explica por que a alimentação faz parte do tratamento, mas não é a causa nem a solução isolada da doença

Dietas restritivas, exercícios intensos e inúmeras tentativas de emagrecer pernas ou braços fazem parte da rotina de muitas mulheres. Quando os resultados não aparecem, a conclusão costuma ser a mesma: faltou disciplina. Em muitos casos, porém, o problema nunca foi falta de esforço, mas um diagnóstico que demorou para chegar

O lipedema é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nos membros inferiores e, em alguns casos, também nos braços. Dor, sensibilidade, inchaço, sensação de peso e facilidade para o surgimento de hematomas estão entre os sintomas mais frequentes. Apesar de atingir milhões de mulheres, a doença ainda é frequentemente confundida com obesidade, o que atrasa o diagnóstico e o início do tratamento.

A influência hormonal é considerada um dos principais fatores envolvidos na doença. Estudos indicam que alterações na sinalização do estrogênio podem contribuir para o desenvolvimento e a progressão da doença, o que ajuda a explicar por que os sintomas frequentemente aparecem ou se intensificam durante a puberdade, a gravidez e a menopausa.

O Consenso Brasileiro sobre Lipedema, publicado em 2025, reforça que a doença continua sendo subdiagnosticada e exige uma abordagem multidisciplinar. O documento também estima que cerca de 12,3% das mulheres brasileiras apresentem sinais compatíveis com a condição.

Além das manifestações físicas, o impacto emocional também merece atenção. Estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Global Women’s Health identificou que 50,9% das mulheres avaliadas apresentavam sintomas depressivos moderados ou graves, reforçando que o diagnóstico tardio pode comprometer significativamente a qualidade de vida.

Para Flávia Lucena, nutricionista, psicóloga e especialista em comportamento alimentar, uma das consequências mais profundas do lipedema é fazer com que muitas mulheres passem anos acreditando que fracassaram, quando, na realidade, conviviam com uma doença ainda pouco reconhecida.

“Grande parte das mulheres chega ao consultório acreditando que falhou. Elas fizeram dietas, mudaram hábitos, aumentaram a atividade física e, ainda assim, não conseguiram o resultado esperado. Quando finalmente recebem o diagnóstico, percebem que passaram muito tempo tentando resolver uma doença como se fosse falta de força de vontade.”

Segundo a especialista, a alimentação tem papel importante no tratamento, mas não deve ser encarada apenas como uma estratégia para perder peso. O plano alimentar é individualizado e busca controlar processos inflamatórios, preservar a massa muscular, aliviar sintomas e favorecer a saúde metabólica. Mais do que isso, ajuda a paciente a construir uma relação mais equilibrada com a comida e com o próprio corpo

“Não existe uma dieta capaz de eliminar o lipedema. O tratamento começa quando a paciente entende que cuidar da alimentação é diferente de tentar corrigir um corpo que responde de forma diferente. A comida deixa de ser uma punição e passa a ser uma ferramenta de cuidado.”

Flávia explica que essa mudança de perspectiva também transforma a relação com a alimentação. “Quando a mulher deixa de acreditar que seu corpo é resultado de falta de disciplina, ela consegue fazer escolhas mais conscientes e sustentáveis. Comer deixa de ser uma tentativa permanente de corrigir o próprio corpo e passa a integrar um tratamento que considera sua saúde física, emocional e comportamental.”

O tratamento envolve acompanhamento multiprofissional e pode incluir médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, educadores físicos, terapia compressiva, suporte psicológico e, em alguns casos, cirurgia. Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de controlar a progressão da doença, preservar a mobilidade e proporcionar melhor qualidade de vida.

Fonte: Flávia Lucena é nutricionista e psicóloga, especialista em comportamento alimentar e criadora do Método Nutrição com Acolhimento®. Sua abordagem integra nutrição clínica funcional, psicologia comportamental e escuta aprofundada da relação das pessoas com a alimentação, promovendo uma visão que considera não apenas aspectos físicos, mas também emocionais, sociais e comportamentais do ato de comer

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