Medicina Fetal salva Bebê ainda no Útero da Mãe

Medicina fetal salva bebê ainda no útero da mãe: cirurgia permitiu continuidade da gestação

Medicina fetal salva bebê ainda no útero da mãe: cirurgia realizada no Hospital Sepaco permitiu continuidade da gestação

Em uma gestação gemelar com placenta compartilhada, um dos bebês corria risco de morte devido à síndrome da transfusão feto-fetal

Os gêmeos Davi e Samuel ainda estavam na barriga da mãe quando a dona de casa Cristiane Loureiro Lemos recebeu uma notícia que mudou completamente os rumos da gestação. Durante o acompanhamento pré-natal, foi identificado que um dos bebês estava transferindo sangue para o irmão por meio de vasos sanguíneos compartilhados na placenta, situação que colocava ambos em risco, especialmente o feto doador.

O diagnóstico foi de síndrome da transfusão feto-fetal, uma complicação que acomete aproximadamente 9% a 15% das gestações gemelares monocoriônicas, como são chamadas aquelas em que os bebês compartilham a mesma placenta. Sem tratamento, a condição pode levar à perda de um ou dos dois fetos e aumentar significativamente o risco de complicações graves.

Moradora de Presidente Prudente, Cristiane foi encaminhada ao Hospital e Maternidade Sepaco, na capital paulista, onde passou por uma cirurgia fetal de urgência em junho do ano passado. O procedimento permitiu a continuidade da gestação e, hoje, a família se prepara para comemorar o primeiro aniversário dos meninos.

Com 19 semanas de gestação, Cristiane foi submetida a uma cirurgia intrauterina realizada por equipe especializada em medicina fetal. Por meio de uma pequena incisão no abdômen materno, os médicos introduziram um fetoscópio — equipamento dotado de câmera e instrumentos cirúrgicos — guiado por ultrassonografia até o interior do útero.

Durante o procedimento, foram identificados os vasos sanguíneos responsáveis pela comunicação anormal entre os bebês. Cada uma dessas conexões foi cauterizada com laser, interrompendo a transferência desequilibrada de sangue e restabelecendo o equilíbrio do fluxo sanguíneo e do líquido amniótico entre os irmãos.

A cirurgia foi bem-sucedida e possibilitou a evolução segura da gestação até o nascimento de Davi e Samuel, em outubro.

“Eu e meu marido ficamos muito preocupados porque um dos bebês já estava com pouco líquido e corria risco de evoluir para óbito. Recebemos todas as explicações sobre os riscos e benefícios do procedimento. Tudo aconteceu muito rápido e deu certo. Em três dias eu já estava de alta”, relembra Cristiane.

Hoje, os irmãos apresentam desenvolvimento adequado e seguem acompanhados pela equipe médica.

De acordo com a Dra. Mariana Azevedo, coordenadora de Medicina Fetal do Hospital e Maternidade Sepaco, o reconhecimento precoce da síndrome é fundamental para que o tratamento seja realizado no momento adequado.

“Os casos precisam ser identificados precocemente por meio de ultrassonografias seriadas. Quando observamos sinais de desequilíbrio entre os fetos, é possível indicar intervenções capazes de modificar significativamente o prognóstico da gestação”, explica.

Segundo a especialista, embora a maioria das gestações gemelares monocoriônicas evolua sem necessidade de cirurgia fetal, existem situações em que a intervenção intrauterina é decisiva.

“A maior parte dessas gestantes não precisará de tratamento cirúrgico. Entretanto, há situações específicas em que a intervenção é essencial para aumentar as chances de sobrevivência e de bom desfecho para ambos os fetos”, afirma.

Além do tratamento da síndrome da transfusão feto-fetal, a medicina fetal permite a realização de outros procedimentos ainda durante a gestação, como transfusões intrauterinas para tratamento de anemias fetais graves, derivações vesicoamnióticas –  utilizadas para drenagem da urina da bexiga fetal para o líquido amniótico em casos de obstrução urinária – e procedimentos mais complexos, como cirurgia fetal para ajudar no desenvolvimento dos pulmões de bebês com uma malformação grave que impede o crescimento pulmonar de maneira adequada.

“A indicação desses procedimentos é sempre criteriosa e baseada em evidências científicas. Quando ainda não existe benefício comprovado por estudos robustos, a realização deve ocorrer exclusivamente dentro de protocolos de pesquisa”, ressalta Mariana.

Além da experiência da equipe médica, a realização de cirurgias fetais exige estrutura hospitalar altamente especializada, capaz de oferecer assistência integrada à gestante e ao bebê antes, durante e após o procedimento.

“Estamos falando de um cuidado que envolve simultaneamente mãe e filho. Toda intervenção intrauterina passa necessariamente pelo organismo materno, tornando indispensável uma assistência segura e multidisciplinar. O acompanhamento precisa ser contínuo, desde o pré-natal até o pós-parto”, destaca.

A especialista ressalta ainda que a indicação adequada é um dos pilares da medicina fetal moderna.

“Nem todos os casos devem ser operados. É fundamental indicar a cirurgia apenas quando há benefício real para o feto e para a gestante. A decisão final sempre cabe à paciente, após receber todas as informações sobre riscos, benefícios e alternativas terapêuticas”, afirma.

Fonte: Dra. Mariana Azevedo, coordenadora de Medicina Fetal do Hospital e Maternidade Sepaco – Hospital e Maternidade Sepaco tem na medicina fetal uma de suas áreas de referência. O serviço oferece atendimento especializado para gestantes e fetos com condições que exigem investigação diagnóstica avançada, monitoramento contínuo e, quando necessário, intervenções ainda durante a gestação.

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