Meu filho não para: estamos diante de TDAH ou de uma infância hiperconectada?

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Enquanto revisão internacional aponta crescimento dos diagnósticos de TDAH, nova pesquisa mostra que quase 80% dos adolescentes brasileiros passam mais de três horas por dia online
Uma criança inquieta, distraída, impulsiva ou que parece incapaz de ficar longe de estímulos pode estar apresentando sinais de TDAH. Mas também pode estar cansada, dormindo mal, sobrecarregada ou inserida em uma rotina marcada pelo excesso de estímulos digitais. Diferenciar essas situações é um dos desafios para famílias e profissionais.
O debate ganhou força nas últimas semanas. Uma revisão publicada no Journal of Psychopharmacology apontou crescimento global nos diagnósticos e nas prescrições relacionadas ao TDAH, destacando que o aumento não significa necessariamente que mais pessoas estejam desenvolvendo o transtorno, mas também pode refletir maior reconhecimento de casos que antes não eram identificados. O trabalho também chama atenção para o uso não médico de estimulantes por pessoas sem TDAH.
Ao mesmo tempo, a pesquisa “Adolescência Sem Filtro”, divulgada pelo Instituto Alana em agosto, mostrou que quase 80% dos adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos ficam mais de três horas por dia conectados e que 15% ultrapassam oito horas diárias. Cerca de 40% relatam preocupação com dependência de celular e internet, além de impactos sobre sono e estudos.
Para a psiquiatra Fabricia Signorelli, o contexto é fundamental. “Não podemos transformar qualquer comportamento infantil em diagnóstico. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento e precisa ser avaliado considerando a persistência dos sintomas, os prejuízos provocados e a manifestação em diferentes ambientes”, explica.
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan acrescenta que atenção e autorregulação também podem ser afetadas por fatores cotidianos. “Uma criança que dorme mal, está sobrecarregada, passa muitas horas diante de estímulos digitais ou enfrenta uma rotina pouco estruturada pode apresentar dificuldades de atenção e comportamento. Isso não significa automaticamente TDAH”, afirma.
A questão também funciona no sentido contrário: crianças com TDAH podem não apresentar necessariamente a imagem estereotipada da criança que “não para”. “Nem toda criança com TDAH é hiperativa. Algumas apresentam principalmente dificuldades de atenção, organização, planejamento e funções executivas”, explica Thaís.
TDAH ou dificuldade pontual? O que observar
Segundo as especialistas, alguns pontos ajudam a entender a situação:
- os comportamentos são persistentes?
- aparecem em mais de um ambiente?
- provocam prejuízo na escola, em casa ou nas relações?
- existem dificuldades importantes de organização e planejamento?
- a criança dorme adequadamente?
- existe excesso de estímulos ou uma rotina muito desorganizada?
- os comportamentos começaram recentemente ou são observados há bastante tempo?
A orientação é não utilizar testes de internet, vídeos ou listas de sintomas como ferramentas diagnósticas. “O aumento da informação é positivo, mas também exige mais responsabilidade. Identificar um comportamento é diferente de diagnosticar um transtorno”, conclui Fabricia.
Fonte: Psiquiatra Fabricia Signorelli – Psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan

