Novembro Roxo: 300 mil Bebês nascem Prematuros por ano no Brasil

Campanha de conscientização sobre a prematuridade destaca a importância do acompanhamento infantil, da amamentação e da prevenção de infecções; especialistas explicam como garantir um desenvolvimento saudável

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Nascer antes da hora significa começar a vida enfrentando desafios para os quais o organismo ainda pode não estar completamente preparado. No Brasil, aproximadamente 300 mil bebês nasceram prematuramente em 2023, o equivalente a cerca de 12% dos nascidos vivos, segundo dados divulgados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O número reforça a importância do Novembro Roxo, campanha de conscientização sobre a prematuridade, que tem como marco o Dia Mundial da Prematuridade, celebrado em 17 de novembro.

Considera-se prematuro o bebê que nasce antes de completar 37 semanas de gestação. Dependendo da idade gestacional e das condições de saúde, a criança pode precisar de internação neonatal, suporte respiratório e cuidados especiais com a alimentação. Entretanto, os desafios não terminam necessariamente quando chega o momento de voltar para casa. O acompanhamento do crescimento, do desenvolvimento neurológico e da saúde respiratória pode continuar durante os primeiros anos de vida.

Para as pediatras Dra. Renata Castro e Dra. Ana Carolina Viegas, a principal mensagem da campanha é que cada bebê prematuro apresenta necessidades específicas e precisa de acompanhamento individualizado. As especialistas também destacam a importância de acolher as famílias, que frequentemente enfrentam medo e insegurança durante a internação e após a alta hospitalar.

O nascimento prematuro pode ser evitado?

O parto antes das 37 semanas pode estar associado a fatores como gestação múltipla, infecções, hipertensão materna, alterações no colo do útero e outras complicações obstétricas. Entretanto, nem sempre é possível identificar uma causa específica, e mesmo gestantes que realizam o pré-natal adequadamente podem apresentar um parto prematuro.

Segundo a pediatra Renata Castro, o acompanhamento durante a gravidez é fundamental para identificar fatores de risco e oferecer assistência adequada, mas a discussão sobre prevenção não deve gerar sentimentos de culpa nas mães.

“Precisamos falar sobre prevenção sem responsabilizar as mães. Existem situações em que o parto acontece antes do previsto, mesmo com todos os cuidados durante a gestação. O acesso ao pré-natal, a identificação de fatores de risco e a assistência adequada ao nascimento são fundamentais para oferecer melhores condições ao bebê”, ressalta Renata.

Por que o acompanhamento precisa continuar após a alta?

A saída da maternidade representa uma conquista importante, mas não significa que todos os cuidados especiais tenham terminado. Alguns bebês prematuros precisam de acompanhamento nutricional, respiratório e neurológico, além de avaliações frequentes do crescimento e do desenvolvimento.

“Cada bebê prematuro tem uma trajetória diferente. Alguns precisam de internações prolongadas, enquanto outros apresentam uma evolução mais rápida. O importante é compreender que o nascimento antecipado exige um olhar individualizado, porque órgãos e sistemas ainda podem estar em desenvolvimento. O acompanhamento pediátrico permite identificar necessidades específicas e orientar a família em cada etapa”, explica Renata Castro.

Ana Carolina Viegas reforça que a atenção também deve considerar o contexto familiar, especialmente quando os pais passaram por uma internação neonatal prolongada.

“O nascimento prematuro exige um olhar cuidadoso não apenas para o bebê, mas também para a família. Muitas mães e pais passam por momentos de insegurança durante a internação e, mesmo depois da alta, podem sentir medo de não conseguir identificar as necessidades da criança. O acompanhamento pediátrico é essencial para orientar esses cuidados e acompanhar o desenvolvimento de forma segura”, afirma.

Prematuros demoram mais para sentar, engatinhar e andar?

Uma das principais dúvidas das famílias envolve os marcos do desenvolvimento infantil. Bebês prematuros podem alcançar determinadas habilidades em momentos diferentes daqueles que nasceram a termo, por isso os pediatras utilizam a chamada idade corrigida, calculada considerando quantas semanas faltaram para completar as 40 semanas de gestação.

Essa referência é especialmente importante nos primeiros dois anos de vida, ajudando a evitar comparações inadequadas e a identificar possíveis dificuldades que necessitem de intervenção precoce.

“Um bebê que nasceu dois meses antes do previsto não deve ser comparado automaticamente com outro da mesma idade cronológica. A idade corrigida ajuda a interpretar etapas do desenvolvimento, como sustentar a cabeça, sentar e engatinhar. Isso não significa ignorar atrasos, mas acompanhar cada conquista de maneira adequada e identificar precocemente quando é necessário algum estímulo ou intervenção”, esclarece Renata.

Ana Carolina também destaca que o desenvolvimento deve ser acompanhado de maneira individualizada, respeitando o ritmo da criança sem deixar de investigar alterações.

“Um bebê que nasceu dois meses antes do previsto não deve ser comparado diretamente a outro que nasceu com 40 semanas. A idade corrigida permite compreender melhor o ritmo de desenvolvimento e evita cobranças desnecessárias. Ao mesmo tempo, precisamos acompanhar cada conquista e identificar precocemente possíveis dificuldades”, ressalta.

Amamentação e prevenção de infecções exigem atenção especial

O leite materno desempenha um papel importante na nutrição e na proteção contra infecções, especialmente entre os prematuros. Entretanto, alguns bebês podem apresentar dificuldades iniciais para sugar, engolir e coordenar a respiração durante a alimentação, necessitando de orientação especializada e estratégias adaptadas às suas condições clínicas.

Outro cuidado importante envolve a prevenção de infecções respiratórias. A imaturidade pulmonar e imunológica pode aumentar a vulnerabilidade de alguns prematuros, especialmente daqueles que nasceram muito cedo ou precisaram de suporte respiratório. Higienizar as mãos, evitar contato com pessoas doentes e manter a vacinação em dia são medidas fundamentais.

“Os prematuros podem apresentar maior risco de complicações respiratórias, principalmente aqueles que nasceram muito cedo ou precisaram de suporte pulmonar. Por isso, é importante manter o calendário vacinal atualizado, avaliar as medidas de prevenção indicadas para cada criança e orientar os familiares sobre os sinais de alerta”, destaca Ana Carolina Viegas.

A saúde emocional dos pais também precisa de cuidado

A chegada antecipada de um filho pode transformar completamente as expectativas da família. A internação neonatal, os aparelhos hospitalares e a necessidade de cuidados especializados frequentemente despertam sentimentos de medo, ansiedade e insegurança, que podem continuar mesmo depois da alta.

Entre as estratégias de atenção humanizada está o Método Canguru, que valoriza o contato pele a pele, quando clinicamente possível, e a participação dos responsáveis nos cuidados. O vínculo afetivo, o acolhimento e o acesso a informações claras ajudam a fortalecer a confiança da família durante esse processo.

“O nascimento prematuro pode mudar completamente as expectativas da família. Muitos pais chegam em casa inseguros, com medo de segurar, alimentar ou até deixar o bebê dormir. Nosso papel é oferecer informações claras, acompanhar o desenvolvimento e mostrar que, com os cuidados necessários, muitas crianças prematuras conseguem crescer de maneira saudável. A família também precisa se sentir amparada”, explica Renata Castro.

Para Ana Carolina, é importante que o cuidado com o prematuro não seja baseado apenas no medo de possíveis complicações, mas também na valorização de cada etapa do desenvolvimento.

“Muitas famílias saem da maternidade com a sensação de que precisam proteger o bebê de tudo. É compreensível, mas nosso papel também é ajudá-las a ganhar confiança. O prematuro precisa de atenção e acompanhamento, mas também de afeto, estímulos adequados e oportunidades de desenvolvimento. Cuidar da saúde emocional dos pais faz parte desse processo”, orienta.

As especialistas reforçam que a prematuridade não determina, isoladamente, o futuro de uma criança. Com assistência adequada, identificação precoce de possíveis dificuldades e apoio familiar, muitos bebês prematuros conseguem crescer e se desenvolver de maneira saudável.

“O Novembro Roxo não deve ser apenas um momento de falar sobre os riscos do nascimento antecipado. É também uma oportunidade de valorizar cada conquista desses bebês, apoiar as famílias e reforçar a importância do cuidado contínuo. O objetivo é oferecer condições para que cada criança desenvolva seu potencial, respeitando suas necessidades e seu próprio tempo”, conclui Ana Carolina Viegas.

Fontes:

Dra. Renata Castro é médica pediatra com atuação voltada ao acompanhamento integral da saúde infantil, com foco em prevenção, orientação familiar e desenvolvimento saudável. Também produz conteúdo educativo para pais e responsáveis, abordando os cuidados com crianças nas diferentes fases da infância.

Dra. Ana Carolina Viegas é médica pediatra, com atuação no acompanhamento da saúde infantil, na orientação às famílias e na promoção do crescimento e do desenvolvimento saudável de crianças.

Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — Novembro Roxo 2026: acompanhamento pós-alta protege o futuro de bebês prematuros.

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