Especialista da Inspirali esclarece dúvidas sobre o tema

Um material que normalmente seria descartado após o nascimento pode se tornar uma fonte valiosa para tratamentos de saúde. O sangue do cordão umbilical contém células semelhantes às encontradas na medula óssea e pode ser utilizado em transplantes para tratar mais de 80 doenças, incluindo leucemias, anemias e outras doenças do sangue.
“O sangue que permanece no cordão umbilical e na placenta, após o nascimento de um bebê, pode representar uma oportunidade terapêutica para outra pessoa”, conta o ginecologista e obstetra Rodrigo Dias Nunes, diretor de Projetos Acadêmicos da Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil.
No país, existem bancos de sangue de cordão umbilical tanto público quanto privado, mas é importante que a gestante saiba as diferenças. A doação pública é voluntária, não interfere na assistência ao parto e pode permitir que células-tronco hematopoéticas sejam utilizadas no tratamento de pacientes que precisam de um transplante. “A decisão deve ser tomada com informação adequada, sem a ideia de que o armazenamento privado representa necessariamente uma garantia biológica para o futuro do filho”, explica Nunes.
Em homenagem ao Dia Nacional da Doação do Cordão Umbilical, celebrado em 8 de outubro, o especialista responde às principais dúvidas da população sobre o tema, confira:
- O que é retirado do cordão umbilical e por que ele pode ser utilizado em tratamentos médicos?
R: O que é coletado é o sangue que permanece no cordão umbilical e na placenta após o nascimento, e não o cordão propriamente dito. Esse sangue é rico em células-tronco hematopoéticas, células capazes de dar origem às diferentes células do sangue. Essas células podem ser utilizadas em transplantes para reconstruir a produção normal de células sanguíneas e do sistema imunológico de pacientes com determinadas doenças graves, funcionando de maneira semelhante às células obtidas da medula óssea ou do sangue periférico.
- Para quais doenças e condições de saúde elas podem ser utilizadas?
R: O sangue de cordão é utilizado principalmente em transplantes de células-tronco hematopoéticas para doenças hematológicas, especialmente algumas leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicas, aplasias e doenças hereditárias do sangue e do sistema imunológico. A indicação depende da doença, idade e peso do paciente, do estágio da doença, do número de células disponível e, principalmente, da compatibilidade entre doador e receptor. Portanto, não é um tratamento universal para qualquer doença.
- Como funciona a doação do cordão umbilical após o nascimento? A coleta oferece algum risco para a mãe ou para o bebê?
R: A coleta ocorre depois do nascimento do bebê e após o clampeamento do cordão umbilical. Uma equipe treinada coleta o sangue que permanece no cordão e na placenta, por meio de um sistema próprio. Como a coleta acontece após o nascimento e não interfere no bebê, não representa risco adicional relevante para a mãe ou para o recém-nascido. O procedimento também não modifica a assistência obstétrica ou neonatal necessária. É importante diferenciar a doação pública da coleta para armazenamento privado: na doação pública, a finalidade é disponibilizar as células para pacientes que necessitem de transplante e sejam compatíveis.
- Existe algum custo para a família que realiza a doação?
R: Na doação pública, não. A doação é voluntária e os custos relacionados à coleta, processamento, armazenamento e disponibilização da unidade são assumidos pelo sistema público. Já no armazenamento em bancos privados, a família contrata o serviço e paga pelos procedimentos de coleta, processamento e armazenamento, conforme o contrato estabelecido com a empresa.
- Como o material coletado é armazenado, testado e disponibilizado para um eventual transplante?
R: Após a coleta, a unidade passa por uma série de etapas de identificação, testes laboratoriais, avaliação da quantidade e qualidade das células, processamento e criopreservação em temperaturas extremamente baixas. Também são realizados exames para identificar características do material e investigar agentes infecciosos, além da tipagem de HLA, que é fundamental para avaliar a compatibilidade com um possível receptor. Quando uma unidade pública é selecionada para um paciente compatível, ela é disponibilizada para o serviço transplantador seguindo protocolos específicos de controle, transporte e rastreabilidade. A regulamentação sanitária brasileira estabelece requisitos para todas essas etapas.
- Existem condições de saúde da mãe ou do bebê que impeçam a doação?
R: Sim. Existem critérios técnicos destinados principalmente a proteger o futuro receptor. Entre as situações que podem impedir ou desqualificar a doação estão algumas infecções maternas ou do recém-nascido, determinadas doenças maternas, alterações congênitas ou situações obstétricas que comprometam a segurança ou a qualidade da unidade coletada. Também existem critérios relacionados ao risco de doenças hereditárias do sistema hematopoiético. Os critérios podem ser atualizados conforme as normas sanitárias vigentes e são avaliados pelo banco responsável pela coleta.
- Quem pode receber a doação?
R: Nas unidades de bancos públicos, o receptor pode ser qualquer paciente que necessite de transplante e para quem seja identificada uma unidade compatível, independentemente de ser parente do doador. Essa é justamente uma das grandes vantagens do modelo público: uma família doa, mas não fica proprietária daquela unidade. Ela passa a integrar um banco de células disponível para pacientes que necessitem de transplante. Em situações específicas de uso aparentado, uma unidade pode ser coletada e armazenada para um familiar que tenha indicação médica formal.
- Como é feita a identificação e a compatibilidade entre o material doado e o paciente?
R: O principal parâmetro é a tipagem HLA — antígenos leucocitários humanos. É uma espécie de “identidade imunológica” que permite avaliar o grau de compatibilidade entre o doador e o receptor. Quando um paciente precisa de transplante, os registros procuram unidades que apresentem compatibilidade adequada, considerando também fatores como número de células disponíveis, peso e características clínicas do paciente e a doença que será tratada. Por isso, quanto maior e mais geneticamente diversificado for o banco, maior é a possibilidade de encontrar uma unidade adequada para diferentes pacientes. A diversidade genética da população brasileira é, portanto, um aspecto particularmente importante para a BrasilCord.
- Como funciona a rede de bancos públicos no Brasil? Qual a diferença para os bancos privados?
R: A BrasilCord é a rede pública de bancos de sangue de cordão umbilical e placentário. As unidades são provenientes de doações voluntárias e podem ser disponibilizadas para pacientes compatíveis. Nos bancos privados, a família contrata o serviço para manter as células armazenadas para eventual utilização pelo próprio indivíduo ou por familiares. Existe uma diferença conceitual importante: o armazenamento privado não significa garantia de que aquela unidade será utilizada no futuro. A utilização depende da indicação clínica e das características da doença. Além disso, o uso autólogo é bastante limitado em algumas doenças, especialmente porque as próprias células podem carregar alterações genéticas relacionadas à doença que posteriormente se manifesta. A Anvisa destaca que o uso autólogo é particularmente inadequado, por exemplo, em determinadas leucemias.
- Quais são hoje os principais desafios para ampliar a doação de sangue de cordão no Brasil?
R: Hoje existe um cenário bastante diferente daquele observado quando a BrasilCord foi criada. Um dos desafios é manter uma estrutura de armazenamento de alto custo para um material cuja utilização em transplantes diminuiu nos últimos anos. Segundo o relatório mais recente da Anvisa, referente a 2024, os bancos públicos não realizaram naquele ano novas coletas para uso terapêutico não aparentado, e foram utilizadas sete unidades em transplantes — duas para tratamentos terapêuticos reconhecidos e cinco em pesquisa clínica. Em janeiro de 2025, INCA e Ministério da Saúde definiram uma diretriz de não abertura de novas unidades e não ampliação do acervo atual, enquanto avaliam o redimensionamento e a possível centralização do acervo no banco do INCA. Portanto, o desafio atual não é simplesmente “coletar mais”, mas encontrar o equilíbrio entre diversidade genética, qualidade das unidades, necessidade real de transplantes, custos de manutenção e eficiência da rede.
- Possui dados atualizados sobre o tema?
R: Sim. O dado mais recente disponível em relatório da Anvisa é referente ao ano de 2024. Ele mostra que havia 15 bancos públicos na Rede BrasilCord e 15 bancos privados em funcionamento ao final daquele ano. Nos bancos privados foram coletadas 4.388 unidades em 2024. Na rede pública, não houve novas coletas para uso terapêutico não aparentado naquele ano; sete unidades foram utilizadas em transplantes, sendo duas para tratamentos terapêuticos reconhecidos e cinco em pesquisa clínica.
Fonte: Ginecologista e obstetra Rodrigo Dias Nunes, diretor de Projetos Acadêmicos da Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil.

