Saiba o que é essa infecção comum na infância e como tratá-la

O médico pediatra Antonio Carlos Turner ensina os principais cuidados para combater essa doença benigna, mas contagiosa
Mães, pais e cuidadores que têm crianças em idade escolar muito provavelmente já ouviram falar ou tenham enfrentado a Síndrome Mão-Pé-Boca (tecnicamente chamada de coxsakiose). Esta infecção viral tornou-se um dos motivos mais frequentes de surtos e afastamentos em creches e colégios. Embora, na grande maioria dos casos, essa doença seja benigna e se resolva sozinha, a velocidade com que se espalha e o forte desconforto que causa nos pequenos costumam gerar muitas dúvidas e angústias nas famílias.
Para compreender como proteger as crianças e agir diante dos sintomas, a pediatria baseia-se nas evidências científicas consolidadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela American Academy of Pediatrics (AAP).
Uma das principais dúvidas nos consultórios é se a criança pode contrair a doença mais de uma vez. A resposta científica é sim. A Síndrome Mão-Pé-Boca não é causada por um único inimigo, mas por uma família de vírus chamados Enterovírus, com várias cepas (subtipos) circulando ao mesmo tempo.
Os grandes vilões mais comuns por aqui são o Coxsackievirus A16 e o Coxsackievirus A6. Este último tem chamado a atenção dos cientistas nos últimos anos por causar lesões mais extensas pelo corpo e, semanas após a cura, provocar a queda temporária das unhas da criança. Isso é assustador para os pais, mas esse fenômeno é benigno. Existe uma vacina utilizada na China e no Sudeste Asiático mas há uma explicação técnica para ela não ser utilizado no Brasil”, diz o médico pediatra Antonio Carllos Turner, coordenador técnico da rede de clínicas Total Kids.
Na China e no Sudeste Asiático, os surtos contam com uma presença marcante do Enterovírus A71 (EV-A71). Diferente dos tipos comuns nas Américas, o EV-A71 tem uma forte característica neurotrópica, o que significa que ele ataca o sistema nervoso com facilidade, podendo evoluir para complicações graves como meningite e edema pulmonar. Para conter essa mortalidade, cientistas asiáticos criaram vacinas focadas exclusivamente no EV-A71. Como o perfil epidemiológico do Ocidente é dominado pelas cepas muito mais brandas (A16 e A6), o risco de complicações neurológicas por aqui é estatisticamente muito baixo, o que inviabiliza a introdução dessa vacina em nosso calendário nacional.
Como o vírus se espalha e a higienização segura com cloro
“Os enterovírus são inimigos incrivelmente robustos. Por não possuírem uma capa protetora de gordura (são vírus não envelopados), eles sobrevivem por dias em superfícies e resistem bravamente ao álcool em gel 70%. A transmissão ocorre por via respiratória (saliva e tosse), contato direto com as bolhas e, principalmente, pela via fecal-oral. O vírus continua sendo eliminado nas fezes da criança por até 4 a 8 semanas após a cura clínica. Para o bloqueio eficaz, as diretrizes científicas orientam a lavagem rigorosa das mãos e a desinfecção de superfícies e brinquedos compartilhados com cloro, o uso do cloro. A recomendação oficial é diluir uma colher de sopa de água sanitária (hipoclorito de sódio) para cada litro de água. Borrife a solução nos objetos, deixe agir por 10 minutos e enxágue abundantemente com água corrente antes de devolver o brinquedo para a criança.
Outros cuidados
Afastamento escolar: Recomenda-se o isolamento por 5 a 7 dias a partir do início dos sintomas, retornando apenas quando as lesões da pele estiverem secas e a dor na boca permitir a alimentação.
O manejo clínico: O foco é a hidratação celular
Não existe um remédio antiviral específico para curar ou acelerar a eliminação do vírus; o tratamento consiste no alívio dos sintomas enquanto o corpo cumpre seu ciclo natural de uma semana.
Hidratação
O maior perigo da Síndrome Mão-Pé-Boca na infância não é o vírus em si, mas a desidratação. As aftas orais causam uma dor intensa que faz a criança recusar líquidos. A orientação é oferecer água gelada, soro caseiro ou picolés de frutas, pois o gelo atua como um anestésico local temporário. Alimentos quentes, salgados ou sucos cítricos (como laranja e limão) devem ser totalmente evitados, pois provocam ardência extrema. Para dor e febre, analgésicos comuns devem ser usados sob orientação médica — lembrando que o uso de Ácido Acetilsalicílico (AAS/Aspirina) é contraindicado em quadros virais infantis.
Sinais de alerta: quando procurar o pronto-socorro?
Embora o curso da doença seja tipicamente leve, os pais devem monitorar de perto os sinais de evolução grave. Se a criança apresentar febre alta e persistente por mais de 48 horas, irritabilidade extrema que não cede a analgésicos, sonolência excessiva, tremores pelo corpo, falta de equilíbrio ao andar ou suor frio inexplicável, a avaliação médica imediata no pronto-atendimento é indispensável para descartar complicações neurológicas ou sistêmicas.
Fonte: Antonio Carlos Turner – Médico pediatra e Coordenador da Rede de Clínicas Total Kids – CRM 52-46851-4 – RQE 49635.

