Por que algumas crianças têm mais dificuldade para retomar a rotina? Veja 5 atitudes que facilitam a adaptação

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Birras, choro, resistência para acordar e mudanças de comportamento costumam aparecer nos primeiros dias de aula. Entenda por que isso acontece e como os pais podem ajudar os filhos a enfrentar essa fase com mais segurança
O fim das férias costuma ser aguardado com expectativa por muitas famílias, mas nem sempre a volta às aulas acontece sem desafios. Nos primeiros dias, algumas crianças ficam mais irritadas, choram com mais facilidade, resistem a acordar cedo ou demonstram pouca vontade de voltar para a escola. Em muitos casos, essas mudanças de comportamento despertam dúvidas nos pais, que se perguntam se a reação é esperada ou se pode indicar algum problema.
A boa notícia é que, na maioria das vezes, essas manifestações fazem parte de um processo natural de adaptação. Afinal, voltar à escola não significa apenas retomar as aulas. Para a criança, representa reorganizar horários, reencontrar colegas e professores, seguir regras novamente e lidar com uma rotina muito diferente daquela vivida durante as férias.
Segundo o psicólogo Filipe Colombini, CEO da Equipe AT e especialista em orientação parental, toda mudança exige um esforço emocional, especialmente na infância, período em que a capacidade de reconhecer e regular as próprias emoções ainda está em desenvolvimento. “A criança não está apenas voltando para a sala de aula. Ela está retomando uma série de experiências ao mesmo tempo. Precisa reorganizar sua rotina, adaptar o corpo a novos horários, reencontrar pessoas e lidar com expectativas que surgem naturalmente nesse período”, explica.
Durante as férias, é comum que os horários fiquem mais flexíveis. Dormir um pouco mais tarde, brincar por mais tempo, viajar, passar mais tempo com a família e ter menos compromissos fazem parte desse período de descanso. Quando essa dinâmica muda de forma repentina, o organismo também precisa de tempo para se reorganizar.
Por isso, alguns comportamentos podem aparecer nos primeiros dias de aula.
“Irritação, ansiedade, dificuldade para acordar e maior sensibilidade costumam fazer parte desse processo. Isso não significa, necessariamente, que exista algum problema. Em grande parte dos casos, a criança está apenas se adaptando a uma nova rotina”, afirma Colombini.
Por que algumas crianças sentem mais essa mudança?
Cada criança vive as transições de maneira diferente. Algumas retomam rapidamente o ritmo escolar, enquanto outras precisam de alguns dias ou até semanas para recuperar a sensação de segurança.
Isso acontece porque a adaptação depende de diversos fatores. A idade da criança, seu temperamento, experiências anteriores, facilidade para lidar com mudanças e até acontecimentos recentes da vida familiar podem influenciar a forma como ela reage ao retorno das aulas.
As crianças menores costumam sentir mais esse impacto porque ainda estão desenvolvendo habilidades importantes de autorregulação emocional. Já aquelas que mudaram de escola, trocaram de turma ou iniciaram uma nova etapa da vida escolar também podem precisar de um período maior para criar vínculos e se sentir pertencentes ao novo ambiente.
Outro aspecto importante é que as crianças dependem da previsibilidade para se sentirem seguras. Quando a rotina muda de forma brusca, elas ainda não conseguem explicar com clareza tudo o que estão sentindo e acabam demonstrando esse desconforto por meio do comportamento.
Por isso, nem toda birra é sinal de falta de limites. “Muitas vezes, a irritação é a forma que a criança encontra para comunicar que está cansada, insegura ou emocionalmente sobrecarregada. Antes de corrigir o comportamento, é importante tentar compreender o que está por trás daquela reação”, destaca o psicólogo.
Quando o comportamento é esperado?
É natural que, nos primeiros dias de aula, o pequeno apresente pequenas mudanças de humor, maior necessidade de acolhimento, dificuldade para acordar ou até alguma resistência para ir à escola. Assim como muitos adultos levam alguns dias para retomar o ritmo depois das férias, a criança também precisa de um tempo para reorganizar o corpo e as emoções.
Segundo Colombini, o papel dos pais não é eliminar completamente esse desconforto, mas ajudar os filhos a atravessarem essa fase com segurança. “Não devemos esperar que a adaptação aconteça da noite para o dia. Cada criança possui seu próprio ritmo. Quando os adultos respeitam esse tempo, oferecem acolhimento e mantêm uma rotina previsível, elas desenvolvem mais segurança para enfrentar as mudanças.”
5 estratégias para ajudar no retorno às aulas
Segundo o psicólogo Filipe Colombini, a adaptação não depende de uma única conversa ou de um dia específico. Ela acontece aos poucos e pode ser facilitada por pequenas atitudes no cotidiano. Veja as dicas do especialista para auxiliar seu filho na reorganização da rotina:
. Antecipe a mudança de horários
Não espere a véspera da volta às aulas para reorganizar a rotina. Como pais, o melhor a fazer é ir ajustando gradualmente o horário de dormir e acordar. “Isso costuma tornar a transição mais leve”, recomenda Colombini.
- Acolha os sentimentos da criança
Converse sobre a volta às aulas e pergunte como seu filho está se sentindo. Se ele demonstrar medo, ansiedade ou saudade das férias, acolha essas emoções em vez de minimizá-las. “Quando os pais escutam sem desqualificar os sentimentos, a criança entende que é normal sentir certo desconforto diante das mudanças e aprende, aos poucos, a lidar melhor com essas situações”, explica Colombini.
- Envolva a criança nos preparativos
Pequenas atitudes, como organizar o material escolar, escolher a mochila ou separar o uniforme na noite anterior, ajudam a tornar o retorno mais previsível e reduzem a ansiedade. Além disso, conversar sobre o reencontro com os amigos e os professores pode despertar expectativas positivas em relação ao início das aulas.
- Transmita segurança
As crianças costumam perceber quando os adultos também estão ansiosos. Por isso, procure falar sobre a volta à escola de forma positiva e confiante. “Quando os pais demonstram tranquilidade, a criança tende a encarar esse momento com mais segurança”, orienta o psicólogo.
- Preserve momentos de brincadeira e convivência
Mesmo com a rotina mais corrida, é importante reservar tempo para brincar, conversar e estar em família. “Esses momentos fortalecem o vínculo com os pais, ajudam a aliviar o estresse do dia a dia e tornam o período de adaptação mais leve para a criança”, conclui o especialista.
Fonte : Filipe Colombini: psicólogo, fundador e CEO da Equipe AT, empresa com foco em Acompanhamento Terapêutico (AT) e atendimento fora do consultório, que atua em São Paulo (SP) desde 2012. Especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

