“Impor limites às crianças é importante mas difícil para os pais”

“Impor limites às crianças é importante mas difícil para os pais”, diz Dra. Letícia Corrêa, pediatra e neonatologista, que reforça a necessidade de ensinar os filhos a lidarem com frustrações
Em tempos de telas 24 horas, doces antes do almoço, pais com longas jornadas de trabalho, a pediatra e neonatologista Dra. Letícia Corrêa chama a atenção para um tema central na formação das crianças: impor limites. “Sem colocar limites não é possível educar. Embora a frustração seja desconfortável, tem papel central na formação do indivíduo.”
Por que é difícil impor limites aos filhos? Segundo a médica, fatores simples podem responder à pergunta: “Porque os pais trabalham, ficam muito tempo longe e, quando estão perto,querem agradar. “
“Causar frustração aos filhos é difícil mas necessário. Aparentemente, tudo seria mais fácil se os pais cedessem todas as vezes, pois não haveria birra, choro, mas não: no futuro, a criança estará desprotegida por não saber lidar com negativas, regras e limites, pois essas circunstâncias fazem parte da vida.”
O limite criando as estruturas
De acordo com Dra. Letícia, o aprendizado dos limites se inicia ainda no primeiro ano de vida, em experiências cotidianas com ações físicas, como embalar o bebê para ele pegar no sono e amamentar em horários programados: “A mãe amamenta mas tem que parar quando o bebê está saciado e precisa descansar. Aos dois meses, tem que colocar pra dormir nas horas certas, mesmo que ele resista. São os primeiros contatos com as frustrações saudáveis, que estruturam o comportamento.”
Depois, vêm as orientações verbais dos pais: “Quando o bebê cresce e começa a andar, já compreende as falas. Os pais orientam, por exemplo, a não mexer nas tomadas, mas algumas crianças insistem, então, definitivamente, têm que ser tiradas dos locais que oferecem perigo, têm que ser contidas.”
Sustentar o ‘não’ como gesto educativo
A imposição de limites demanda preparo emocional dos pais e cuidadores: “Quando se frustra uma criança, é preciso sustentar a decisão que provocou esse sentimento. Às vezes eles respondem com gritos, birras, choro e agressividade, mas os pais devem estar prontos para se manterem firmes e explicarem abertamente os motivos que os levaram a decidir dessa ou daquela maneira, até o momento em que os filhos vão lidar com essas situações de forma natural, sem rancor.”
A autoridade parental deve ser firme e empática: “Não é apenas dizer ‘não’. É dialogar, argumentar e, ao final, manter a coerência. A criança tem vontades e tem voz, mas é preciso negociar, fazê-la entender até onde pode ir.”
“A palavra final precisa ser dos pais”, diz a médica, “que devem adotar posturas bem definidas, considerando que estão educando e formando seus filhos. Eles têm que entender que não são o centro do universo, como sentiam na fase de colo, e dar essa consciência a eles é algo natural, que deve integrar o desenvolvimento.”
Desde bebê, e depois criança, é possível aprender a lidar com a frustração, principalmente em um ambiente de amor e cuidados. “Os filhos não têm mais amor por quem os deixa fazer tudo. No fundo, eles sentem o afeto dos pais quando colocam limites.”
Consequências da ausência de limites
Dra. Letícia enfatiza que a falta de regras e limites durante a infância pode repercutir na vida adulta: “Uma criança que ganha tudo e faz o que quer pode sofrer na vida adulta. Ela fica testando os pais, vendo até onde pode ir e vai repetir isso quando adulto. Se os pais não mostram os limites, os filhos não desenvolvem autocontrole e podem adotar a postura de sempre quererultrapassar qualquer restrição.”
Segundo a pediatra, a internalização dos limites ao longo da infância promove segurança, autoconfiança e estabilidade emocional: “Crianças que compreendem que os pais se importam o suficiente para dizer “não”, crescem com maior senso de responsabilidade e capacidade de lidar com desafios. Por isso é importante não ter medo de frustrar os filhos, pois eles logo percebem que pôr limites também é uma forma de expressar o amor”.
“No futuro, estarão na memória as lembranças do cuidado manifestado através da imposição de limites, e isso vai produzir mais felicidade nas relações da vida adulta”, conclui a pediatra.
Fonte: Dra. Letícia Corrêa, pediatra e neonatologista

