Psicóloga perinatal explica por que alguns parceiros relatam enjoo, sono e até ganho de peso durante a gestação e quando o tema pede mais atenção

A gravidez costuma concentrar todas as atenções no corpo da mulher, mas um vídeo de Léo Santana e Lore Improta, grávida do segundo filho, colocou outra pergunta no centro da conversa nas redes sociais. Homens também podem sentir “sintomas de gestação”?
Nos stories, Léo descreveu sinais parecidos com os da esposa, como sono, idas frequentes ao banheiro, enjoo e um episódio de queda de pressão. O relato aparece associado à síndrome de couvade, expressão usada para descrever sintomas típicos de gestação que surgem em parte dos parceiros durante a gravidez.
A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, afirma que a prevalência não é alta, mas o tema passa a aparecer com mais frequência entre pais que vivem a experiência de forma intensa. “São poucos que apresentam esse comportamento, não é uma prevalência alta, mas a gente começou a perceber cada vez mais nos pais modernos. Então, quando suas parceiras estão grávidas, eles também começam a manifestar alguns dos sintomas”, explica.
O que é a síndrome de couvade
A síndrome de couvade, também conhecida como gravidez “solidária” ou “fantasma”, faz com que alguns homens apresentem sintomas típicos de gestação, como enjoos, tonturas, sonolência e até aumento do abdômen.
Embora a síndrome não seja amplamente conhecida, estudos indicam que ela tem se tornado mais perceptível. Homens podem apresentar sintomas durante o primeiro trimestre da gravidez de suas parceiras, conforme apontado por um estudo publicado no Journal of Psychosomatic Research em 2020.
Rafaela reforça que a síndrome de couvade não é considerada um transtorno mental, mas uma resposta emocional que se manifesta fisicamente. “Embora a prevalência não seja alta, cada vez mais casos são observados entre pais modernos, que vivenciam intensamente a experiência da gravidez junto das parceiras”.
Um pai de primeira viagem, que prefere não se identificar, descreve a surpresa que sentiu ao vivenciar esses sintomas. “Passei por tonturas, enjoos, falta de equilíbrio e até azia. Fui ao médico, e ninguém sabia o que eu tinha. Era síndrome de couvade, nem sabia que isso era possível. O mais difícil é que, em vez de apoiá-la, sinto que ela acaba tendo que cuidar de mim também”.
Psicologia perinatal também atende pais
Schiavo explica que a psicologia perinatal não se limita à gestante. Psicólogos perinatais também atendem homens, porque o cuidado envolve o período de gestação e pós-parto e pode incluir o parceiro. Isso costuma fazer diferença quando aparecem ansiedade, insegurança, conflitos no casal ou dificuldades de adaptação à chegada do bebê.
A especialista cita o pré-natal psicológico como uma possibilidade de orientação e preparo emocional em grupo, com encontros planejados. Ela também afirma que é possível incluir o homem nesse processo e até organizar grupos voltados a pais.
Além da couvade, pesquisas realizadas pela American Journal of Men’s Health em 2020 mostram que cerca de 10% dos homens podem sofrer de depressão pós-parto, especialmente quando suas parceiras também apresentam a condição. Esses homens podem começar a sentir os efeitos ainda durante a gestação, quadro conhecido como depressão perinatal.
“Há poucos anos, a ciência começou a investigar se o homem poderia, durante a gestação e pós-parto das suas parceiras, apresentar sintomas de depressão. Essa condição é uma realidade que precisa ser mais discutida. Identificar e tratar esses sintomas é fundamental para o bem-estar de toda a família”, alerta.
O pré-natal do pai é apontado como importante para preparar emocionalmente o parceiro para a chegada do bebê. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou em 2020 a necessidade urgente de mais pesquisas para explorar ansiedade, estresse e outras alterações emocionais significativas em homens no período perinatal.
“Assim como existe o pré-natal da mãe, há também o pré-natal do pai. Esse pré-natal é um direito e há, inclusive, recomendações de como realizá-lo com material da própria Secretaria de Saúde”, aponta a psicóloga perinatal.
Como os pais podem enfrentar essa condição
Para os pais que apresentam sintomas de síndrome de couvade ou depressão perinatal, a psicóloga orienta:
- Procure apoio psicológico
- Participe do pré-natal
- Comunique-se com a parceira
- Informe-se sobre a saúde mental paterna
- Busque redes de apoio
Fonte: Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.

