Maternidade depois dos 40: o que muda no planejamento e no pré-natal?

Com mulheres adiando cada vez mais a maternidade, gestação nessa faixa etária exige atenção redobrada, mas não significa que não possa ser uma gestação tranquila
A maternidade está acontecendo cada vez mais tarde. Mudanças nos projetos de vida, maior participação feminina no mercado de trabalho, busca por estabilidade financeira, relacionamentos mais tardios e os avanços da medicina reprodutiva estão fazendo com que muitas mulheres cheguem aos 40 anos ainda planejando a primeira gestação — ou decidindo aumentar a família. Mais do que uma questão de idade, o cenário representa uma transformação na forma como as mulheres têm planejado a maternidade e traz uma pergunta importante: o que muda no planejamento e no acompanhamento de uma gravidez depois dos 40?
De acordo com a Dra. Karina Belickas, obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana, engravidar após os 40 não significa, necessariamente, que a mulher terá uma gestação complicada. No entanto, a idade passa a ser um fator que merece atenção dentro da avaliação obstétrica, principalmente porque algumas condições se tornam mais frequentes nessa fase da vida.
“Uma gestação aos 40 anos não deve ser encarada como uma gestação necessariamente complicada. O mais importante é entender que existem mudanças relacionadas à idade que precisam ser consideradas desde o planejamento até o pós-parto. O acompanhamento individualizado permite identificar os fatores de risco de cada mulher e conduzir o pré-natal de maneira adequada”, explica a especialista.
Um dos primeiros pontos de atenção está na própria fertilidade. Com o passar dos anos, ocorre uma redução da reserva ovariana e, principalmente, da qualidade dos óvulos. A partir dos 40 anos, além de ser mais difícil engravidar naturalmente, aumenta a possibilidade de alterações cromossômicas nos embriões, o que também está relacionado a uma maior ocorrência de abortamentos espontâneos. Por isso, para quem deseja engravidar nessa faixa etária, o planejamento pode começar antes mesmo da suspensão do método contraceptivo.
“A consulta pré-concepcional é muito importante para a mulher que pretende engravidar após os 40. É o momento de avaliar pressão arterial, glicemia, peso, vacinação, medicamentos em uso, doenças preexistentes e o próprio histórico ginecológico e obstétrico. Também podemos conversar sobre fertilidade e, quando necessário, encaminhar para uma avaliação especializada”, explica Dra. Karina.
Durante a gravidez, alguns riscos também merecem acompanhamento mais próximo. Mulheres acima dos 40 anos apresentam maior probabilidade de desenvolver hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e algumas complicações relacionadas à placenta e ao crescimento fetal. Também aumenta a possibilidade de alterações cromossômicas, motivo pelo qual o rastreamento genético e o acompanhamento da medicina fetal podem ter um papel importante na gestação.
Isso não significa, porém, que toda mulher acima dos 40 precisará antecipar o parto ou não poderá decidir a via de parto em conjunto com seu obstetra. A idade é apenas um dos fatores analisados pela equipe médica. Uma mulher de 41 anos saudável, sem doenças preexistentes e com exames normais pode apresentar um cenário completamente diferente de outra paciente da mesma idade que tenha hipertensão, diabetes, obesidade ou outras condições clínicas.
“É importante diferenciar aumento de risco de certeza de complicação. Ter 40 anos não significa que a mulher terá pré-eclâmpsia, diabetes ou que necessariamente precisará de uma cesariana. Significa que algumas condições precisam ser observadas com mais atenção e que o pré-natal deve ser individualizado”, afirma a obstetra.
Outro ponto que ganhou espaço nos últimos anos é o acompanhamento das possíveis alterações cromossômicas. Hoje, a medicina fetal dispõe de diferentes estratégias de rastreamento, incluindo exames de sangue materno, ultrassonografias específicas e testes que analisam o DNA fetal livre circulante no sangue materno ou mesmo exames diretamente fetais. A escolha dos exames deve levar em conta a história clínica da paciente, a idade gestacional e a avaliação do obstetra.
“Hoje temos ferramentas muito mais precisas para acompanhar a saúde do bebê durante a gestação. O importante é que a paciente tenha acesso à informação e discuta com seu médico quais exames fazem sentido para o seu caso. Rastreamento e diagnóstico são coisas diferentes, e essa conversa também faz parte do pré-natal”, explica Dra. Karina.
A atenção também deve continuar no terceiro trimestre. Dependendo das características da gestação e da presença de outros fatores de risco, a equipe pode optar por um acompanhamento mais próximo do crescimento e do bem-estar fetal e discutir individualmente o melhor momento para o nascimento. A idade, isoladamente, não determina a via de parto e não significa que a mulher precisará necessariamente de uma cesariana.
Para reduzir riscos, o cuidado começa antes mesmo do teste positivo. Manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física adequada, controlar pressão arterial e glicemia, atualizar a vacinação, revisar medicamentos de uso contínuo e manter acompanhamento médico regular são medidas importantes. Durante a gestação, também é fundamental conhecer sinais de alerta, como sangramento, perda de líquido, dor intensa, falta de ar, dor de cabeça persistente, alterações visuais e redução dos movimentos do bebê, independentemente da idade da gestante.
“A idade não deve ser motivo para medo, mas deve ser considerada no planejamento. Quando a mulher chega à gestação preparada, com suas condições de saúde conhecidas e acompanhada por uma equipe que consegue identificar precocemente possíveis alterações, temos muito mais condições de conduzir essa gravidez de forma segura”, conclui Dra. Karina.
A crescente presença de mulheres acima dos 40 anos nos consultórios de obstetrícia mostra uma mudança importante no perfil da maternidade. Se antes a gestação nessa idade era vista como uma exceção, hoje faz parte de uma realidade cada vez mais presente. O desafio, portanto, não é estabelecer uma idade limite para ser mãe, mas garantir que cada mulher tenha informação, planejamento e acompanhamento adequado para tomar suas decisões e atravessar a gestação com segurança.
Fonte: Hospital e Maternidade Santa Joana – Com 77 anos de excelência, o Hospital e Maternidade Santa Joana é referência em saúde da mulher e do neonato. A instituição oferece desde atendimentos de baixa complexidade até os procedimentos mais avançados de alta complexidade nas áreas de ginecologia, obstetrícia, medicina fetal, imunização, (cirurgia cardíaca neonatal), endometriose, saúde do assoalho pélvico, vídeo cirurgias, incluindo a cirurgia robótica, além das unidades de terapia intensiva neonatais de alta complexidade nos cuidados do prematuro extremo, cardiopatias congênitas, casos cirúrgicos e um cuidado humanizado com o binômio mãe e recém -nascido.

