Alterações persistentes não devem ser atribuídas apenas ao acúmulo de leite. Exames podem ser feitos sem esperar o desmame, explica mastologista do CEUB

Dor, inchaço, endurecimento das mamas e nódulos são alterações comuns durante a amamentação. O desafio é diferenciar situações relacionadas à lactação de sinais que precisam de investigação médica. No Outubro Rosa, Gabriela de Albuquerque, professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), alerta que no período pós-parto, mudanças naturais nas mamas podem mascarar sintomas de câncer e levar a atrasos no diagnóstico, sobretudo porque algumas manifestações da doença se confundem com problemas frequentes entre lactantes, como mastite e ductos bloqueados.
A especialista em Mastologia e Cirurgia Geral alerta: amamentar protege, mas não elimina o risco. “A amamentação ajuda a reduzir o risco de câncer de mama, mas não impede que a doença apareça. Mesmo quem está amamentando deve ficar atenta”. Embora as mamas possam ficar mais cheias, sensíveis e endurecidas durante a amamentação, a especialista orienta mulheres a procurarem atendimento diante de alterações persistentes. “Não presuma que o sintoma é apenas uma consequência normal da lactação”.
Entre os sinais de atenção estão os nódulos que permanecem após as mamadas. “Nódulos endurecidos e persistentes que surgem e se mantêm por mais de duas semanas ou ficam inalterados após as mamadas ou esvaziamento das mamas precisam ser investigados”, destaca Gabriela. Esse prazo não deve ser entendido como uma orientação para esperar. Ao perceber um caroço ou alteração preocupante, deve-se procurar avaliação médica imediatamente.
Também merecem atenção:
- Pele engrossada ou com aspecto de “casca de laranja”;
- Mamilo que passa a ficar retraído ou voltado para dentro;
- Saída espontânea de secreção transparente ou com sangue;
- Vermelhidão persistente ou mastite que não melhora com o tratamento.
É possível fazer mamografia durante a amamentação?
De acordo com Gabriela de Albuquerque, a mulher não precisa esperar o desmame para investigar uma alteração. Ultrassonografia, mamografia e, quando indicada, ressonância magnética podem ser realizadas durante a lactação. “A amamentação não deve ser interrompida para fazer os exames de investigação, assim como os exames não devem ser atrasados em função do aleitamento”, explica a mastologista. Ela recomenda, antes do exame, avisar à equipe que está amamentando e, quando possível, amamentar ou retirar o leite antes do exame para reduzir o desconforto e facilitar a avaliação das imagens.
O câncer após a gravidez pode ser mais agressivo?
O câncer de mama diagnosticado nos primeiros anos após o parto pode apresentar características de maior agressividade em alguns grupos de pacientes. Segundo Gabriela, o primeiro ano merece atenção especial. Um estudo publicado na revista npj Breast Cancer, com 385 mulheres com tumores positivos para receptores hormonais e HER2-negativos, encontrou pontuações mais altas em um teste genômico usado para estimar o risco de recorrência entre as pacientes diagnosticadas nos primeiros 12 meses após o nascimento de um filho.
Os resultados também sugerem que esse comportamento pode estar presente em tumores diagnosticados até três anos após o parto. “Isso não significa que toda alteração na mama seja câncer: muitas mudanças estão relacionadas à lactação e melhoram com o manejo adequado. Sintomas persistentes, porém, precisam ser investigados”, reforça a professora do CEUB.
Fonte: Gabriela de Albuquerque, professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB)

