Amamentação: Cuidar da Saúde Mental da Mãe é tão Essencial quanto Ao Bebê

Na Semana Mundial do Aleitamento Materno, a psicóloga explica que a dificuldade para amamentar não deve ser encarada como fracasso pessoal e destaca a importância do acolhimento, da criação de vínculos e da amamentação

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No Hospital Santa Marcelina, o cuidado com a amamentação começa logo após o nascimento. A instituição oferece acompanhamento multiprofissional às puérperas, incentivo ao aleitamento materno desde a primeira hora de vida do bebê e conta com uma sala de apoio à amamentação, espaço destinado ao acolhimento, orientação e suporte às mães durante esse processo.

No entanto, embora o aleitamento materno seja amplamente reconhecido pelos inúmeros benefícios ao desenvolvimento do bebê, pouco se fala sobre os desafios emocionais enfrentados pelas mulheres no pós-parto. Insegurança, ansiedade, dor, exaustão e a pressão para amamentar podem impactar significativamente a experiência da maternidade, tornando o acolhimento e a orientação profissional fundamentais nesse período.

De acordo com a psicóloga da Maternidade do Hospital Santa Marcelina, Daniele Giamassi, um dos principais desafios é a idealização da maternidade. “Existe uma construção social romantizada em relação a tudo, levando a mulher, muitas vezes, ao sofrimento psíquico e a uma expectativa irreal do papel materno”, afirma.

A capacidade de amar e cuidar de um filho não se resume à amamentação. O acolhimento emocional, a escuta qualificada e o apoio à mulher no puerpério são tão importantes quanto o incentivo ao aleitamento materno.

Na Semana Mundial do Aleitamento Materno – celebrada de 1º a 7 de agosto -, a especialista destaca que a amamentar não deve ser visto como um processo automático. “A amamentação não acontece de maneira instintiva ou natural, ela é um processo de aprendizado que é atravessado por fatores físicos, emocionais e culturais.” Ela explica que o puerpério é um período de grande vulnerabilidade e que é necessário acolher a mãe, validando seus sentimentos e ajudando-a a reconstruir as expectativas para versões mais realistas sobre a maternidade. “O puerpério traz desafios importantes para a mulher, sendo necessário disposição física, psíquica e apoio contínuo para que o processo ocorra da forma mais tranquila e confortável possível.”

De acordo com Daniele Giamassi, quando a impossibilidade de amamentar não é elaborada emocionalmente, o sofrimento pode persistir por muito tempo. “A impossibilidade de vivenciar esse momento, quando não elaborada do ponto de vista psíquico, pode gerar sofrimento e trazer prejuízos para a saúde mental materna”, ressalta.

Entre os sentimentos mais comuns estão culpa, impotência, fracasso e inadequação. Para a psicóloga, é fundamental que a mulher possa viver o que chamamos de luto da maternidade idealizada e se permitir pedir ajuda. “É necessário vivenciar essa dor, construir um olhar mais próximo da realidade, se permitir falhar, aprender, pedir ajuda quando necessário e expressar os próprios sentimentos e necessidades.”

Incentivar sem pressionar

A especialista também faz um alerta sobre a diferença entre incentivar o aleitamento e pressionar a mulher a qualquer custo. “A amamentação é um processo que requer treino, aprendizado e paciência, por isso a importância de todos os envolvidos (familiares e equipe) acolherem e estarem alinhados às necessidades individuais de cada puérpera.” Para a profissional, as cobranças excessivas podem agravar o sofrimento emocional. “Julgamentos e pressões elevam o nível de estresse e geram mais problemas, interferindo de forma negativa nesse processo”, explica.

Entre as atitudes que ajudam a proteger a saúde mental materna estão a escuta sem julgamentos, a validação das dificuldades da mulher e o fortalecimento da rede de apoio.

Algumas formas assertivas de apoiar a amamentação e proteger a saúde mental materna:

– Ter empatia e validar o sofrimento e as dificuldades da puérpera.

-Estar disponível para ouvir e acolher sem julgamentos.

– Evitar comunicação violenta: críticas ou palpites que desvalidem o esforço da puérpera no processo de amamentação.

– Fortalecer a rede de apoio (a mulher precisa receber cuidado e ter seus limites físicos e emocionais respeitados para assim conseguir cuidar do bebê).

“Baby Blues”

Nas primeiras semanas após o parto, é comum ocorrer a chamada labilidade emocional temporária, conhecida como “baby blues”. Essa instabilidade emocional ocorre devido a fatores combinados, como alterações hormonais, privação de descanso/sono, dentre outras mudanças que vêm junto à nova rotina após o nascimento do bebê.

Com descanso, cuidados e apoio familiar, a tendência é que esse quadro seja transitório. O alerta surge quando os sintomas persistem, levando até a possibilidade de um quadro de depressão pós-parto.

A psicóloga salienta ainda a importância de considerar o histórico de saúde mental da mulher, que pode causar, nesse período, a potencialização dos sintomas de ansiedade e depressão. “Nesses casos, o acompanhamento especializado é fundamental, tanto da psicologia quanto da psiquiatria”, completa.

Construção de vínculos

Ana Clara Soares Gonçalves, de 19 anos, confessa que não sabia nada sobre amamentação antes da chegada do primeiro filho, Levi. “O que eu sabia era que é muito importante. A sensação de amamentar pela primeira vez foi um pouco estranha, porém boa, quando você percebe aquela pessoinha tão pequena pegando o peito”, conta a ela, destacando que as dicas da equipe de enfermagem ajudaram bastante.

Aos 24 anos, também vivendo a experiência da maternidade pela primeira vez, Melissa Silva dos Santos Cabral imaginava que amamentar seria um processo natural. Ainda na gestação, pesquisou sobre a pega correta do bebê, mas não sabia que o formato plano do mamilo poderia dificultar a amamentação. Apesar de o filho, Pierry, ter conseguido mamar logo após o nascimento, a dificuldade surgiu no segundo dia de vida. “Eu preparei meu psicológico só para dar peito. Quando ele começou a ter dificuldade por causa do meu bico, eu fiquei frustrada, porque não imaginava que passaria por isso”, lembra. Com o apoio da equipe da Maternidade, Melissa segue insistindo no aleitamento. “O vínculo criado durante a amamentação é um incentivo para eu continuar tentando. E sei que vou conseguir, é só questão de tempo”, acrescenta.

Para as mães que sofrem por não terem conseguido amamentar como sonharam, a psicóloga Daniele deixa uma mensagem de acolhimento. “O vínculo é um processo de construção, e na impossibilidade da amamentação, pode acontecer diariamente de outras formas, como por exemplo através do toque, do olhar, da voz, da rotina de cuidados e do afeto.” Para ela, a capacidade de amar e cuidar de um filho não se resume à amamentação. O acolhimento emocional, a escuta qualificada e o apoio à mulher no puerpério são tão importantes quanto o incentivo ao aleitamento materno.

Cultura da Maternidade

supervisora de Enfermagem da unidade, Daniela Bonfá Garcia, conta que, desde o nascimento, a equipe adota uma série de medidas para incentivar e apoiar o aleitamento materno. Logo após o parto, mãe e bebê são estimulados a permanecer em contato pele a pele, favorecendo a criação do vínculo e proporcionando a primeira oportunidade de amamentação na chamada “hora ouro”, a primeira hora de vida.

“Nesse momento inicial, a amamentação nem sempre acontece de forma efetiva, pois é um período de adaptação e reconhecimento entre mãe e bebê. Ainda assim, a equipe já inicia as orientações sobre o aleitamento materno, acompanhamento que continua durante toda a internação. No alojamento conjunto, os profissionais ensinam a posição correta, a pega adequada e a sucção do bebê, oferecendo apoio contínuo para que a mãe receba alta preparada para manter a amamentação em casa”, explica.

A maternidade conta com uma sala de apoio à amamentação, espaço destinado à retirada de leite para aliviar as mamas e atender situações específicas, como mães que permanecem internadas por mais tempo, bebês internados em UTI-Neonatal ou crianças em aleitamento materno internadas na Pediatria.

Fonte: psicóloga da Maternidade do Hospital Santa Marcelina, Daniele Giamassi, Supervisora de Enfermagem da unidade, Daniela Bonfá Garcia,  Hospital Santa Marcelina

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