As Crises do Primeiro Ano de Vida – parte 2

A crise da angústia, a presença do pai e a erupção dentária.

A crise dos 3 meses

Com o tempo, o seio se enche e elimina o leite com mais facilidade e o bebê suga mais intensamente. Conclusão: a sucção fica mais eficaz e o tempo de mamada pode diminuir sensivelmente. Ao contrário do que a mamãe possa pensar, o bebê não está mamando menos, tanto que, quer seja por livre demanda (o ideal) ou não, o intervalo das mamadas se mantém ou até aumenta.

Além disso, aos 3 meses, quando o bebê começa a enxergar melhor, quem ele vê? Sua mãe. E ele se diverte assim; e ela também. Nesse momento, o bebê começa a ter a percepção que ele não é parte da mãe, mas sim um ser diferente dela, muito próximo dela, mas não é parte dela. Ou seja, o bebê tem a percepção do primeiro outro. Sua mãe.

E a “consciência” de que existe um ambiente visível, audível e palpável, além do olhar e do seio materno pode, por exemplo, distraí-lo durante uma mamada. Como se concentrar se há tantos estímulos, tanto para conhecer?

Mamãe deitada ao lado de seu bebê enquanto ele mama - Foto: Natalia Deksbakh / ShutterStock.com

Mais um dado que contribui para a preocupação materna é que, associado ao menor tempo de mamada acontece uma diminuição do ganho de peso e um enchimento de seio não tão intenso quanto no início. E, muitas vezes, essa insegurança faz com que mães, pais, avós e até pediatras introduzam fórmulas infantis para complementação alimentar. Uma vez constatado que o bebê está clinicamente bem, vamos todos respirar bem fundo e raciocinar.

Se um bebê que nasceu com 3 kg (média) ganhar 1 kg todos os meses, ao final de 1 ano ele estará pesando… 15 kg. A média de peso esperada para 1 ano de idade é de 9 kg (em média, segundo a mais recente tabela de 2006 da OMS). Assim, em 1 ano, esse bebê tem que ganhar 6 kg. E se nos primeiros 3 meses ele ganhou 2 a 3 kg, sobram 3 a 4 kg para ele ganhar nos próximos 9 meses. Assim, fica matematicamente comprovado que o bebê deve diminuir (e muito) seu ganho de peso mensal para que ele não inicie, desde muito cedo, seu processo de obesidade infantil.

Mas, se durante o dia, essa situação nova, apesar de incomodar um pouco a mãe, é solucionada com o tempo e com as consultas e explicações do pediatra, as noites podem não ser tão inofensivas assim. Afinal, a criança que dormia quase a noite toda pode começar a acordar mais vezes e, na maior parte das vezes, as mães encontram apenas uma explicação: fome. E por quê? A criança chora algumas vezes. A mãe vai lá e ela para. A mãe sai e a criança volta a chorar e só se acalma quando, depois de muitas idas e voltas, ela mama. Mas isso é mesmo só e principalmente fome?

Nananinanão. Esta é a segunda crise de desenvolvimento e de angústia do bebê. O bebê vai sugar, sempre que o seio for oferecido, mesmo sem fome, porque isso representa estar novamente de volta à segurança do primeiro trimestre, quando mãe e bebê eram um só.

Se a mãe tiver a consciência de que isso é transitório, e tiver o suporte da família, e conseguir entender que é realmente ela quem tem que atender esses choros noturnos do bebê, e todos à sua volta a apoiarem nessa fase, em média, após 15 dias, a rotina tende a se restabelecer e todos poderão retomar suas vidas noturnas saudáveis, com um sono contínuo, sem que esse bebê tenha que ter sido medicado.

E aos 6 meses

Então, tudo segue bem até que entre 5 e 6 meses a criança tem dois fatores de crise importantes: o pai e a erupção dentária.

Como o pai, especialmente aqui no Brasil, tem uma licença-paternidade ridícula de 5 dias para “legalizar” a existência de seu filho (e não para dar suporte necessário em seu lar) e logo tem que voltar ao trabalho, seu contato com o bebê fica resumido ao período no qual ele mais dorme e, quando ele acorda, só quer a mãe para satisfazer suas necessidades básicas.

A partir dos 6 meses, quando o bebê começa a passar mais tempo acordado, a figura do pai começa a se tornar mais comum à criança, aos finais de semana, por exemplo, e um apego extra tem início. Muitas vezes, nessa fase, as mães não entendem porque o bebê, quando acordado, tem “vontade de estar com seu pai”. Mas aos poucos, o vínculo familiar favorece os papéis e pai-mãe-criança passam a constituir uma família equilibrada, compartilhando muito mais do que competindo pela atenção do filho.

Um pouco mais incômodo do que isso é que nessa fase costuma ser a época da erupção dentária. Algumas crianças nascem com dentes (dentes neonatais) e outras vão ter dentes após 1 ano de idade. Tudo isso é normal. Em média, nasce um dente por mês entre o 6º e o 8º meses de vida.

Apesar de não ser aceita por muitos pediatras, atualmente, uma grande parte dos profissionais, avós e pais já reconhecem esse problema é a crise da erupção dentária. Mais do que isso é que cada dente que vai sair tem sua história própria.

Alteração de humor, de sono, diarreia, rejeição ao alimento sólido, preferência por leite materno no seio materno e até febre podem fazer parte dessa “Síndrome de Erupção Dentária”. Esse é um quadro transitório que, após seu reconhecimento, também tem uma evolução benigna.

Próxima parte:

As Crises do Primeiro Ano de Vida – parte 3

A crise ou angústia da separação

E chegamos assim à mais conhecida crise infantil – a crise ou angústia da separação – que costuma acontecer por volta dos 8 a 9 meses, ou em algum momento no 3º trimestre de vida desse bebê, podendo ser a mais duradoura, com sintomas mais intensos quando a criança que dormia a noite toda chega a acordar 8, 10 ou mais vezes, apavorada, gritando, em desespero, chorando muito, assustando tanto os pais quanto a criança. E a falta, nesse momento, é mesmo da mãe (ou da “figura de apego”).

Dr. Moises Chencinski

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com título de especialista em pediatria pela Associação Médica Brasileira (AM...

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