Endometriose e Maternidade

Após anos de tratamento, influenciadora engravida naturalmente de gêmeos e transforma experiência em rede de apoio para mulheres

Março Amarelo: trajetória de Luna Chiappero reforça que diagnóstico precoce, acompanhamento especializado e informação podem mudar o futuro reprodutivo de pacientes com endometriose

Aos 24 anos, em meio a crises intensas de cólica que a levaram ao pronto-atendimento, Luna Chiappero, influenciadora, recebeu um diagnóstico que mudaria sua relação com o próprio corpo: endometriose profunda. Na época, pouco se falava sobre a doença e, como acontece com muitas mulheres, o impacto inicial veio acompanhado de medo, dúvidas e incertezas sobre o futuro, especialmente sobre a possibilidade de engravidar.

Hoje, aos 38 anos, grávida de gêmeos e vivendo uma gestação natural e saudável, Luna compartilha sua trajetória para inspirar outras mulheres e ampliar a conscientização sobre uma condição que ainda enfrenta diagnóstico tardio e muitos tabus.“Quando descobri, a primeira sensação foi de susto. Era um assunto pouco discutido e eu não sabia exatamente o que aquilo significaria para minha vida no futuro. Mesmo sem pensar na maternidade naquele momento, a dúvida sobre fertilidade sempre esteve ali, silenciosa”, relata.

Segundo Marcos Tcherniakovsky, ginecologista, especialista em endometriose e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose, esse cenário ainda é comum.“A endometriose ocorre quando o tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, se desenvolve fora da cavidade uterina. Esse processo pode atingir ovários, intestino, bexiga e outras regiões, desencadeando inflamação, dor e diferentes graus de comprometimento da qualidade de vida”, explica o médico.

Dor intensa não deve ser normalizada

No caso de Luna, os primeiros sinais surgiram por meio de cólicas incapacitantes.“Eu chegava a precisar ir ao pronto-socorro em alguns ciclos menstruais. Em uma dessas consultas, surgiu pela primeira vez a suspeita de endometriose”, comenta Luna.

Após exames de imagem e investigação especializada, foi identificado um pequeno foco de endometriose profunda localizado entre o útero e o reto. De acordo com o especialista, esse tipo de manifestação exige atenção porque os sintomas muitas vezes são silenciosamente incorporados à rotina feminina.

“Dismenorreia intensa, dor pélvica persistente, dor durante as relações sexuais, desconforto intestinal relacionado ao ciclo menstrual e dificuldade para engravidar estão entre os sinais mais frequentes. Muitas pacientes convivem anos com sintomas importantes antes de receberem diagnóstico”, destaca o médico.

Muitas mulheres aprendem a suportar dores severas como se fossem normais, e isso contribui diretamente para o atraso no diagnóstico.

Anos de tratamento e dúvidas sobre fertilidade

Após o diagnóstico, Luna iniciou tratamento hormonal contínuo com anticoncepcional para bloquear a menstruação e controlar a progressão da doença. Durante anos, o tratamento funcionou, mas trouxe também adaptações e efeitos colaterais.

“Passei muito tempo tentando encontrar uma medicação que funcionasse bem para mim. Ao longo desses anos, existia uma pergunta recorrente: como meu corpo reagiria quando eu precisasse parar?”, comenta a influenciadora.

Essa dúvida ganhou força quando, anos depois, já casada, a maternidade passou a ser um projeto real. “Aos 36 anos, comecei a pensar nisso de forma concreta. Além da endometriose, existe toda a pressão natural da idade e o medo sobre fertilidade”, destaca.

Um aborto espontâneo e uma descoberta importante

Ao interromper o anticoncepcional e iniciar as tentativas para engravidar, Luna conseguiu um teste positivo após alguns meses. A alegria, porém, durou pouco: ela sofreu um aborto espontâneo poucos dias depois. “Foi muito doloroso, mas também foi naquele momento que percebi algo importante: eu era fértil. Isso mudou minha forma de enxergar tudo”, relata Luna.

A experiência também reforçou um debate ainda cercado de desinformação: endometriose não significa infertilidade obrigatória. Hoje, no sétimo mês de gestação de gêmeos, Luna afirma que vive uma fase de realização e quer usar sua visibilidade para acolher outras mulheres. “Minha história mostra que endometriose não é uma sentença. Com acompanhamento adequado, informação e tratamento individualizado, é possível engravidar e ter qualidade de vida”, comenta a gestante.

Nas redes sociais, ela passou a falar abertamente sobre medos, tentativas, frustrações e maternidade, criando identificação com mulheres que vivem dilemas semelhantes.

Tratamento individualizado faz diferença

Segundo o Dr. Marcos, cada caso exige avaliação específica. “O tratamento pode incluir controle hormonal, medicamentos, mudanças de estilo de vida e, em situações mais avançadas, cirurgia. O mais importante é individualizar a conduta e evitar que a paciente conviva anos sem orientação adequada”, ressalta Dr. Marcos.

Ele reforça que ampliar informação é essencial, especialmente neste mês, que há um destaque para ‘Março Amarelo’, para uma maior conscientização da doença: “Diagnóstico precoce e manejo correto reduzem complicações, preservam qualidade de vida e ajudam inclusive no planejamento reprodutivo”, finaliza o especialista.

Fontes:

Luna Chiappero – Comunicadora, criadora de conteúdo, apresentadora de podcast e mãe de gêmeos. Formada em Relações Públicas, Luna cursou em 2025 a primeira turma da maior escola para criadores de conteúdo do Brasil, a Community Creators Academy e hoje traz conversas reais sobre maternidade, universo gemelar, questões femininas e tendências em suas redes sociais. Instagram: @luna.chiappero

especialista – Dr. Marcos Tcherniakovsky – Ginecologista e Obstetra – Especialista em Endometriose e Vídeo-endoscopia Ginecológica (Histeroscopia e Laparoscopia). É Diretor de Comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose. Médico Responsável pelo Setor de Vídeo-endoscopia Ginecológica e Endometriose da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC. Membro da comissão de especialidades na área de Endometriose pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Médico Responsável da Clínica Ginelife. Instagram: @dr.marcostcher

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