Infertilidade Masculina

Mitos e desinformação podem atrasar diagnóstico e tratamento para infertilidade masculina

Fatores masculinos estão envolvidos em cerca de 35% dos casos de infertilidade conjugal; em 20%, o problema envolve tanto o homem quanto a mulher

Dados recentes do Ministério da Saúde revelam um cenário que demanda mais atenção voltada à saúde reprodutiva masculina no Brasil: o número de atendimentos relacionados à infertilidade mais que dobrou na última década. Para se ter ideia, em 2015, foram registradas 725 assistências para homens no Sistema Único de Saúde; já em 2024, o total chegou a 2,5 mil, sendo o maior da série histórica. Em 2025, de janeiro a setembro, o SUS registrou 1,5 mil atendimentos.

Já segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infertilidade afeta 1 em cada 6 pessoas no mundo. E, apesar dos avanços da medicina e do aumento das discussões sobre o tema, a infertilidade masculina ainda é cercada por diversos mitos e desinformação, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento adequados.

Um dos maiores equívocos sobre o assunto envolve o recorte de gênero. Apesar dos problemas de saúde da mulher serem frequentemente vistos como a principal causa de tentativas malsucedidas de engravidar, os homens são responsáveis isoladamente por cerca de 35% dos casos, contribuindo com outros 20% em associação com fatores femininos. 

Outro mito comum é que a infertilidade tem relação apenas com fatores genéticos. De acordo com o urologista e especialista em Reprodução Humana, Dr. Fábio Firmbach Pasqualotto, médico associado da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), não há um único culpado pelo aumento da infertilidade, mas uma combinação de fatores modernos. Ele afirma que a deterioração da qualidade do sêmen é multifatorial, envolvendo desde a exposição ambiental até doenças sistêmicas.

Entre as principais causas citadas pelo especialista estão: fatores ambientais, como exposição a agrotóxicos, pesticidas, metais pesados, solventes e calor excessivo; hábitos de vida, como tabagismo, consumo de álcool, uso de drogas ilícitas, sedentarismo e obesidade; patologias, como varicocele, diabetes mellitus, infecções urogenitais e distúrbios hormonais como o hipogonadismo; e também iatrogenia, como tratamentos quimioterápicos e radioterápicos.

Um outro mito recorrentemente disseminado é a de que estilo de vida não tem relação direta com a infertilidade. O uso indiscriminado de testosterona em academias, por exemplo, é uma das maiores ameaças modernas à fertilidade masculina. O especialista é enfático: o uso de testosterona é proibitivo para homens que planejam ter filhos. 

O mecanismo é biológico. Ao receber testosterona externa, o corpo entende que não precisa mais produzi-la. Isso causa um “feedback negativo” que interrompe a produção natural de espermatozoides, podendo levar à azoospermia (ausência de espermatozoides no sêmen). Com o uso contínuo, o testículo pode sofrer atrofia, tornando a infertilidade muitas vezes definitiva.

Ainda sobre estilo de vida, um estudo da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, divulgado em março deste ano, identificou uma associação entre alto consumo de ultraprocessados por homens e menor fertilidade. Para o médico ginecologista, Dr. Roberto Antunes, presidente da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), os achados são consistentes, com um corpo crescente de evidências que relaciona dieta de pior qualidade à função espermática e à fertilidade masculina.

“Ainda não incorporamos esse fator como critério formal em protocolos diagnósticos, mas ele deve, sim, ser considerado na avaliação global do estilo de vida do paciente. Orientações nutricionais já fazem parte do cuidado em reprodução, e esses dados reforçam a importância de incluir o homem de forma mais ativa nesse processo”, afirma o presidente da SBRA.

O mito de que a idade não afeta a fertilidade masculina e que homens permanecem férteis da mesma forma durante toda a vida também é desmentido pelo especialista. Embora não exista uma idade limite para a paternidade, o Dr. Pasqualotto ressalta que o tempo também é um fator crítico para o homem. “A qualidade seminal começa a piorar aos 30 anos, quando a produção de testosterona diminui cerca de 1% ao ano. Após os 45-50 anos, há um aumento significativo na fragmentação do DNA do espermatozoide”, explica o médico.

Do mesmo modo, a informação de que o espermograma convencional é suficiente para avaliar a fertilidade é considerada outro grande mito. Embora essencial, não é um veredito final. Estima-se que 30% dos homens com resultados normais no exame comum ainda enfrentam dificuldades para engravidar suas parceiras. Nesses casos, o Dr. Pasqualotto recomenda oExame de Fragmentação de DNA Espermatogênico, uma vez que é essencial para casos de infertilidade sem causa aparente, homens com mais de 50 anos ou tabagistas, histórico de abortamento de repetição e falhas recorrentes em ciclos de Fertilização In Vitro (FIV).

Diante do declínio global da qualidade seminal, surge a dúvida: jovens devem congelar sêmen preventivamente? Para o Dr. Pasqualotto, a resposta ainda não é consensual. O próprio processo de criopreservação pode aumentar as taxas de fragmentação do DNA. “Ainda é questionável indicar o congelamento indiscriminado. Precisamos de meios de cultivo de melhor qualidade para prevenir danos durante o processo antes que isso se torne uma recomendação geral”, conclui.

Fonte: A Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) é a principal entidade científica dedicada à medicina reprodutiva no Brasil e a maior do setor na América Latina. Fundada com o compromisso de promover o avanço técnico-científico e ético da reprodução assistida, a associação reúne médicos, embriologistas e profissionais multidisciplinares em prol do auxílio a pessoas com dificuldades de concepção.

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