Estudos apontam alta prevalência de dor persistente após cirurgia e radioterapia; especialista explica como os reflexos da terapia oncológica podem se estender por anos

Durante o Outubro Rosa, a conversa costuma se concentrar na prevenção e no diagnóstico precoce, mas um aspecto fundamental ainda ganha pouco espaço: a permanência da dor mesmo após a conclusão da etapa aguda da doença. Uma revisão sistemática publicada na revista científica Breast identificou dor persistente em quase 30% das pacientes após a cirurgia e em mais de 27% após a radioterapia. Um panorama global mais recente, de 2026, reforça a dimensão do problema ao estimar que até 41% dos sobreviventes de câncer convivem com quadros de dor crônica.
Para o Dr. Lúcio Gusmão, médico ortopedista e especialista em dor da Rede CADE, essa conta não zera com o fim da terapia oncológica. Segundo ele, a localização exata e as características do incômodo são pistas fundamentais para rastrear o impacto que os tratamentos deixaram no organismo e, a partir daí, devolver a qualidade de vida à paciente.
“Pacientes que passaram pelo tratamento do câncer de mama frequentemente relatam desconfortos na região do esterno, dos ombros e do tórax. Também pode ocorrer a costocondrite, uma inflamação das cartilagens responsáveis por conectar as costelas ao esterno”, explica.
O especialista aponta que essas dores podem estar relacionadas a diferentes fatores, incluindo alterações provocadas pela própria cirurgia de retirada do tumor, comprometimento de tecidos e nervos e efeitos tardios de tratamentos como a radioterapia. Por isso, a avaliação precisa considerar onde dói, o tipo de tratamento realizado, o tempo desde o diagnóstico e a evolução dos sintomas.
Outro levantamento ajuda a dimensionar o problema. O estudo “Dor crônica e seus fatores associados entre sobreviventes de longo prazo do câncer de mama”, publicado no Journal of Cancer Survivorship, acompanhou 3.640 mulheres que haviam sobrevivido ao câncer de mama por pelo menos cinco anos. Ao todo, 42% relataram sentir dor. A pesquisa também encontrou associação entre a presença de dor e fatores como recorrência ou metástase, obesidade, sedentarismo e outras condições de saúde.
Segundo Dr. Gusmão, a persistência da dor tem um impacto emocional importante. “Muitas pacientes chegam ao consultório desanimadas após enfrentarem o câncer. Mesmo depois de superar uma fase tão difícil, elas podem lidar com a autoestima fragilizada pelas mudanças na aparência provocadas por tratamentos como a quimioterapia. A expectativa de voltar à rotina, porém, nem sempre se concretiza, já que desconfortos persistentes podem dificultar até mesmo atividades simples do cotidiano”, relata o médico.
A dor também pode aparecer em outras regiões e estar relacionada a diferentes tipos de câncer e tratamentos. No câncer de colo do útero, por exemplo, o especialista observa com frequência queixas de dor crônica na região pélvica. Nesses casos, assim como no câncer de mama, identificar a origem do quadro é fundamental para definir a estratégia de tratamento.
“Ter histórico de câncer não significa que a pessoa precise aceitar a dor como uma consequência permanente. Hoje conseguimos trabalhar com diferentes recursos, de acordo com a origem e a intensidade do quadro, trabalhando intervenções diretas no local inflamado, como também tratamentos que envolvam a saúde mental”, afirma Dr. Gusmão.
Tratamento
Em clínicas especializadas como o Centro Avançado da Dor e Especialidades (Rede CADE), pacientes com histórico de câncer e queixas de dor passam por uma avaliação individualizada para identificar a origem e as características do quadro antes da definição da conduta. A partir dessa análise, o tratamento costuma combinar medicação, fisioterapia, equipamentos médicos e outras terapias para controle da dor, de acordo com a necessidade de cada paciente.
A abordagem também pode envolver profissionais de psicologia, nutrição e educação física, especialmente quando fatores emocionais, alterações de peso, perda de condicionamento ou limitações funcionais interferem na recuperação.
“Retomar a rotina e recuperar a qualidade de vida nem sempre acontece logo após o fim do tratamento do câncer de mama. Algumas mulheres continuam enfrentando dores e limitações físicas relacionadas à doença e às terapias. Por isso, o Outubro Rosa também deve chamar atenção para o acompanhamento dessas pacientes após essa etapa, com cuidados voltados à recuperação da autonomia e do bem-estar”, conclui o médico.
Fonte: Dr. Lúcio Gusmão, médico ortopedista e especialista em dor da Rede CADE

