Toda Criança com Doença Renal precisa de Transplante?

Diálise nem sempre precisa anteceder a cirurgia, e acompanhamento continua por toda a vida; médica explica indicações, recuperação e cuidados na infância

Nefrologista esclarece seis dúvidas

O diagnóstico de doença renal crônica em uma criança não significa, necessariamente, que ela precisará de um transplante. Quando a cirurgia é indicada, também não é obrigatório passar antes pela diálise. Essas decisões dependem das condições clínicas e da avaliação individualizada da equipe médica. Após o procedimento, outra informação é fundamental para as famílias: o transplante pode melhorar o crescimento, a autonomia e a participação na rotina escolar, mas não representa a cura da doença.

Em setembro, mês de conscientização sobre a doação de órgãos, o Dr. Charles Yea Zen Chow, nefrologista e coordenador do Programa de Transplante Renal do Sabará Hospital Infantil, esclarece dúvidas sobre as indicações da cirurgia, os cuidados durante a espera e o acompanhamento após o procedimento.

1. Toda criança com doença renal crônica precisa de transplante?

Não. O transplante é uma das opções de tratamento para pacientes com doença renal crônica avançada, conforme avaliação da equipe médica. Algumas crianças podem receber tratamento clínico ou precisar de diálise.

Na infância, a doença renal crônica é frequentemente causada por malformações congênitas. O planejamento do cuidado precisa considerar, além da doença renal, o desenvolvimento físico e emocional da criança e a dinâmica familiar.

2. A criança precisa fazer diálise antes do transplante?

Não necessariamente. Dependendo das condições clínicas, o transplante pode ser realizado antes do início da diálise. A decisão é individualizada pela equipe responsável.

Para as crianças que precisam de diálise enquanto aguardam um órgão compatível, o cuidado busca manter a estabilidade clínica e reduzir o impacto do tratamento na rotina. No Sabará, as opções incluem diálise peritoneal domiciliar, realizada em casa, e hemodiálise ambulatorial especializada. O objetivo é evitar a perda de aulas e preservar o convívio social.

3. O transplante renal é uma cura?

Não. O transplante é um tratamento para a doença renal crônica avançada. Mesmo após a cirurgia, a criança precisa de acompanhamento médico contínuo e de medicamentos para reduzir o risco de rejeição.

As consultas, os exames e o uso de medicamentos devem continuar por toda a vida. No futuro, o paciente pode necessitar de um novo transplante.

4. O que muda na vida da criança depois da cirurgia?

Com a recuperação, muitas crianças podem apresentar melhora do crescimento, ganho de peso, maior autonomia e retorno mais regular à escola e às atividades do dia a dia.

“O transplante não é um ponto final, mas o recomeço do desenvolvimento infantil”, explica Chow. “Quando otimizamos o tempo de espera e mantemos a estabilidade clínica com equipes integradas de nefrologia, cirurgia de precisão, nutrição e psicologia, devolvemos à criança o crescimento e a autonomia que a doença havia paralisado. Após o procedimento, os ganhos na qualidade de vida são imediatos e permanecem ao longo do tempo.”

O acompanhamento também considera as repercussões de malformações do trato urinário e síndromes genéticas, que podem afetar o desenvolvimento da criança mesmo após o transplante.

5. Por que o transplante pediátrico é mais delicado?

O menor calibre dos vasos sanguíneos e o baixo peso das crianças tornam a cirurgia tecnicamente mais complexa. Além das particularidades anatômicas, o tratamento precisa considerar o crescimento, o desenvolvimento infantil e a adesão dos responsáveis aos cuidados.

Por isso, o planejamento terapêutico abrange desde o preparo clínico individualizado antes da cirurgia até o acompanhamento de longo prazo, com a participação de diferentes especialidades médicas e de profissionais de psicologia, serviço social e nutrição.

6. Qual a importância da família durante o tratamento?

A participação dos responsáveis é fundamental para organizar consultas, exames e medicamentos e garantir a continuidade do tratamento após o transplante. A criança também deve ser gradualmente envolvida nos próprios cuidados.

A passagem para a adolescência exige atenção específica. O planejamento do Sabará inclui uma transição estruturada para essa etapa, considerada crítica para manter a adesão ao acompanhamento e ao uso correto dos medicamentos.

Transplantes na infância

Em 2025, o Brasil realizou 586 transplantes de órgãos sólidos em crianças e adolescentes, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Mais de mil crianças ainda aguardam por um órgão no país, e 50 morreram na fila de espera ao longo daquele ano. Os números abrangem diferentes órgãos, não apenas rins.

Fonte: Iniciado em 2017, o Programa de Transplante Renal do Sabará Hospital Infantil realizou, até o momento, 25 transplantes renais pediátricos com doadores falecidos. O atendimento reúne uma equipe multidisciplinar para o preparo antes da cirurgia e o acompanhamento após o procedimento, com apoio psicossocial e programas de transição para a adolescência.

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