Violência Obstétrica

Abuso físico, verbal, discriminação, negligência e falta de atenção são alguns tipos de violência obstétrica que podem causar danos físicos e psicológicos à mãe e ao bebê

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Violência obstétrica inclui frases agressivas, recusa de analgesia e manobras que levam dor à mulher

A violência obstétrica é um tema urgente, mas ainda pouco debatido na sociedade, apesar de não ser tão incomum. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de 2012, mostrou que 30% das mulheres atendidas em hospitais privados foram vítimas de violência obstétrica; no Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa é de 45%. “A violência obstétrica é reconhecida como qualquer ação ou omissão que cause dano físico, emocional ou moral à mulher durante a gestação, parto ou pós-parto. Abuso físico, verbal, discriminação, negligência e falta de atenção são alguns tipos de violência obstétrica que podem causar danos físicos e psicológicos à mãe e ao bebê”, explica o Dr. Nélio Veiga Junior, ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela UNICAMP.

Segundo o especialista, frases agressivas como “na hora de fazer não gritou”, recusa de analgesia, manobras proscritas como a de Kristeller (pressionar a barriga da mulher) e a realização de procedimentos sem consentimento, como episiotomia, são alguns dos exemplos da violência obstétrica que é caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como uma violação de direitos humanos. “No caso do abuso físico, ele pode incluir a agressão física, a imposição de procedimentos sem consentimento ou a falta de respeito pela dor e sofrimento da mulher. O abuso verbal compreende a utilização de linguagem humilhante, agressiva, ou que não respeita a dignidade e a subjetividade da pessoa que gesta”, diz o médico. “A falta de informação também é uma violência. Quando isso ocorre, informações claras e completas sobre os procedimentos, riscos e alternativas são negadas à mulher, ou não é esclarecido sobre o que está a acontecer. A negligência e falta de atenção se configura quando há a recusa de cuidados adequados, a negligência na assistência, ou a falta de apoio psicológico e emocional, que são formas de violência que podem ter sérias consequências para a mulher e o bebê”, diz o Dr. Nélio.

 A violência obstétrica também pode manifestar-se através da discriminação baseada em raça, etnia, idade, condição socioeconómica, questões de gênero, entre outros fatores. “As práticas de saúde que desrespeitam a autonomia da mulher e o seu direito de decidir sobre o seu corpo e o seu parto também são consideradas violência obstétrica”, explica o médico.

Os impactos da violência obstétrica dependem da forma como ela foi realizada. “Há danos físicos (lesões, dores e sequelas permanentes), psicológicos (traumas, depressão, ansiedade, síndrome do estresse pós-traumático e outros problemas de saúde mental), além de poder afetar a qualidade do vínculo entre a mãe e o bebé, prejudicando o processo de amamentação e o desenvolvimento da criança, e danos na confiança na saúde. Nesse caso, a experiência de violência obstétrica pode levar a uma perda de confiança nos profissionais de saúde e nas instituições de saúde, dificultando o acesso a cuidados futuros”, comenta o Dr. Nélio Veiga Junior.

Apesar da resistência de algumas entidades médicas, projetos de lei tentam reconhecer e penalizar a violência obstétrica no Brasil. O objetivo é proteger usuárias do sistema de saúde e promover boas práticas assistenciais. Para quem passou por violência obstétrica, o médico recomenda denunciar à direção ou ouvidoria do próprio hospital, à secretaria de saúde, aos conselhos de classe ou na Central de Atendimento à Mulher (Disque 180) ou Disque Saúde (Disque 136). “As práticas em Obstetrícia devem valorizar a mulher, contribuindo para a prevenção e o combate à violência obstétrica e promovendo o respeito pelos direitos e pela dignidade das mulheres”, finaliza o médico obstetra.

Fonte: DR. NÉLIO VEIGA JUNIOR: Médico ginecologista e obstetra, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Atua em consultório privado e já foi médico preceptor no curso de Medicina da UNICAMP e médico pesquisador no Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas. Participa periodicamente de congressos, eventos e simpósios, além de ser autor de diversos artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. CRM 162641 | RQE 87396 | Instagram: @neliojuniorgo

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