Medicina Fetal: Salvando Vidas antes Mesmo do Nascimento

Salvar vidas antes mesmo do nascimento

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Essa é a missão da medicina fetal, uma especialidade que alia tecnologia, precisão e coragem para intervir ainda durante a gestação em bebês com anomalias congênitas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 6% dos recém-nascidos no mundo apresentam alguma malformação, causando a morte de 240 mil bebês por ano. No Brasil, cerca de 15 a 20 centros realizam esse tipo de procedimento. Um deles é o Hospital e Maternidade Sepaco, referência em medicina de alta complexidade. Cada caso mobiliza a equipe médica — e deixa marcas profundas em quem atua nessa linha tão delicada entre a vida e a morte.

Jucilea Pereira Milhomem, mãe das gêmeas Laura e Lorena, sabe muito bem como a medicina fetal tem cada vez mais salvado vidas de bebês ainda não nascidos. Em janeiro, ainda grávida, Jucilea descobriu, durante uma ultrassonografia feita em Jundiaí, onde mora, que as filhas apresentavam a síndrome da transfusão feto fetal, o que impedia o crescimento de uma delas. Transferida no mesmo dia para o Hospital e Maternidade Sepaco, referência em casos de alta complexidade materno-infantil, em São Paulo, ela foi submetida a um procedimento cirúrgico.

– Os exames mostravam que as bebês estavam se desenvolvendo, mas uma delas tinha essa restrição de crescimento. Ela quase não tinha líquido em sua bolsa, estava toda coladinha na membrana. Eu nunca tinha ouvido falar nessa síndrome. Mas no hospital me explicaram tudo direitinho, inclusive o risco de perder os bebês. Tive muito medo da cirurgia, foi a primeira operação que fiz na vida, mas eu segui confiante. Fui com a fé que eu tinha e na confiança na média que me atendeu – relembra Jucilea. 

Na síndrome de transfusão feto fetal, ocorre uma transferência desigual de sangue entre os fetos, fazendo com que um deles receba mais fluxo sanguíneo do que o outro.

A intervenção cirúrgica minimamente invasiva, feita por via endoscópica, e chamada ablação de anastomoses placentárias, utilizou um laser para cauterizar os vasos e interromper a circulação anormal entre os fetos na placenta. Após o sucesso da cirurgia, as gêmeas nasceram no início de maio, com 35 semanas e 6 dias de gestação. Hoje mãe e filhas seguem se recuperando e no caminho para a alta hospitalar. 

A médica Mariana Azevedo, do Hospital e Maternidade Sepaco, conta que, além dos desafios técnicos, há o emocional de lidar com casos  que exigem resiliência, tanto dos profissionais quanto dos familiares, e decisões nada fáceis do ponto de vista humano: 

– Me lembro de um caso gravíssimo de restrição de crescimento fetal seletivo em gêmeos associado a sequência anemia-policitemia. Tinha quase certeza que o menor não sobreviveria após o procedimento devido à gravidade de seu quadro. Mas, aos poucos, ele foi melhorando. Hoje recebo fotos dos gêmeos da mãe deles. É sempre gratificante quando conseguimos mudar uma história – se emociona a médica Mariana Azevedo, do Hospital e Maternidade Sepaco, ao recordar a situação. 

A ultrassonografia morfológica do primeiro e segundo trimestres de gestação é a principal porta de entrada para essa jornada.  O exame do primeiro trimestre detecta cerca de 42% das malformações, enquanto o do segundo chega a identificar de 75% a 80%, de acordo com a médica. Esses exames ajudam a mapear com precisão possíveis anomalias que podem afetar a vida do bebê.

Existem algumas malformações ou complicações que ocorrem ainda na barriga da gestante que a cirurgia intrauterina tem benefício comprovado em aumentar a sobrevida neonatal ou melhorar os desfechos da criança, como diminuição da morbidade ou sequelas associadas. Os problemas de saúde mais frequentes nos fetos que permitem uma intervenção dentro do útero são: mielomeningocele ou espinha bífida, transfusão feto fetal, hérnia diafragmática congênita, obstruções da bexiga e cardiopatias congênitas. 

As técnicas vêm evoluindo. Muitos procedimentos hoje são minimamente invasivos, com câmeras de alta resolução e equipes cada vez mais experientes. Ainda assim, as complicações existem: há riscos de parto prematuro, ruptura de membranas e até óbito fetal. Para a mãe, os riscos incluem hemorragia, infecção e trombose venosa, entre outros.

– Sempre é importante apresentar todos os riscos, benefícios e limites da cirurgia, e ser muito correto e ético em respeitar os critérios de indicação e contraindicação, e sempre respeitar os valores da família, inclusive em não desejar o procedimento. Estamos falando de uma cirurgia que atinge dois corpos: mãe e feto. Por isso, os critérios precisam ser muito rigorosos. A cirurgia fetal deve ser como uma balança. Os riscos não podem se sobrepor aos benefícios– avalia a Dra Mariana Azevedo.

Cada condição tem seu período ideal para intervenção. Por exemplo, cirurgias para STFF (síndrome da transfusão feto fetal) são feitas entre 18 e 25 semanas e 6 dias. A mielomeningocele, entre 20 e 26 semanas e 6 dias. Já a oclusão traqueal na HDC ocorre entre 26 e 28 semanas. Após o nascimento, muitos desses bebês precisam de cuidados multidisciplinares contínuos, reforçando a importância de realizar esses procedimentos em centros especializados.

A medicina fetal é um campo onde a ciência, a técnica e a humanidade se entrelaçam. O objetivo maior, como lembra Mariana, é garantir não apenas o nascimento, mas também a qualidade de vida do bebê e da família que o espera com tanto amor e esperança.

Fonte: médica Mariana Azevedo, do Hospital e Maternidade Sepaco,

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