Relato de Taís Araújo reacende debate sobre a sobrecarga materna e os impactos na saúde mental

Especialistas explicam por que tantas mulheres sentem que nunca conseguem fazer o suficiente ao conciliar carreira, filhos e vida pessoal
Ao falar sobre os desafios de equilibrar a carreira com a maternidade, a atriz Taís Araújo deu voz a um sentimento compartilhado por milhares de mulheres. Em conversa com seguidores nas redes sociais, ela revelou que convive frequentemente com a sensação de não conseguir atender a todas as demandas da rotina, mesmo dividindo as responsabilidades familiares com o marido, o ator Lázaro Ramos.
O desabafo repercutiu justamente por retratar uma realidade cada vez mais comum: a sobrecarga mental enfrentada por mães que tentam administrar trabalho, cuidados com os filhos, tarefas domésticas e vida pessoal. Especialistas alertam que essa pressão constante pode favorecer o desenvolvimento de ansiedade, esgotamento emocional e sentimentos persistentes de culpa.
Dados da organização internacional Mothers in Business mostram que mais de 80% das mães que trabalham afirmam sentir culpa por acreditarem que não conseguem dedicar tempo suficiente à família ou à profissão. Já o estudo Women in the Workplace, desenvolvido pela McKinsey & Company em parceria com a LeanIn.Org, aponta que as mulheres continuam assumindo a maior parte da chamada carga mental da casa, mesmo quando exercem atividades profissionais em tempo integral.
Para a psiquiatra Juliane de Paula, a dificuldade em conciliar os diferentes papéis não está relacionada à falta de competência, mas ao elevado nível de cobrança imposto socialmente às mulheres.
“A maternidade ainda é cercada pela ideia de que a mulher precisa desempenhar todos os papéis com excelência ao mesmo tempo. Muitas mães acreditam que precisam ser profissionais produtivas, parceiras presentes, mães disponíveis e ainda encontrar tempo para cuidar de si. Essa busca pela perfeição é impossível e costuma gerar culpa, ansiedade e sensação permanente de insuficiência.”
Na avaliação da especialista, um dos fatores que mais contribuem para esse cenário é a comparação constante com modelos idealizados de maternidade.
“As redes sociais reforçam a impressão de que existe um modelo ideal de maternidade. As pessoas costumam mostrar apenas os momentos de sucesso, enquanto escondem o cansaço, as dificuldades e as frustrações. Isso faz com que muitas mulheres acreditem que são as únicas que não estão conseguindo dar conta de tudo.”
Além das responsabilidades visíveis, existe uma carga invisível que acompanha muitas mães ao longo do dia. É ela quem organiza mentalmente horários, consultas médicas, reuniões escolares, alimentação dos filhos e inúmeras outras tarefas, mesmo durante o expediente de trabalho.
Segundo o psiquiatra Ciro Jorge, esse excesso de preocupações permanentes impede que o cérebro tenha períodos adequados de descanso.
“Muitas mães continuam trabalhando mentalmente mesmo quando encerram o expediente. Elas precisam lembrar da reunião da escola, da consulta médica, das compras da casa, das atividades dos filhos, além das demandas profissionais. O cérebro praticamente não encontra momentos de descanso, o que favorece quadros de ansiedade, irritabilidade, insônia e esgotamento.”
De acordo com o especialista, permanecer em estado constante de alerta também provoca consequências físicas.
“Quando a mente permanece em estado constante de alerta, o organismo entende que está diante de uma ameaça contínua. Com o passar do tempo, isso pode provocar fadiga emocional, alterações do humor e até sintomas físicos, como dores de cabeça, tensão muscular e problemas gastrointestinais.”
Os especialistas ressaltam que reduzir essa sobrecarga passa, necessariamente, pela divisão efetiva das responsabilidades familiares. Mais do que ajudar em tarefas pontuais, é importante compartilhar a organização da rotina e o planejamento do dia a dia.
“É importante entender que parceria não significa apenas executar tarefas quando solicitado. Significa dividir o planejamento, a organização e a responsabilidade pelas decisões do dia a dia. Quando toda essa carga permanece concentrada em uma única pessoa, o adoecimento emocional se torna muito mais provável”, explica Juliane de Paula.
Para Ciro Jorge, também é fundamental abandonar a ideia de que existe uma maternidade perfeita.
“Buscar equilíbrio não significa fazer tudo perfeitamente. Significa estabelecer prioridades, aceitar limitações e compreender que cuidar da própria saúde emocional também é uma forma de cuidar da família.”
Ao tornar pública uma dificuldade vivida por tantas mães, Taís Araújo ajuda a ampliar um debate que ultrapassa o universo das celebridades. Especialistas destacam que reconhecer os próprios limites, compartilhar responsabilidades e abandonar a auto cobrança excessiva são atitudes importantes para preservar a saúde mental e tornar a maternidade uma experiência mais leve e saudável.
Fonte: psiquiatra Juliane de Paula – psiquiatra Ciro Jorge

