O Cérebro Aprende a Comer antes de Aprender a Falar

O cérebro aprende a comer antes de aprender a falar e isso molda nossa relação com a comida por toda a vida

Experiências alimentares na infância influenciam padrões emocionais, preferências e até respostas cerebrais diante da comida na vida adulta, explica a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram

A relação que um adulto tem com a comida pode começar muito antes do que se imagina, ainda nos primeiros anos de vida, quando o cérebro está em pleno desenvolvimento e antes mesmo da aquisição da linguagem. É o que apontam estudos recentes da área de comportamento alimentar e neurociência, que mostram como experiências alimentares na infância moldam padrões que podem persistir ao longo de toda a vida.

De acordo com a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, o aprendizado alimentar vai muito além da nutrição. “A forma como somos alimentados na infância não ensina apenas o que comer, ensina como lidar com emoções, frustrações e prazer. O cérebro associa comida a experiências afetivas muito antes da linguagem se desenvolver”, afirma.

Pesquisas indicam que comportamentos alimentares adquiridos na infância tendem a se manter ao longo do tempo, influenciando hábitos e até a saúde na vida adulta. Um estudo publicado no National Institutes of Health (NIH) mostra que padrões alimentares precoces estão diretamente relacionados às escolhas alimentares futuras e ao risco de doenças metabólicas.

Além disso, práticas comuns no ambiente familiar, como usar comida como recompensa ou consolo, podem ter impactos duradouros. Segundo uma revisão científica também publicada pelo NIH, esse tipo de estratégia está associado ao desenvolvimento de alimentação emocional, na qual a comida passa a ser utilizada como resposta a sentimentos, e não à fome fisiológica. “Quando usamos comida para acalmar, distrair ou recompensar uma criança, o cérebro aprende que comer é uma estratégia emocional. Isso não desaparece na vida adulta, apenas muda de forma”, explica Sophie.

A ciência também mostra que essas experiências não ficam apenas no comportamento, elas moldam o próprio funcionamento cerebral. Estudos em neuroimagem indicam que o ambiente alimentar na infância influencia a forma como o cérebro responde a estímulos relacionados à comida, incluindo desejo, recompensa e saciedade. “A relação com a comida não começa no prato, começa no vínculo. O ambiente alimentar da infância programa respostas cerebrais que podem acompanhar a pessoa por décadas”, diz a especialista.

Para Sophie, compreender essa origem é essencial para reduzir a culpa frequentemente associada à alimentação na vida adulta. “Não é falta de controle ao comer. Muitas vezes, é um aprendizado inconsciente que aconteceu nos primeiros anos de vida, quando o cérebro ainda estava formando suas conexões emocionais”, afirma.

Abaixo, Dra Sophie compartilha dicas de como construir uma relação mais saudável com a comida desde a infância:

  1. Evite usar comida como recompensa ou puniçãoIsso pode ensinar a criança a associar comida a emoções, e não à fome
  2. Respeite sinais de fome e saciedadePermitir que a criança escute o próprio corpo é fundamental para o desenvolvimento da autorregulação
  3. Não rotule alimentos como “bons” ou “ruins”Isso pode gerar culpa e aumentar o desejo por determinados alimentos
  4. Crie um ambiente alimentar positivoMomentos à mesa devem ser tranquilos, sem pressão ou conflitos
  5. Dê o exemploO comportamento dos adultos é uma das principais referências para a criança
  6. Evite pressão para “limpar o prato”Isso pode desconectar a criança dos próprios sinais internos de saciedade

Ao lançar luz sobre a origem da nossa relação com a comida, a ciência reforça a importância de olhar para a infância não como um detalhe, mas como a base de comportamentos que se estendem por toda a vida. Para Sophie Deram, ampliar esse entendimento é um passo essencial para transformar a forma como indivíduos, famílias e até profissionais de saúde abordam a alimentação. “Quando entendemos de onde vem nosso comportamento alimentar, abrimos espaço para relações mais conscientes, menos culpabilizadoras e, sobretudo, mais saudáveis”, conclui.

Fonte: Sophie Deram é nutricionista, autora best-seller, pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar e uma das principais vozes no Brasil sobre alimentação consciente e comportamento alimentar. Francesa naturalizada brasileira, é doutora pela Faculdade de Medicina da USP no departamento de endocrinologia. Ela coordena o projeto de genética do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC-FMUSP), com pesquisas em obesidade, obesidade infantil, nutrigenômica e neurociência do comportamento alimentar

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