Um peso a menos: emagrecer aumenta chance de gravidez, com melhora dos hormônios e qualidade de gametas

Com efeitos além da balança, emagrecimento melhora parâmetros reprodutivos em homens e mulheres, segundo evidências recentes, com efeito nos hormônios, no metabolismo e na qualidade dos gametas
A relação entre peso corporal e fertilidade vem ganhando contornos cada vez mais claros na literatura científica, ainda mais agora com o boom das canetas destinadas ao tratamento da obesidade. Muito além de uma questão estética, o excesso de gordura corporal é um “peso a mais” na luta de casais contra a infertilidade, interferindo diretamente na produção hormonal, na qualidade dos óvulos e espermatozoides e até no ambiente metabólico necessário para a fecundação. “Na prática, isso se traduz em menor chance de gravidez: mulheres com sobrepeso ou obesidade podem apresentar até 30% menos probabilidade de engravidar ao longo de um ano de tentativas, em comparação com aquelas com peso adequado. Nos homens, o efeito também é importante, com redução da qualidade e quantidade de espermatozoides”, explica o Dr. Rodrigo Rosa, especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime.
No organismo feminino, o tecido adiposo atua como um “órgão endócrino paralelo”, alterando a produção de estrogênio e desregulando o eixo hormonal responsável pela ovulação. “Esse desequilíbrio pode comprometer a liberação do óvulo ou reduzir sua qualidade, especialmente em condições como a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), frequentemente associada ao excesso de peso e à resistência à insulina”, diz o médico. Estudos recentes reforçam que o emagrecimento pode atuar como um “ajuste fino” desse sistema. Uma revisão sistemática e meta-análise sobre perda de peso antes da fertilização in vitro (FIV) sugere aumento nas taxas de gravidez, especialmente em concepções espontâneas. “Embora os estudos ainda apresentem limitações metodológicas, os achados apontam para um benefício consistente da melhora metabólica antes da tentativa de engravidar”, completa o Dr. Rodrigo.
Esse efeito também aparece em cenários mais próximos da vida real. Um estudo de coorte com dados populacionais do Reino Unida identificou associação entre perda de peso e melhores desfechos reprodutivos em mulheres com sobrepeso ou obesidade, incluindo aquelas com SOP. “Um dado relevante é que a pesquisa não se restringiu a mulheres em tratamento de fertilidade, o que sugere que o impacto positivo do emagrecimento pode ser ainda mais expressivo entre aquelas que estão tentando engravidar ativamente”, comenta o médico.
Outra revisão sistemática demonstrou que intervenções para perda de peso antes da concepção aumentam as taxas de gravidez, embora sem impacto significativo nas taxas de nascidos vivos ou abortos espontâneos. “Isso indica que o emagrecimento pode facilitar a fecundação, ou seja, o encontro entre óvulo e espermatozoide, mas não necessariamente garante a evolução completa da gestação, que depende de múltiplos fatores adicionais”, diz o Dr. Rodrigo Rosa.
No caso dos homens, o excesso de gordura corporal também exerce efeitos importantes, ainda que menos discutidos. A obesidade está associada à redução da testosterona, piora da espermatogênese e alterações na qualidade do sêmen, incluindo menor concentração, mobilidade e maior fragmentação do DNA espermático, fatores diretamente ligados à capacidade de fecundação. “Um dado que chama atenção vem de um estudo com casais submetidos a técnicas de reprodução assistida: em ciclos com injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI), a chance de nascimento de um bebê foi 84% menor quando o parceiro masculino era obeso, em comparação com homens com IMC normal. O achado reforça que a fertilidade deve ser encarada como uma responsabilidade compartilhada pelo casal”, diz o Dr. Rodrigo.
Além disso, novas linhas de pesquisa ampliam esse entendimento ao investigar o chamado microbioma do sêmen. “Esses trabalhos indicam que a obesidade pode alterar a composição bacteriana seminal, impactando negativamente a qualidade dos espermatozoides, a integridade do DNA e o equilíbrio oxidativo, fatores que podem comprometer tanto a fecundação quanto o desenvolvimento embrionário inicial”, explica o médico.
De forma geral, a perda de peso, mesmo que moderada, pode melhorar significativamente o ambiente metabólico e hormonal necessário para a reprodução. “Não se trata apenas de emagrecer, mas de restaurar um equilíbrio fisiológico que favoreça desde a ovulação até a qualidade dos espermatozoides. Apesar dos avanços, com relação à fertilidade, a literatura ainda não sustenta uma recomendação única sobre qual estratégia de emagrecimento é mais eficaz: por meio de mudanças no estilo de vida, intervenções comportamentais ou medicações. No entanto, o consenso é que a melhora da saúde metabólica representa um passo importante para casais que desejam engravidar”, destaca o médico.
No fim das contas, a fertilidade funciona como um sistema sensível, quase como uma engrenagem biológica de precisão: quando o metabolismo entra em descompasso, todo o processo pode ser afetado. “Ajustar o peso corporal, nesse contexto, não tem relação somente com números na balança, mas também com criar as condições ideais para a gravidez”, finaliza.
Fonte :*DR. RODRIGO ROSA: Ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, e do Mater Lab, laboratório de Reprodução Humana. Membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), o médico é graduado pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Especialista em reprodução humana, o médico é colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana” da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. CRM 119789 | RQE 61439. Instagram: @dr.rodrigorosa

