Asperger x TEA

Especialista explica como identificar a síndrome e possibilidades de tratamento

Ao contrário do que muitos pensam, a Síndrome de Asperger já foi considerada uma condição classificada como um Transtorno Global do Desenvolvimento, mas, desde 2013, passou a integrar o diagnóstico único de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Hoje, a síndrome corresponde, em geral, a TEA nível 1 de suporte, ou seja, indivíduos com linguagem formalmente preservada, inteligência dentro ou acima da média e dificuldades significativas de interação social e flexibilidade comportamental.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), com dados de 2022, mundialmente, cerca de 1 em cada 31 crianças de 8 anos nos Estados Unidos foi identificada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que corresponde a aproximadamente 3,2% das crianças nessa idade. Esse número representa um aumento em relação ao relatório anterior, que informou 1 em 36 crianças com TEA com base em dados de 2020.

“Isso não significa que haja mais casos reais, pois pode refletir maior conscientização, melhor detecção e diagnóstico, ampliação de acesso a serviços de avaliação e mudanças nas práticas de identificação e registros clínicos”, conta Marcela Dalla Bernardina Fraga Toso, coordenadora nacional da pós-graduação em Neuropediatria da Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil.

A coordenadora respondeu algumas questões sobre o tema, confira:

Qual a diferença entre Síndrome de Asperger e Transtorno do Espectro Autista?

R: Atualmente, não há diferença diagnóstica oficial. Antes do DSM-5, o Asperger era sem atraso de linguagem e sem deficiência intelectual enquanto o autismo clássico, frequentemente, tinha atraso de linguagem e/ou deficiência intelectual. Agora, tudo passou a ser classificado como TEA, com especificadores: Nível de suporte (1, 2 ou 3); com ou sem deficiência intelectual e com ou sem prejuízo de linguagem. Ou seja, Asperger é uma nomenclatura antiga dentro do espectro autista.

Como identificar a Síndrome de Asperger (TEA nível 1)?

R: Os sinais geralmente aparecem na infância, mas muitos casos são identificados apenas na adolescência ou vida adulta. As principais características são dificuldade em entender regras sociais implícitas, interpretação literal da linguagem, dificuldade com ironias e metáforas, pouca reciprocidade emocional, interesses restritos e intensos, rigidez cognitiva e sensibilidade sensorial (som, textura, luz). Em meninas, pode haver camuflagem social, atrasando o diagnóstico.

Quais os principais sintomas?

R: De acordo com o DSM-5, os sintomas se organizam em dois grandes domínios. O primeiro é os déficits persistentes na comunicação e interação social, ou seja, dificuldade em iniciar e manter conversas, problemas na linguagem não verbal (contato visual, gestos) e dificuldade em desenvolver e manter relacionamentos. Outro domínio são padrões restritos e repetitivos de comportamento como rotinas rígidas, interesses específicos e intensos, hiperfoco e alterações sensoriais, gerando um transtorno do processamento sensorial (TPS).

Quais os tipos de tratamentos existentes?

R: Intervenções baseadas em evidência como: terapia cognitivo-comportamental (TCC), treinamento de habilidades através da Análise Comportamental Aplicada-ABA, de forma individualizada, terapia ocupacional (tratamento do TPS e treino de atividades de vida diárias, buscando independência e autonomia), fonoaudiologia e medicação (quando há comorbidades como TDAH, ansiedade, TOD).

É possível melhorar a qualidade de vida com tratamento? Como?

R: Sim, significativamente. O tratamento ajuda a melhorar habilidades sociais, reduzir ansiedade, desenvolver estratégias de regulação emocional, aumentar a autonomia e melhorar o desempenho acadêmico e profissional. Muitos adultos com TEA nível 1 têm carreira, relacionamentos e vida funcional satisfatória quando recebem suporte adequado.

O que pode causar o TEA?

R: O TEA tem forte base genética e neurobiológica. Os principais fatores envolvidos são alta herdabilidade (estimada entre 60–90%), alterações genéticas (variantes raras e comuns) e fatores ambientais pré-natais (idade parental avançada, prematuridade, complicações gestacionais, como diabetes estacionais, uso de medicações e infecções). Ao contrário do que muitos acreditam, o TEA não é causado por vacinas, nem falta de afeto e nem estilo parental.

Como é feito o diagnóstico?

R: O diagnóstico é clínico e baseado em entrevista detalhada com paciente/família, observação comportamental, critérios do DSM-5 e avaliação multiprofissional (quando necessário). Alguns instrumentos auxiliares podem incluir ADOS-2, ADI-R e escalas comportamentais. Não existe exame de sangue ou imagem que confirme TEA.

Qual o perfil mais propenso?

R: O TEA é mais diagnosticado em meninos (aproximadamente 3–4:1). O perfil clássico antigo de Asperger é inteligência média ou acima da média, linguagem formalmente preservada, interesses técnicos ou muito específicos e dificuldade social evidente. Atualmente reconhece-se subdiagnóstico em meninas, diagnóstico tardio em adultos e alta associação com TDAH, ansiedade e depressão.

Fonte: Marcela Dalla Bernardina Fraga Toso, coordenadora nacional da pós-graduação em Neuropediatria da Inspirali,

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